Memórias anticomunistas

No primeiro contato que tive com o comunismo ainda era um guri de calças curtas, cursando o primário no Colégio São José, em Tubarão, por volta de 1962. Colégio católico, de freiras da Divina Providência, recebeu com grande alarde um padre que, diziam, tinha conseguido fugir da “Cortina de Ferro”. E, para que a gurizadinha fosse devidamente informada sobre os perigos do comunismo ateu, fomos reunidos no auditório para ouvir a assustadora palestra do padre que sobreviveu em ambiente hostil.

Na época lembro que achei parecido com uma peça de teatro mas, agora, acho mais semelhante àquelas palestras do TED: a narrativa bem ensaiada, recursos visuais e um enredo que prende a audiência. Só que o palestrante tinha mais a ver com Indiana Jones (ou seria MacGyver?) do que com um contrito capelão perseguido.

Reunião nos primórdios do Partido Comunista Chinês. Nunca entendi por que, na China, o cabo da foice virou uma bolinha.

Por trás da “Cortina de Ferro” era dureza ser católico. Igrejas fechadas, o jeito era reunir-se em segredo, em quase catacumbas (a referência aos primeiros tempos do catolocismo não era, claro, gratuita). Aí ele mostrava os gadgets que inventara para poder celebrar a missa sem poder ter os cálices, patenas e hóstias adequados. A gente ouvia tudo de boca aberta, sem nem suspeitar que talvez boa parte daquilo que estava sendo dito talvez tivesse sido criado justamente para compor a narrativa. Nenhum de nós tinha informação, ou interesse, de saber o que era e o que não era verdade naquela história cheia de aventuras, perseguições, códigos ocultos, opressão e, ao final, a fuga espetacular.

Ficamos, então, sabendo que o comunismo era coisa muito ruim. E olha que ninguém falou naquela história de comer criancinhas. Saímos da palestra animados como saíamos do cinema, depois de um episódio de algum seriado da Republic, ou de algum filme de capa e espada. No meu caso, contudo, acho que essa injeção de anticomunismo no cérebro em formação não teve grande efeito. Nunca desenvolvi muitos anticorpos.

Mas o timing da palestra, apresentada em grande circuito de escolas católicas justamente durante o governo João Goulart, foi bem pensado. Em 1964, quando todas as revistas e jornais falavam sobre a “ameaça comunista” até eu, que tinha só 10 anos de idade e estava mais preocupado em terminar logo os deveres pra ir brincar, sabia do que se tratava: gente que perseguia católicos e obrigava padres a viver nos porões, falando baixinho para não serem presos e espancados. Derrotar o comunismo derrubando o presidente que queria transformar o Brasil numa grande Cuba era, portanto, coisa boa.

O camarada Mao, em cartaz antigo, celebrando a revolução que colocou o povo no poder. Em 2019 essa revolução está comemorando 70 anos.

O fantasma do comunismo, utilizado como pretexto para golpes ou como reforço de narrativa política para validar intervenções estrangeiras (abertas ou veladas), sobrevoou todo o período de trevas da “gloriosa”.

Mas sobrevivemos a tudo e até tivemos um período, uma espécie de primavera, em que os anticomunistas e seus fantasmas se recolheram aos casulos. Agora que estão acordados, cumprindo novamente seu papel, resolvi lembrar disso, só para mostrar que esse filme não é novo e quem já o assistiu sabe como termina.

Não, não tem final feliz.

Charge editorial de Edmund S. Valtman, publicada em agosto de 1961 nos Estados Unidos (no The Hartford Times), que ganhou o prêmio Pulitzer (o maior prêmio do jornalismo norte-americano) em 1962. O texto mostra Fidel Castro dizendo a um brasileiro: “Homem, o que você precisa é de uma revolução como a minha”

Pra encerrar, aproveitando o “gancho” da viagem do tosco® à China nos próximos dias, o hino da Internacional Socialista (o hino de todo comunista que se preze), executado no encerramento do 19º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, que governa o país há 70 anos. O que está ao centro é o presidente da China, Xi Jinping, que convidou o tosco® e que o receberá. Quero ver o tosco® dizer o que pensa dos comunistas na cara (e na casa) do Xi Jinping.

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Cesar Valente Escrito por:

Jornalista e designer gráfico catarinense, manezinho, sessentão. Ex uma porção de coisas, mas sempre inventando moda.

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