O jornalista e o mercado de trabalho

Texto lido (em parte) na aula inaugural do Curso de Jornalismo da UFSC, em 30 de março de 2009, como parte da comemoração dos 30 anos de criação do Curso. Republico aqui porque em 2019 o Curso completa 40 anos de fundação.

Mesa com convidados, na solenidade dos 30 anos.
A mesa com os convidados especiais para a aula inaugural. Da esquerda: Paulo Brito, Cesar Valente, Orlando Tambosi, Moacir Pereira e Maria Elena Hermosilla.
Foto Paulo Noronha/Acervo Agecom/UFSC.

Uma das manias mais chatas que os velhos jornalistas têm, é a de achar que os novos jornalistas querem ouvi-los ou pelo menos conhecer suas experiências. Isso tem levado vários de nós, anciãos, às universidades e faculdades, para fazer de conta que somos professores, na ilusão de ter algo a ensinar ou de encontrar quem queira “aprender”.

Outros, quando ainda nas redações, dão discursos ao redor da mesa do cafezinho, com maior ou menor sucesso. Às vezes, a rodinha se desfaz rapidamente, às vezes a turma fica por ali, como se realmente estivesse interessada no que o velho jornalista fala.

O fato é que aquela lenda urbana, segundo a qual jornalismo se aprende fazendo, não se sustenta. Primeiro, porque as redações estão tão “enxutas” que ninguém tem tempo de conversar trivialidades, quanto mais de fazer transmissão de tecnologia e vivências. Depois, porque há cada vez menos jornalistas experientes (ou velhos, como queiram), nas redações.

Boa parte da minha formação jornalística deu-se, ou se consolidou, em mesas de bar. Não que o álcool ou as frituras tenham algo a ver com isso, mas pelo simples fato que, depois do expediente, os velhos e os moços iam para o mesmo lugar: o botequim mais próximo da redação. E a conversa invariavelmente passava pelos bastidores e meandros do exercício profissional. Só depois, bem mais tarde, é que se jogava conversa fora.

Hoje, na irreal suposição que ainda houvesse gente de cabelos brancos nas redações, à noite há uma divisão clara de destinos: a moçadinha não freqüenta mais botequins. Vai pra balada, pra “night”. Mesmo porque os bares clássicos, na esteira dos velhos jornalistas, estão desaparecendo rapidamente.

Os poucos jovens remanescentes que ainda teriam prazer em compartilhar uma didática e proveitosa noitada em torno de algumas cervejas ou chopes, ganham tão mal que não podem se dar a esse “luxo”. Só se for uma vez por mês, no dia em que sai o pagamento. E olhe lá.

Mas, como vocês já perceberam que eu sou um velho jornalista, permitam-me que aproveite o fato de ter uma platéia e continue fazendo o que geralmente os velhos jornalistas fazem: falar sobre a nossa profissão.


Não sei se ando mal informado, mas acho que muito pouco se tem escrito para os coitados dos estudantes de Jornalismo, depois da decisão da juíza que odeia jornalistas, acabando com a regulamentação profissional. E depois das outras idas e vindas legais, que vão culminar com a decisão do Supremo Tribunal Federal, depois de amanhã ou qualquer outro dia, sobre a questão. O fato é que hoje ninguém pode afirmar com certeza se o jornalismo é uma profissão regulamentada ou não. Neste minuto é, mas daqui a pouco poderá não ser mais.

Atualização: em junho de 2009 o STF “desregulamentou” completamente a profissão de jornalista, ao entender que “é inconstitucional a exigência do diploma de jornalismo e registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício da profissão de jornalista”. Não é preciso nem registro nem qualquer nível de escolaridade para exercer as funções outrora reservadas a jornalistas profissionais.

Imagina só: montoeiras de jovens estão, neste momento, no meio de um curso que prepara (ou deveria preparar) para exercer uma profissão que virou pó e que o vento sul está levando para o alto mar tal e qual aquele padre pendurado nos balões.

Podemos também imaginar, só para ilustrar e dar maior dramaticidade, que eu tivesse sido convidado para paraninfar alguma das milhares de turmas de formandos de Jornalismo em algum dos inúmeros cursos, de todos os tipos, qualidades e tamanhos que abundam no País. O que diria? O que poderia dizer?

Acho que começaria pedindo desculpas, em meu nome e de tantos companheiros, por sempre ter dado a impressão que esta era uma profissão divertida, fascinante e apaixonante. Se nós todos, que habitamos as redações durante tantos anos, tivéssemos tido um comportamento mais contido, talvez os jovens não tivessem sido atraídos para essa arapuca.

Cesar Valente, em 2009
Eu, na solenidade de 2009. Foto Paulo Noronha/Acervo Agecom/UFSC

Continuaria a fase de penitência comentando como nos arrependemos de ter desafiado alguns poderosos, revelado alguns segredos e com isso feito crescer a lenda de que nesta profissão a gente faz isso todos os dias. E ajudado a construir mentiras que têm sido repetidas à exaustão: que somos paladinos da justiça, cavaleiros do bem e da verdade, defensores dos pobres e oprimidos.

Talvez o erro mais grave tenha sido mesmo silenciar sempre que, em público, alguém fazia a clássica confusão entre jornalistas e empresas jornalísticas, falando num ente chamado “imprensa” como se estivesse sendo claro e preciso. Um exemplo: há coisa mais ambígua e cheia de subtextos que expressões como “liberdade de imprensa”?

É preciso dizer que, se os corretores de imóveis sentem necessidade de preparar-se melhor, se já estão falando até em exigir curso superior para permitir que alguém tenha sua autorização do Creci para servir de intermediário em negócios imobiliários, é porque nem tudo está perdido. Pode ser que, depois de compreendida a necessidade do estudo e do treinamento para mais umas dez ou vinte profissões, finalmente alguém volte a entender que o jornalista também deveria saber, pelo menos, escrever dois parágrafos sem cometer vinte ou trinta erros.

E que o jornalista deveria saber captar as informações e relatá-las sem aumentar um ponto, sem distorcer o sentido, sem transformar tudo numa confusa maçaroca de gerúndios, super gerúndios, adjetivos bajulatórios e informações incompletas.


A discussão sobre a regulamentação da profissão de jornalista é antiga e constante. Parece que nunca houve consenso sobre isso. Lembro que em 1979, quando participava do grupo que montava o projeto do Curso de Jornalismo da UFSC (liderado pelo Moacir Pereira e na companhia do Paulo Brito e dos professores Celestino Sachet e Aurora Goulart), pensava e dizia que a gente tinha que fazer um curso que fosse útil e necessário mesmo depois da abolição da exigência do diploma.

Portanto, há 30 anos já se falava, como se fala agora, que o diploma, para os jornalistas é exigência descabida, que estabelecer algum tipo de regulamento para que se exerça a profissão é bobagem. Ouço a frase “não é o diploma que faz o jornalista” desde que comecei a dizer, na redação de O Estado, em 1972, que pretendia fazer o curso de Jornalismo.

Lembro de uma conversa que tive com o editor, Sérgio da Costa Ramos, sobre isso. Tinha contado que ia fazer vestibular de jornalismo na PUC, em Porto Alegre. E ele comentou que era tempo perdido. Se eu continuasse a trabalhar no jornal, dali a quatro anos estaria melhor do que estaria ao voltar com o diploma. Na época os jornalistas, em boa parte, tinham cursado Direito.

Anos mais tarde, já na década de 90, era o editor encarregado dos suplementos especiais (chamados lá de Relatórios) da Gazeta Mercantil e fui chamado pelo Diretor de Redação, Mário Almeida, para levar à prática um programa de trainees para o jornal. A partir da idéia dele, instalei o programa e o coordenei por três anos. Era basicamente um processo de seleção que oferecia, para os 30 melhor colocados, a oportunidade de freqüentar um curso de um mês, na sede da Gazeta, em São Paulo. Ao final do curso, devidamente avaliados e classificados, recebiam um certificado e eram chamados à medida em que se abriam vagas no jornal.

O Diretor, assim como toda a cúpula editorial do jornal, tinham enormes restrições aos jornalistas formados. O próprio Mário era um engenheiro químico, formado pela Politécnica. E dizia que eu não deveria privilegiar, na seleção, os alunos de jornalismo. Dizia isso às vezes brincando, às vezes a sério, porque sabia que eu tinha sido professor de Jornalismo (aliás, um dos motivos pelos quais fui escolhido para tocar o projeto).

As inscrições eram feitas no segundo semestre, em agosto ou setembro, e o curso era em janeiro. Tivemos de mil a quase três mil inscritos por ano. Em sua maioria, naturalmente, recém-formados de cursos de Jornalismo. E ao me envolver nas várias etapas da seleção (cujo passo inicial era um texto de 15 linhas que, surpreendentemente, eliminava centenas, por não conseguirem se expressar sem erros mesmo em tão poucas frases), comecei a perceber como é deficiente a formação que os jornalistas recebem na maioria das escolas.

Acabei, se não concordando, pelo menos entendendo melhor aquelas restrições que os colegas faziam aos jornalistas formados. Tem gente muito, muito, muito ruim com diploma de jornalista.

A reserva de mercado cria uma excrescência: o sujeito acha que lhe basta o diploma para exercer a profissão. E as escolas acham que não importa muito o nível do ensino, desde que ao final forneçam um diploma. E não é bem assim. Mas no jornalismo brasileiro não existe um órgão que se preocupe com o exercício profissional. Uma OAB, um Crea, um CRM. Nem as más escolas nem os maus profissionais correm qualquer risco.

E o jornalismo, como tantas outras profissões, exige, além da formação acadêmica, boa cultura geral e aquilo que própria ou impropriamente se chama de “vocação”. Tive, entre os trainees da Gazeta, gente formada em Engenharia, em Economia, em Letras e mesmo em Jornalismo, que se destacou. No momento em que não se leva em conta o diploma, mas apenas se avalia o que a pessoa sabe fazer, pode fazer e seu potencial para determinada atividade, vê-se que nem todos os formados em jornalismo estão bem preparados.

Havia, nos formados de outros cursos que se destacaram, um componente fundamental: a vontade de ser jornalista. Isso fez com que eles, além do que aprenderam na escola, aprimorassem a escrita, lessem muito e se interessassem sobre as técnicas do jornalismo. Como queriam entrar numa área que não lhes era “reservada”, se esforçaram bastante. Esse esforço e a centelha que leva a isso faziam falta naqueles que tinham o diploma que lhes “garantia o mercado”. A maioria parecia acomodada, conformada ou apenas confiante que não precisava nada mais do que a escola (mal e mal) lhes deu.

Por outro lado, no dia-a-dia de uma redação se a gente, como editor, recebe na equipe um colega que não passou por uma escola, ou que teve uma formação deficiente, sofre bastante. Como disse no começo, as redações não são mais como aquelas confrarias de antigamente, onde havia tempo até para orientar, ensinar e aconselhar os mais jovens. As equipes hoje são enxutas, o trabalho é muito e o normal é que o profissional permaneça muito tempo sabendo apenas aquilo que já sabia quando chegou. No máximo adquire alguns cacoetes novos, automatiza seus procedimentos e, se era medíocre, mantém-se medíocre.

Não é à toa que em países onde o diploma específico não é obrigatório para o exercício profissional, existam excelentes escolas de jornalismo e os bons alunos sempre encontram boas colocações. As melhores empresas, que valorizam a qualidade, sempre vão preferir alguém que saiba o bê-á-bá. Custa muito caro, em tempo e dinheiro, formar internamente um profissional.

Nos programas de trainee, como esse da Gazeta que eu coordenei, ainda que o diploma de jornalista não seja decisivo, a formação superior e o conhecimento das ferramentas básicas são fundamentais. E quando falo em ferramenta básica é claro que não estou me referindo ao uso do computador, ao conhecimento de softwares ou de normas de redação. Falo de entender a conjuntura, de saber contar uma história, de reconhecer uma notícia, de estar antenado, de cultura geral (política, história, literatura, economia, geografia, matemática, química, física, etc.).

E o mais importante: a desregulamentação pura e simples da profissão de jornalista não beneficia o leitor, o espectador, o consumidor de informação jornalística. Não há, na proposta, qualquer preocupação com a qualidade da profissão ou do profissional. Claro que a má qualidade das escolas é usada como argumento, mas no Direito e na Medicina também há um número absurdamente grande de escolas abaixo da média. A qualidade do ensino profissional é outra questão.

O que se pretende é liberar os empregadores das amarras e desorganizar uma corporação profissional que nem é assim tão unida e aguerrida. Claro que algumas conquistas dos jornalistas incomodam profundamente as empresas: o limite de cinco horas diárias, por exemplo. A insistência em que as empresas de rádio e TV tenham jornalistas (não sei por que, eles preferem ter apenas funcionários ligados ao sindicato dos radialistas). E uma independência, às vezes incômoda, que um profissional de nível superior e cioso do seu ofício tem.

Como numa fábrica de tamancos do século retrasado, o mau patrão gosta de ter, sobre todos os seus funcionários, controle integral. Isso de que não se briga com o fato, que se é notícia deve ser publicada, não cola. O sonho desses mercenários que mantém veículos de comunicação (com todas as honrosas exceções de praxe) é chegar ao nível de descomplicação da extinta revista Metrópole e outras tantas, ainda em circulação. Pagou, entrou. E só se publica o que a pessoa quer que publique, pagando ou não. Não tem rolo, não tem discussão. E o faturamento tá garantido.

E o que pode significar o final da regulamentação profissional dos jornalistas para o leitor, o telespectador? É provável que ninguém note a diferença. Há muito tempo as emissoras de rádio e de TV vêem driblando a exigência de curso de jornalismo para exercer funções reservadas a jornalistas: criaram outros nomes para as funções e colocam nelas radialistas ou outro tipo de não jornalistas.

Nos grandes jornais, a exigência do diploma é vista como uma interferência indevida no direito que as empresas têm, de empregar quem eles bem entenderem. Na verdade, ninguém está preocupado com o cerceamento da liberdade de expressão. Esta é uma bobagem que é dita aqui e ali, para sensibilizar os idiotas.

Mesmo com a legislação atual, qualquer pessoa pode escrever, remuneradamente ou não, nos jornais. Extinguir a regulamentação profissional não abrirá mercado de trabalho, não abrirá novos canais de expressão, não aliviará em nada a vida daqueles que acham que não têm voz.

Mas, é claro, dará um refresco para as empresas, que não precisarão mais pagar piso salarial, não terão obrigação de respeitar limite de horas trabalhadas (hoje são cinco horas, com acréscimo de no máximo duas horas). E deixarão de ter, pegando nos seus pés, alguns sindicatos pentelhos que ficam cobrando direitos trabalhistas que constam da regulamentação profissional.


O auditório do CCE.
O auditório do CCE estava bem cheio. Foto do Paulo Noronha/Acervo Agecom/UFSC.

Bom, mas vamos deixar de lado essa questão do diploma. O mercado de trabalho não se organiza a partir de reservas de mercado. Ele se organiza a partir de necessidades concretas das empresas e dos indivíduos. E os profissionais não devem construir suas carreiras dormindo o sono dos justos sob ou sobre seus diplomas. Precisam desenvolver suas melhores habilidades e ir à luta, oferecendo soluções para problemas. No nosso caso, para problemas de comunicação.

A Lauren Drablier comentou há alguns meses, no The Editors Weblog, blogue do Forum Mundial de Editores, artigo publicado na Examiner, sobre o futuro do emprego (ou do trabalho) em jornalismo.

“A grande questão é como o jornalista vai se virar, num ambiente em que o jornalismo está em ebulição e crescimento e os jornais não.”

Segundo o artigo (de John Kirch), os jornalistas precisam aprender não só a ouvir as fontes, mas também a escrever as notícias para diferentes plataformas de mídia e, além disso, entender os princípios básicos da economia e dos negócios, para poderem colocar-se no mercado. “Vender” sua força de trabalho. Os jornalistas vão precisar “vender-se” continuamente (continuously market themselves) para múltiplas organizações noticiosas, em vez de ficar trabalhando o tempo todo para uma única empresa.

Amar Bakshi, um repórter e cinegrafista do Washingtonpost.com, diz que “o que é legal na web… é que você pode desenvolver uma marca própria, para que as pessoas o acompanhem”.

Kevin Blaickistone, um redator de esportes e professor na faculdade de jornalismo de Maryland acredita que “o jornalismo não está morto. O jornalismo está vivo e passa muito bem. Eu diria mesmo que o jornalismo está florescendo”.

E eu, cá do meu canto nesta bela ilha no Sul do mundo, acrescentaria que o jornalista de países cuja língua não é o inglês, além de ter que aprender a lidar com uma vida profissional cada vez mais “free” e saber contar suas histórias por diversos canais, terá que — obrigatoriamente — saber, no mínimo, ler inglês.

A internet, que nos permite acesso instantâneo a tudo o que esteja sendo publicado de importante no mundo, perde muito da sua amplitude se a gente não consegue saber do que estão falando. E, se for esperar por alguma tradução, perdeu o bonde da história.

Outra coisa: aquela história de economia globalizada não é um troço abstrato e distante. A economia globalizou-se mesmo. Inclusive no jornalismo. Não é raro aparecerem clientes estrangeiros pedindo matérias sobre o Brasil, ou sobre Florianópolis. Isso é uma oportunidade de trabalho para jornalistas que morem por aqui e que consigam expressar-se em inglês. No mínimo para trocar e-mails, conversar no skype, negociar preços e pautas. O texto final até pode ser entregue a um tradutor profissional para ficar bonitinho. Mas o dia-a-dia exige um traquejo que vai muito além da antiga habilidade de chegar numa empresa e perguntar: “tem vaga pra jornalista?”

Para vocês terem uma idéia de como o mercado perdeu essa face organizada, de trabalho regular com carteira assinada, até 2001, “viver de frila” não era uma opção profissional para os jornalistas, em São Paulo. Fazer “frila” (trabalho sem vínculo empregatício) era uma coisa esporádica, para reforçar o orçamento ou nas poucas semanas vagas entre um emprego e outro. Depois da implosão da Gazeta Mercantil e da reformulação da política de pessoal dos demais jornais, com enxugamento das redações e redução salarial, é mais fácil encontrar colegas “vivendo de frila” do que empregados.

O mais interessante é que, em muitos casos, o “frila” é para as mesmas empresas jornalísticas que antes contratavam esses profissionais. Elas têm, agora, no seu quadro de colaboradores, além dos empregados regulares (cada vez menos), alguns prestadores de serviços (jornalistas contratados como pessoas jurídicas) e vários “frilas” (cada vez mais).


E neste novo mundo, onde estão as oportunidades? O que é preciso conhecer e saber para não ficar pra trás? Ora, a primeira coisa é perceber que não existe mais o jornalista que só transmite suas informações por um canal ou um veículo. Deixou de ser relevante se a matéria será para revista, jornal, rádio, internet, TV ou podcast. Mas é cada vez mais importante que a informação seja bem apurada, correta, realmente original e completa.

A única coisa que tem valor, em qualquer veículo de comunicação, é a informação. A notícia. E será mais valiosa quanto melhor apurada.

A gente pode saber se a reportagem será boa ou ruim mesmo antes dela ser escrita. Basta conversar com o repórter. Se ele souber tudo a respeito do assunto que foi investigar, inclusive detalhes importantes que amadores distraídos ou jornalistas incompetentes geralmente “esquecem” e souber contar a história em poucas palavras, sabendo do que está falando, então teremos uma boa matéria.

Mesmo que ele, ou ela, acabe não fazendo um texto brilhante, se tem as informações essenciais, um editor habilidoso consegue consertar o texto. Mas, se faltam informações, não tem quem salve a matéria. Fica uma coisa capenga, daquelas que afugentam o leitor ali pela altura da terceira linha.

Quando vocês forem a um prédio, de onde caiu um operário, tentem ver o local onde ele estava, por onde andou, procurem entender o que aconteceu, conversem com todo mundo, informem-se de tudo. Detalhes da roupa, do que estava fazendo, o martelo que ficou no chão, o prego pela metade, a marca da botina na poeira, a marmita num canto, a idade, a família, a trajetória de vida. Tudo.

Os mais pragmáticos dirão: “vai ser uma nota curta, não cabe tudo isso!” E os mais experientes dirão: mesmo pra gente escrever uma frase sobre alguém, é preciso saber tudo a respeito. E quanto mais se sabe, mais fácil fica para sintetizar, resumir.

Jornalismo é, em essência, um trabalho de tradução. A gente vai à esquina onde o caminhão tombou em nome dos 40 mil leitores do jornal, que não podem ir até ali ver o que aconteceu. E depois temos de contar tudo o que conseguimos saber. De tal forma e com tal competência, que o leitor sinta-se transportado até o local e experimente as mesmas sensações que sentiria se tivesse ido até lá.

É uma enorme responsabilidade. Uma nobre e dificílima tarefa que não pode ser tratada com leviandade. Quando estiverem colhendo informações para uma reportagem, imaginem que logo mais vocês terão que ir para o centro de um estádio, pegar um microfone e explicar, bem direitinho e sem enrolar, para 40 mil pessoas, o que aconteceu. Imagina esquecer um nome, uma circunstância, a hora, a data, o local? É vaia na certa.

A vaia, no caso do jornal, é silenciosa, mas fatal: o leitor deixa de comprar o seu exemplar diário. Ou, o que é pior, acaba achando que jornalista é tudo a mesma bosta.


Há quem defenda que o jornalista deveria ter formação específica em direito ou em economia, ou mesmo em história, para poder “cobrir” adequadamente as diversas áreas. Eu discordo. O jornalista precisa ser um tradutor experimentado. Precisa desenvolver o talento de entender a situação, compreender o que lhe explicam, perguntar o que não entendeu. E, a seguir, contar o caso em linguagem acessível, que seja entendida por uma ampla camada da população, mantendo o rigor e a precisão, para que a informação não se deteriore.

Essa dupla habilidade (entender e contar) é uma técnica que pode ser estudada e aperfeiçoada e se corretamente aprendida, permitirá que o jornalista não tenha dificuldade para relatar, com apuro, o que viu numa guerra, ou num tribunal, num laboratório ou numa delegacia. E seja um profissional requisitado, qualquer que seja a tecnologia que usará para contar sua história.

Bom, já sentiram que, se ninguém me fizer parar, ficarei aqui a tarde toda, falando sobre tudo e quase nada.

Vocês já devem saber que tudo é uma questão de tempo. E no caso da regulamentação profissional dos jornalistas, o tempo está nublado, sujeito a chuvas e trovoadas. Mas, como aprenderam os catarinenses de várias regiões, em várias épocas, por pior que seja a enchente e o desastre, é preciso limpar rapidamente o lodo e a lama porque daqui a pouco o sol volta e a gente não quer que os vizinhos pensem que a gente é relaxado. Não vai ser só porque caiu o céu e o rio subiu 20 metros matando gente e animais, que vamos deixar de ter uma roseira no jardim, uma grama aparadinha e o chão enceradinho e brilhante. Nada como um dia depois do outro.

Boa sorte a todos e muito obrigado.

Maria Elena Hermosilla
A grande Maria Elena Hermosilla, durante a sua palestra, na mesma solenidade. Foto Paulo Noronha/Acervo Agecom/UFSC.

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Cesar Valente Escrito por:

Jornalista e designer gráfico catarinense, manezinho, sessentão. Ex uma porção de coisas, mas sempre inventando moda.

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