Precisa mesmo ter papel? /1

Sim e não. O papel é útil para muitas coisas mas, nos jornais, faz sentido imprimir as notícias em papel? Nesta série de três posts, algumas caraminholas sobre o fim dos jornais diários impressos em papel.

Sinceramente? Acho que não faz sentido imprimir notícias factuais em papel. Mas também acho que a maioria dos jornais (e dos “empresários da comunicação”) não sabe o que está fazendo com seus patrimônios. Nem sabe como enfrentar essa situação que, de resto, sempre foi inevitável.

Essa é uma discussão antiga, que tive o privilégio de acompanhar quase desde o começo (por causa da idade e porque só trabalhei nessa área, a vida toda), E entendo perfeitamente os colegas sessentões (ou sententões) que, também tendo assistido essa novela há décadas, têm dificuldade para aceitar o fim do jornal de papel, tal como o conhecíamos.

OS PRIMEIROS EQUÍVOCOS

Vamos voltar um pouco no tempo, a 1982. Nesse ano a rede Gannet de jornais, dirigida por Allen Neuhart, lançou o USA Today, um jornal que, sob todos os aspectos, era revolucionário.

Colorido, numa época em que o jornal de maior prestígio era conhecido como “a dama cinza” (“the gray lady”). Nacional, numa época em que todos os grandes jornais dos Estados Unidos eram operações basicamente regionais (Los Angeles Times, The New York Times, Washington Post, Miami Herald, Chicago Tribune, etc). Com textos curtos, numa época em que quanto maior o “tijolão”, mais “importante” era a notíca. Impresso em múltiplas gráficas, ao redor do país, enquanto os demais tinham gráficas próprias ou próximo da sua sede. E com foco em esportes e celebridades, numa época em que isso era coisa de revistas de fofocas e jornalecos.

Capa do USA Today de 14 de agosto de 1995, quando era o “nº 1”

Pois bem, no primeiro ano alcançou a tiragem de um milhão de exemplares e passou de dois milhões nos anos 1990. Amargou prejuízos nos cinco primeiros anos, mas depois se tornou lucrativo. No começo, foi criticado por ser cheio de bobagens e superficial. Chegou a ser chamado de “MacPaper”. Mas à medida em que crescia (enquanto a maioria dos jornais tinha estacionado) e seu conteúdo comprovava ter substância, mesmo ocupando menos espaço, começou a ser copiado, nos Estados Unidos e mundo afora.

E foi aí que a coisa desandou. Quando empresários brasileiros começaram a querer imitar o USA Today em seus jornais, fizeram uma conta torta: “se a notícia, no jornal, terá 20 linhas, naturalmente o repórter não precisa ficar uma tarde inteira fazendo uma matéria. Poderá produzir, numa tarde, umas cinco ou seis matérias”. Não é? Como que uma ideia brilhante dessas poderia dar errado?

Em 1992 fui aos Estados Unidos, a convite do departamento de Estado. O governo dos Estados Unidos, cumprindo sua tradicional função de propaganda, levou um grupo de coordenadores de cursos de Jornalismo brasileiros para visitar várias escolas de jornalismo e jornais, em diversos estados. Na época eu era coordenador do curso de Jornalismo da UFSC. Uma das visitas foi à sede do USA Today.

Em 1992 o USA Today ainda usava o paste up (colar as tiras de composição no diagrama), da mesma forma que O Estado e demais jornais catarinenses. A informatização lá (como aqui, no DC), ficava mesmo só no processamento de textos da redação.

Além de conhecer a redação e parte da área de produção gráfica, pude perguntar, aos editores que nos receberam, sobre o processo de elaboração das matérias. E, como suspeitava, só pode escrever boas 15 linhas sobre um assunto quem o conhece integralmente. A apuração de uma informação precisa ser completa, minuciosa. Só assim se pode sintetizar o relato. Então, para produzir 15 linhas que digam alguma coisa, que tenham informação relevante, o repórter precisa realmente ir a fundo. Não dá pra fazer boas matérias sobrecarregando o repórter de pautas. Nem se o espaço for elástico, como na internet, ou limitado, como nos jornais de papel.

Lá, naquela época, a síntese não significava enxugamento da redação nem aceleramento no tempo ou volume de trabalho. Significou “apenas” uma modificação na forma de contar a história.

Da pauta até o momento de escrever, os repórteres e editores do USA Today usavam os métodos tradicionais das boas técnicas de reportagem. Quando tinham todos os dados da informação contavam, num texto compacto, o que sabiam. E, como sabiam muito, o pequeno texto tinha conteúdo.

O logotipo das primeiras décadas (e) e o logotipo atual, criado em 2012.

Esse é o nó da questão, que foi mal compreendido desde o começo. A tal da “produção de conteúdo”. Exatamente como ocorre nas escolas que remuneram apelas pela “hora-aula”. O texto, ou a aula, é resultado de um processo longo, desgastante, que deveria ser estimulado. Porque, teoricamente, quanto maior o tempo que usamos para apurar uma reportagem, ou preparar uma aula, mais chances há de que o resultado seja melhor.

As consequências dessa má tradução, dessa importação capenga, foram desastrosas. Passamos a ler textos curtos que eram curtos em todos os sentidos. Zero de informação, péssima redação (a síntese não é para amadores) e desgaste e desalento no exercício profissional, com a sobrecarga irracional de trabalho.

Os “administrativos” míopes dos jornais vibravam com a novidade: produzir mais “conteúdo” com “menas” gente. O resultado é o que temos visto: é difícil encontrar o que ler e o que é publicado, se não tem erros ou deslizes, também tem pouca ou nenhuma informação exclusiva.

O USA Today foi o pioneiro no uso das cores para identificar as seções. Depois da última reforma gráfica cada seção ganhou, além das cores, ícones que podem mudar conforme o assunto das matérias,

O FIM DO PAPEL, TAMBÉM PRA ELE

O USA Today era visto, na época, como uma resposta dos impressos à linguagem da televisão. Como se houvesse uma concorrência. E a popularização da internet adicionou gasolina a essa fogueira. Poucos entendem que o jornalismo é a produção de informação nova, relevante, que pode ser distribuída por qualquer plataforma. O que importa é a informação, não o suporte. Mas não se enganem: não faz mais sentido publicar notícias factuais em papel e distribuir fisicamente.

Segundo o Instituto Poynter, em matéria publicada no último dia 16, tudo indica que o momento de parar as máquinas (de impressão) se aproxima. Depois de 40 anos, crescem as dúvidas sobre a edição impressa do USA Today. A compra do grupo Gannet (que publica o jornal) pela GateHouse (do New Media Investment Group), por US$ 1,4 bilhão, parece sinalizar para isso. Dentro de um mês, quando o negócio estiver legalmente finalizado (ainda depende de aprovação de acionistas, que se reunirão dia 14 de novembro), os planos dos novos donos ficarão mais claros.

O fato é que em 2007 o jornal tinha uma tiragem de mais de 2,3 milhões e o Poynter estima que hoje o jornal tenha uma circulação paga de 178 mil exemplares, mais os 342 mil distribuídos nos hotéis (que são vendidos às cadeias de hotéis com grande desconto). Sem falar na constatação, também feita pelo Poynter (no artigo assinado por Rick Edmonds), de edições “incrivelmente finas” que na maioria dos dias têm pouco ou nenhum anúncio pago.

O USA Today tem uma equipe de 289 pessoas, a maioria das quais na sede de McLean, Virgínia (próximo a Washington, DC). O tamanho dessa redação, inimaginável para os padrões atuais da imprensa brasileira, levanta suspeita de que talvez ocorram algumas demissões. Ainda que, além do portal de internet, o USA Today também produza reportagens para jornais regionais.

Uma colaboração dessa equipe investigativa do USA Today com o The Arizona Republic, ganhou o Pulitzer de 2018 com uma série de matérias sobre a fronteira, chamada The Wall.

Às dúvidas levantadas pelo Poynter, a publisher do USA Today, Maribel Perez Wadsworth, respondeu dizendo que “não existem planos para descontinuar a edição impressa, que continua uma parte importante do nosso negócio”. E ressalta o fato de que continuam comprometidos com o jornalismo de alta qualidade enquanto avança a transformação digital. Os novos parceiros da New Media, segundo ela, também pensam da mesma forma e a combinação das duas empresas “vai transformar a paisagem, tanto nos negócios de notícias digitais quanto impressas”.

No saguão da sede do jornal, em 1992, faço pose ao lado do busto do Al Neuhart. Ele e o USA Today são como relíquias dos bons momentos que os jornais viveram nos 80 e 90 do século passado.
No filme “De Volta para o Futuro, Parte 2”, aparece uma “edição” do USA Today do futuro (no distante 22 de outubro de 2015). Como tantas “previsões”, não acertaram no logotipo, no número de leitores (3 bilhões), no preço (ali está 6 dólares e em 2015 o jornal custava dois), nem na Rainha Diana. No dia 22 de outubro de 2015 o verdadeiro USA Today circulou com uma “reimpressão” dessa edição cinematográfica como sobrecapa.

Amanhã, no segundo capítulo da série, vamos discutir um pouco sobre o pesadelo logístico que é distribuir toneladas de papel por áreas extensas de território.

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Cesar Valente Escrito por:

Jornalista e designer gráfico catarinense, manezinho, sessentão. Ex uma porção de coisas, mas sempre inventando moda.

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