Precisa mesmo ter papel? /2

Durante séculos a melhor solução para distribuir informações era imprimi-las em papel. Mesmo as notícias sobre os fatos recém acontecidos. O papel é portátil, durável e absorve bem as tintas. Como diz o velho ditado, o papel aceita tudo. Nesta série de três posts, algumas caraminholas sobre o fim dos jornais diários impressos em papel.

Bem antes de serem assombrados pela fuga dos anunciantes, os donos de jornal tinham pesadelos com o problemão que era distribuir aquilo tudo. Porque, não sei se vocês já pararam para pensar nisso, um jornal que não chega até o leitor, não pode ser lido.

Algumas das sucursais de O Estado e seus endereços, no século passado. Esses pequenos anúncios eram “calhaus”, inseridos nas páginas quando era preciso preencher algum espaço.

“TEM QUE FECHAR CEDO!”

“Fechar o jornal”, no jargão jornalístico (de antes da crise), era concluir a edição, completar o jornal, para que ele pudesse ser impresso. As impressoras off set médias mais comuns, na década de 80, faziam uns 30 mil jornais por hora. Então, se o caminhão da distribuição precisasse sair às 22h, o jornal tinha que começar a ser impresso antes das 21h. E entre a redação e a rotativa tinha que vencer várias etapas: composição, fotomecânica, paste up (paginação), fotolitagem e gravação da chapa.

Ou seja, dependendo da agilidade do pessoal da área gráfica, a redação talvez nem pudesse assistir ao Jornal Nacional (pra ver se estava publicando as principais notícias do dia) antes de “fechar” a edição. E por que diabos existia essa pressão de horários?

Porque o jornal que era impresso no Saco Grande, na Ilha de Santa Catarina e tinha que chegar, o mais cedo possível, a Chapecó, no oeste do estado, a quase 700 km dali. Ou porque o jornal era impresso em Joinville e tinha que chegar a Chapecó antes do O Estado. E os dois tentavam chegar a Chapecó pelo menos no mesmo horário que o Jornal de Santa Catarina, que levava a vantagem de ser impresso em Blumenau e que, portanto, tinha uns 200 km de vantagem.

E nem era uma viagem direta. No caminho, várias escalas, para abastecer os distribuidores intermediários. Uma rede considerávelmente complexa que fazia com que, até o meio dia, se pudesse ler as “últimas notícias” em qualquer lugar do estado.

Os jornais “nacionais”, impressos no Rio e em São Paulo, enfrentavam desafios semelhantes, em escala… nacional. Lembro de ver a camionete da Folha de S. Paulo em Florianópolis, de manhã cedo (saía um caminhão de São Paulo e em Curitiba, acho, a carga era distribuída em veículos menores, para diversos roteiros no Sul).

A redação de O Estado, ainda no prédio do Saco Grande. Se não estou enganado, a partir da esquerda está o diagramador Pescoço, o editor Mário Pereira, o saudoso Toninho Kowalski e o diagramador Pecos Bill. No telex, o indômito Celso Vicenzi maneja essa maravilhosa máquina que ligava as sucursais à matriz e trazia as notícias das agências, .
Quando era permitido embrulhar peixe com jornal, a gente ganhava um dinheirinho guardando os jornais e vendendo, a quilo, no mercado público. Tempo de jornais standard, que cobriam a tainha completamente. Depois, com os tabloides, o peixe ficava com o rabo de fora.

TONELADAS DE PAPEL

Por mais que uma folha de jornal pareça leve quando a encontramos enrolando um peixe, no fundo da gaiola do curió ou forrando a caminha do totó, no auge dos jornais impressos o volume a ser distribuído sofria o impacto desse fato inegável: papel pesa.

Vamos examinar, rapidamente, o caso do jornal O Estado, que acompanhei mais de perto. Durante mais de uma década, entre os 70 e os 90 do século passado, o jornal tirava, em média 32 mil exemplares diários. Isso dava um volume que pesava aproximadamente duas toneladas e meia. E mais nos finais de semana, quando o jornal crescia bastante.

Toda madrugada os jornais eram carregados em seis camionetes, que cumpriam os principais roteiros de distribuição. Uma ia (pela 470), para o oeste. Primeira parada no Patussi (próximo a Curitibanos), para entregar o reparte que ia para Lages. Outra, para o sul (Tubarão, Criciúma, Araranguá e adjacências). A terceira para o norte (Joinville, principalmente). Mais uma, para o Vale do Itajaí (Itajaí e Blumenau). E duas abasteciam as bancas e vendedores da Grande Florianópolis e os entregadores para os assinantes.

Com o sucesso do jornal, os cadernos de classificados aumentavam, o número de anunciantes crescia e nos fins de semana, com frequencia, o jornal chegava a ter 120 páginas. Mais peso e mais problemas. A rotativa de O Estado imprimia cadernos de 16 páginas. Era preciso imprimir sete ou oito cadernos, para a edição de “domingo”, que começava a circular no sábado.

Isso do jornal de domingo circular no sábado era uma maluquice trazida pelo concorrente gaúcho, mas falaremos nisso em outra ocasião. O fato é que, por causa das limitações da rotativa, o volumoso jornal de domingo começava a ser impresso na sexta-feira. No intervalo, se imprimia o jornal de sábado, pobre coitado, de vida ainda mais curta, porque às duas da tarde sábado já era possível comprar o jornal de domingo, na beiramar norte.

E se a logística de distribuir tudo isso no estado todo era complexa, não faltavam complicadores. Para imprimir o jornal em papel, é preciso ter papel, que chega em bobinas enormes. O Osmar Schlindwein, diretor comercial e industrial de O Estado, preocupado com o atraso de um caminhão de papel, com o estoque no fim e a edição de fim de semana esperando, saiu atrás. Não havia celular, mas ele era conhecedor dos hábitos dos caminhoneiros que faziam essa rota. Pegou a estrada e quando passou pela Vila Palmira, zona de prostituição próxima da BR 101, na Grande Florianópolis, encontrou o caminhão, carregado, estacionado. Teve que interromper o lazer do motorista, para que o papel chegasse ao jornal a tempo.

Mais tarde, quando os jornais começaram a ter dificuldades de caixa, o grande problema era pagar o papel, para poder imprimir e aí receber dos anunciantes. O papel, essa maravilhosa invenção que aceita tudo, sempre foi um problema.

No alto da capa desta edição de maio de 1999, a informação das cidades em que o jornal era impresso: São Paulo, Rio, Brasília, Campo Grande, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Belém e Manaus.

A SOLUCIONÁTICA DA PROBLEMÁTICA

O USA Today, lançado nos Estados Unidos em 1982, encontrou uma saída para a distribuição nacional do jornal de papel: imprimir em várias gráficas. Isso foi possível porque a tecnologia de transmissão de dados via satélite permitia enviar, para diversos locais, simultaneamente, as matrizes das páginas. No Brasil, a Gazeta Mercantil seguiu esse caminho e nos anos 90 era impressa em muitos estados. Pelo menos nas capitais, chegava cedinho.

O desafio principal, nesse caso, superada a dificuldade de mandar os arquivos (a Gazeta foi uma das pioneiras em usar o pdf e a internet para isso), era encontrar gráficas, nos estados, com rotativas que suportassem o tamanho do jornal. Em alguns casos foram feitas adaptações nas máquinas, para que, em todo o Brasil, a Gazeta tivesse o mesmo padrão gráfico e as mesmas medidas.

No Rio Grande do Sul, o jornal Diário do Sul, um filhote do suplemento local da Gazeta Mercantil, iria ser impresso na rotativa da massa falida do Correio do Povo. Às vésperas de começar a operação, um arrozeiro comprou tudo e disse que não iria honrar os contratos de impressão da massa falida, porque queria relançar o Correio do Povo.

Sem rotativas disponíveis na Grande Porto Alegre, a solução foi imprimir o jornal em Santa Maria, a duas horas da capital. As chapas, feitas em Novo Hamburgo, eram transportadas de carro para Santa Maria e os jornais impressos trazidas de camionete para Porto Alegre. Uma insanidade logística, cheia de soluções engenhosas para contornar as dificuldades que, contudo, não foi o principal fator de fechamento (e aí, no sentido usual, de parar de circular mesmo) do jornal, poucos anos depois.

Durante algum tempo, com o surgimento das impressoras a laser, cogitou-se de transmitir os jornais para os assinantes pelo telefone, para impressão em suas impressoras domésticas ou corporativas. Quem sabe pela televisão? Ou ampliar gadgets como o utilizado para transmitir e receber telefotos? E o fax? Não daria para mandar os jornais por fax?

Todas essas gambiarras só ajudavam a perceber como é complicado entregar, fisicamente, um produto perecível. Um produto que era concebido e executado para não sobreviver ao dia seguinte. Um produto noticioso que durante algumas décadas morria de medo da concorrência do rádio, logo a seguir, morreu de medo da concorrência da televisão e finalmente, encontrou na internet seu concorrente mais feroz. A informação chega às telas que cada um de nós tem à disposição, no momento em que é publicada. Sem caminhão, sem camionete, sem horas de viagem. Sem papel.

Pra mim, com os recursos disponíveis hoje, com o acesso que tantos têm a celulares, tablets e computadores, não faz sentido distribuir notícias imprimindo-as em papel. E isso, claro, não tem nada a ver com mais ou menos jornalismo, com melhores ou piores jornalistas, nem deveria influenciar na qualidade da informação. Ao contrário: resolvido esse problemão, esse pesadelo logístico que é distribuir toneladas de papel por uma região extensa, poderíamos nos concentrar no que interessa, que é a informação correta, bem apurada e com credibilidade.

O “excesso de democracia” foi a causa da novembrada. Tá ali, na capa do jornal, opinião do “Palácio do Planalto”. Capa do jornal de 1º de dezembro de 1979.

COMO É QUE É?

Para quem não sabe como os jornais são impressos este video abaixo, que mostra as oficinas do The Globe and Mail (Canadá), pode dar uma ideia. Os jornais catarinenses não tinham um equipamento tão grande e moderno, mas o princípio geral era o mesmo: uma matriz, de metal, é gerada pela imagem da página criada em softwares de editoração. A chapa é colocada na impressora, recebe tinta e a tinta é transferida para o papel, por meio de rolos intermediários de borracha. O papel, em bobinas, passa em grande velocidade e é impresso. Depois, é dobrado e cortado e vai para a etapa final, onde recebe encartes e é empacotado para a distribuição.

Quando li, na nota de despedida dos jornais da NSC, que iriam lançar uma revista semanal com o miolo “impresso a quente”, fiquei curioso. Não tinha ainda ouvido falar de processos de impressão a quente para jornais. Neste video, quando falam no heat-set, lembrei que poderia ser isso a que estavam se referindo. É uma espécie de “forno”, aquecido a 125°, por onde passa o papel recém impresso. É uma forma de fazer a tinta aderir melhor ao papel e secar mais rápido, para poder passar pelas várias fases a grande velocidade, sem risco de manchar e reduzindo as imperfeições causadas pela absorção mais lenta da tinta pelas fibras do papel. A rigor, não é impressão a quente, mas…

Amanhã, no capítulo final dessa série “comemorativa”, vamos falar um pouco sobre picaretagem.

pi·ca·re·ta·gem
(picareta + -agem)
substantivo feminino
[Brasil]  Ação ou comportamento ardiloso, típico de pessoa que procura desse modo aproveitar-se dos outros.

"picaretagem", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/picaretagem [consultado em 21-10-2019].

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Cesar Valente Escrito por:

Jornalista e designer gráfico catarinense, manezinho, sessentão. Ex uma porção de coisas, mas sempre inventando moda.

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