# Cesar Valente > Anotações à margem do caminho Public Ghost content for AI and LLM tooling. This file includes a bounded export of public pages first, then recent public posts. Append `.md` to any post or page URL to get the content in Markdown (for example, `/example-post.md`). ## Pages ### About this site URL: https://cesarvalente.com/about/ Last updated: 2026-07-05T08:00:47.000Z Cesar Valente is an independent publication launched in July 2026 by Pedro Valente. If you subscribe today, you'll get full access to the website as well as email newsletters about new content when it's available. Your subscription makes this site possible, and allows Cesar Valente to continue to exist. Thank you! ### Access all areas By signing up, you'll get access to the full archive of everything that's been published before and everything that's still to come. Your very own private library. ### Fresh content, delivered Stay up to date with new content sent straight to your inbox! 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O **cesarvalente.com** é um blog de opinião. Geralmente trata de política, mas não só. É editado por mim, Cesar Valente, em Florianópolis, Santa Catarina. Publico textos desde 1969 e sou jornalista profissional desde 1972\. E além de ter trabalhado em jornais, rádio e TV, publico em blogs desde 2001\. Portanto, tenho a experiência de uma vida inteira dizendo coisas em público. **QUEM SOU EU** ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/cesar-valente-quadrado.png) 2018 **CESAR VALENTE** – Minha atuação profissional sempre se deu tanto na prática quanto no ensino da reportagem, da edição, da produção gráfica, da assessoria de comunicação e da administração jornalística. Iniciei no jornalismo em 1970, no jornal O Estado, de Florianópolis. Durante os trocentos anos de carreira fui repórter, redator, cronista, ilustrador, cartunista, designer gráfico, professor universitário, coordenador de curso universitário, editor, chefe de redação, secretário de redação e sócio-proprietário de empresa jornalística. Atuei em Florianópolis (Governo do Estado, jornal O Estado, UFSC e revista Empreendedor), Porto Alegre (TV Gaúcha, Rádio Gaúcha e Diário do Sul), Brasília (EBN e Gazeta Mercantil) e São Paulo (Companhia de Notícias e Gazeta Mercantil). Em 1979, fiz parte da comissão que criou o Curso de Jornalismo da UFSC. Na internet já mantive o **Carta Aberta** (uma espécie de livro de crônicas, de 2002 a 2005) e, como complemento à coluna no Diarinho, o **De Olho na Capital** (de 2005 a 2014). Este ainda está disponível para consultas, congelado no tempo, mas com os arquivos praticamente intactos, em dois endereços: [aqui](http://deolhonacapital.blogspot.com/?ref=cesarvalente.com) e [aqui](http://www.deolhonacapital.com.br/?ref=cesarvalente.com). Em 2018 me associei à Lúcia Valente e criamos a Multitarefa Serviços Ltda, que presta serviços de museologia e comunicação. Produção gráfica e design de impressos e online, expografia, plano museológico, jornalismo, desenho editorial, consultoria, fazemos de um tudo. **RECOMENDAÇÕES AOS COMENTARISTAS** O sistema de comentários é oferecido aos leitores do cesarvalente.com exclusivamente para a publicação de opiniões e comentários relacionados ao conteúdo deste blog. Todo e qualquer texto publicado na internet através do referido sistema não reflete, necessariamente, a) a opinião deste blog ou de seu autor ou b) a opinião do autor do sistema de comentários. 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E aí, quem tiver interesse, vai até lá ler a íntegra. ## Posts ### O Jornalismo e o buraco da rua URL: https://cesarvalente.com/o-jornalismo-e-o-buraco-da-rua/ Last updated: 2026-07-05T08:13:28.000Z ### É possível fazer jornalismo no instagram? ### Ou: instagram é jornalismo? Vamos direto ao assunto. A rua Desembargador Arno Hoeschl, em Florianópolis, foi recapeada não faz muito tempo.. Fizeram alguns ajustes na drenagem fluvial, na rede de esgoto e colocaram asfalto novo. Poucos meses se passaram. Bem poucos. E uma daquelas "bocas de visita" (manholes), com uma tampa de metal circular, começou a ceder. Não iremos aqui ao fundo do buraco. O objetivo é apenas, usando um buraco como exemplo, tentar mostrar o buraco em que jornalistas se metem quando passam a acreditar que fotinhas de buracos no instagram podem substituir o jornalismo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/maio2024_gsv2-1.jpg) A imagem de maio de 2024, do Google Street View, mostra os preparativos para o recapeamento. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/maio2024_gsv-1.jpg) A esquina da Des. Arno Hoeschl com a rua Madalena Barbi, antes do recapeamento. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/4nov24_img_2410.jpg) Cresce o buraco no asfalto novo. Alguém teve o cuidado de sinalizar. O buraco no asfalto novo, os carros desviando, o cone improvisado, tudo era muito instagramável. E simples: uma foto, no telefone, e a distribuição da imagem. Tem um buraco na Arno Hoeschl. Não é novidade, porque Florianópolis, governada por um prefeito fascinado pelo tik-tok, tem inúmeros buracos nas ruas. Dali a poucos meses, bem poucos, alguém da prefeitura fez um remendo no buraco e o trânsito voltou a fluir sem precisar desviar. Mas foi um conserto, como direi, cosmético. Pouco tempo depois, bem pouco, voltou a ceder e desta vez abriu uma cratera maior. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/2dez24b.jpg) A trama se adensa, com o crescimento do buraco. Certamente ampliado para descobrir a causa da coisa. Melhores fotos, mais impressionantes. Ainda mais quando alguém (da prefeitura?) resolve cavar ainda mais, para ver onde estava o malfeito. Alguém, no primeiro recapeamento, fez um serviço mal feito e agora era preciso refaze-lo. Para que dure pelo menos mais alguns meses. #### E O JORNALISMO? Pois é, tudo, até aqui, foi instagramável. Qualquer pessoa, com telefone e conexão com a internet, poderia dar essas informações (com a sempre preciosa ajuda do Google). O buraco, o congestionamento, as obras, tudo o que estava acontecendo ali à luz do sol e agravado com a chuva. São informações interessantes, atuais, mas isso é jornalismo? O que um jornalista faria, nesse caso? Ou, para usar o jargão profissional, com essa “pauta”? Pauta é o cardápio diante do qual o jornalista decide se quer fazer aquela refeição. Jornalismo não é tão fácil quanto tirar uma foto e postar no instagram com meia dúzia de linhas xingando o prefeito. Ou elogiando. E é caro. Porque precisa do tempo de serviço de um ou mais profissionais, de deslocamentos, de idas e vindas entre um chá de cadeira e outro. E é normal, faz parte do jogo, encontrar quem não queira dar as informações. E fique zangado por alguém ter “vazado” informações que, apesar de públicas, porque envolvem administração pública e dinheiro público, acostumaram-se a mante-las “sob controle”. O direito à informação não é um direito universalmente reconhecido, entre os administradores da coisa pública. Então, é preciso levantar informações que não estão facilmente disponíveis e muitas delas se escondem sob comprometedores cobertores de mútua proteção corporativa. E que tipo de informações seriam essas? **Primeiro:** qual a data exata em que a Des. Arno Hoeschl foi recapada? O que se gastou naquela licitação? Quem fez? Quem fiscalizou? **Segundo:** em que data a boca de lobo começou a ceder. Foi mesmo poucos meses depois de ter sido refeita? **Terceiro:** alguém comunicou os “órgãos competentes” desse problema? Quando a prefeitura tomou conhecimento do buraco? Que providências foram tomadas? Por que demorou o conserto? Quando foi feito? Por quem? A empresa que fez o recapeamento foi acionada para a “garantia” do serviço? **Quarto:** que tipo de conserto foi feito que, em poucas semanas (foram mesmo poucas semanas? quais as datas exatas?) voltou a ceder? E agora, que providências foram tomadas? Por que resolveram abrir a área até a calçada? Foi identificado algum malfeito, desleixo, imperícia? De quem? Ou não se leva em conta isso, apenas se trata de mandar fazer de novo o serviço malfeito? **Quinto:** quanto já foi gasto desde o recapeamento (incluindo o próprio recapeamento), naquele pequeno trecho da rua Arno Hoeschl? Esse problema é recorrente, nas ruas recapeadas? Ou foi um evento extraordinário? Quando o repórter ou a repórter conseguir todas essas informações, ou pelo menos parte delas, poderá sentar-se à frente do computador e escrever uma reportagem. Que é diferente de um post nas redes sociais. Dependendo de como fará isso, poderemos considerar que se trata de informação jornalística. Um serviço público que ajuda o Poder Público, pela fiscalização que exerce, que ajuda à população por mantê-la informada e por oferecer possibilidade de levar seus reclamos ao Poder Público. ### É "caça às bruxas" que fala? Houve tempo em que algumas empresas jornalísticas acharam que era importante que seus repórteres andassem armados com um pacote de desconfianças-padrão. Chegavam procurando, agressivamente, culpados, maracutaias, querendo ver o sangue escorrer, cabeças serem cortadas e reputações expostas. Naturalmente, essa "disposição" é tão daninha ao Jornalismo quanto a ingenuidade, ou a complacência. Os pré-julgamentos, as hipóteses, as suposições, não devem conduzir a investigação. Quando o repórter sai à rua apenas para confirmar a tese levantada pela pauta, ou para encontrar as "aspas" que ajudem a fechar um raciocínio que estava pronto na mesa do editor, está prestando um desserviço ao Jornalismo. A informação resultante estará contaminada, comprometida, tão apodrecida quanto o que recentemente se chama de "fake news". No caso do nosso buraco de rua, se tiver maracutaia (a empreiteira teve que economizar em material ou processos porque precisou repassar uma parte da verba para algum servidor público), a apuração poderá identificar. Se não tiver roubo, se for apenas um caso de má gerência, de desleixo de engenharia ou outro problema qualquer, a reportagem continuará relevante. E a pressão sobre servidores públicos se dará não pelas acusações gratuitas, mas pela fiscalização. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/4nov24_img_2409.jpg) Um dos mistérios da engenharia: por que algumas tampas de "bocas de visita" (na mesma rua, quase ao lado) ficam bem alinhadas com o pavimento e duram anos e por que algumas se deterioram como se estivessem assentadas em torrões de açúcar? Portanto, claro que qualquer pessoa pode distribuir informações nas redes, às vezes no momento em que os fatos estão acontecendo, mas jornalismo, a meu ver, não é apenas a foto do buraco de rua. Ou o carro caindo dentro do buraco. No jornalismo o buraco é mais embaixo. Provavelmente por isso tantos “empresários” de comunicação tenham medo do jornalismo e fujam dele como quem foge de um cão sarnento. Preferem entretenimento, historinhas de instagram, anódinos registros de comportamentos e inócuas discussões sobre sexo dos anjos. Jornalismo não é para fracos. Ou preguiçosos. Ou para quem tem medo dos poderosos de ocasião. Ou, o que tem sido mais comum, quer tirar uma graninha dos poderosos da hora, “adaptando” o conteúdo para evitar saias justas com informações que constrangem justamente porque são verdadeiras. ### No meu tempo... URL: https://cesarvalente.com/no-meu-tempo/ Last updated: 2026-07-05T08:13:33.000Z > A revolução que tivemos a oportunidade de viver na produção gráfica foi espetacular. Passamos da idade da pedra lascada para a estação espacial em menos de 50 anos. E pensar que no começo a gente se virava com o lápis, a régua, a calculadora, a foto em película, o paste-up, o fotolito, a máquina de escrever... O **Gastão Cassel**, veterano jornalista de múltiplos talentos acaba de publicar um livro em que compartilha um pouco da sua experiência. Ele dividiu o relato em duas partes. Na segunda, ele conta o que tem utilizado, dentre os softwares livres ou grátis, para realizar seu trabalho profissional, sem comprometer a qualidade e sem precisar recorrer aos programas famosos, mas insuportavelmente caros, como os da Adobe (Photoshop, InDesign, etc) e da Microsoft (Word, Excel, etc) para obter resultados satisfatórios. ![Capa do livro do Gastão Cassel](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/capa-softwarelivreok.jpg) O livro **“Softwares livres para jornalistas e profissionais de comunicação”** pode ser baixado [gratuitamente neste link.](https://quorumcomunicacao.com.br/livrosoftwarelivre/?ref=cesarvalente.com) Mas é na primeira parte que está o conteúdo, a meu ver, mais relevante (ok, ok, a segunda parte é útil para todos e a primeira talvez seja mais interessante apenas pra quem começou nessa trilha quando o mar vinha até aqui e daqui pra cima era tudo mato). Ele conta, resumidamente, como caiu nessa vida e que tipo de ferramentas e obstáculos encontrou no começo do caminho. Me identifiquei com aquelas angústias porque também estava por ali, abrindo caminho no matagal com um facão nem sempre afiado. Estamos falando da segunda metade da década de 1980 e começo da década seguinte. Importante mencionar que, embora a ditadura militar (ou cívico-militar, como alguns preferem) tenha terminado oficialmente em 1985, a famigerada “reserva de mercado da informática” subsistiu até 1991\. E essa trolha foi importante atrasador e complicador pra quem estava começando a aprender a lidar com os computadores e, dentro deles com o “desktop publishing” (a gráfica em cima da mesa). Quem idealizou a tal reserva de mercado parece que esperava que as empresas brasileiras, protegidas da presença das empresas internacionais (principalmente norte-americanas) floresceriam, desenvolveriam produtos originais e cresceriam no grande mercado interno brasileiro. Claro que, na prática, a realidade foi outra; as empresas pararam de tentar desenvolver alguma coisa e passaram a simplesmente, por meio de engenharia reversa, criar clones do que já existia no mercado internacional e a gente não podia importar legalmente. O primeiro “computador” que tivemos em casa foi um TK-85, da Microdigital, clone do Sinclair ZX81, que comprei em 1984: era um pequeno teclado com processador, que precisava ser ligado numa TV e a gente programava, em basic, o que queria que ele fizesse. Era divertido e meus filhos, quando pequenos, tiveram ali um primeiro contato com a informática e, principalmente, com a possibilidade de programar um computador para resolver problemas, mover figurinhas, fazer joguinhos. ![Eu mostrando o antigo computador TK-85](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/tk85-2.jpg) Ainda tenho o velho TK-85, uma relíquia do século passado. A foto foi feita hoje, 3 de março de 2024, pela Lúcia. Na época a diagramação (o desenho das páginas de jornais e revistas) era feita usando tabelas, régua de picas (a medida padrão para colunas, derivada da polegada: 12 picas = 1 polegada) e calculadora. Era preciso descobrir quantos toques (ou caracteres) tinha a matéria (datilografada em folhas de papel que a gente chamava de laudas) e fazer contas para saber que espaço, depois de composta tipograficamente, ocuparia na página impressa. Aproveitei que estava aprendendo basic e fiz um pequeno programa para o TK-85 que simplificava e automatizava um pouco essa rotina. Pronto, tava começando a mergulhar na fusão de arte gráfica com informática, que nunca mais parou de evoluir. O mais difícil: não dava pra ver enquanto se desenhava como ficaria o resultado. Isso de WYSIWYG (what you see is what you get: o que você vê - na tela - é o que você terá) veio depois. Na fase analógica a gente usava a experiência (e os erros anteriores) pra ir definindo o produto. ![Ilustração com calculadora e anotações sobre os cálculos do tamanho de um texto.](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/diagrama-jpeg.jpg) A foto mostra os cálculos que se precisava fazer para descobrir o espaço que um texto ocuparia na página, em determinada largura de coluna e corpo de texto, para poder desenhar no diagrama como seria a página. Foto tirada do livro "Studio secrets for the graphic artist", de Jack Buchan. O Gastão toca numa questão que também me angustiava: a dificuldade de se obter, legalmente, com nota fiscal e tudo, computadores e programas. Eu tinha uma pequena empresa (CV Editora Ltda.) e, cedeéfe, queria tudo bem certinho, nos mínimos detalhes. No caso do hardware o máximo que consegui foi uma empresa de Curitiba que vendia computador com nota fiscal, mas era evidentemente um frankenstein montado com componentes paraguaios. Os sistemas operacionais e demais programas estavam “incluídos” quando se comprava o computador. Há quem diga que a popularização da pirataria de software foi também uma consequencia da reserva de mercado. Numa das vezes que retornei ao Curso de Jornalismo da UFSC (sou aquele idiota da anedota que pediu demissão duas vezes de um emprego federal estável a que tinha acessado por concurso e depois de velho se lamentava pela minúscula aposentadoria que recebia do INSS), o professor Finco me mostrou a salinha que eu ocuparia e ali já estava, com um reluzente monitor de fósforo verde, um PC-XT Taurus (sim, a fabricante de armas, durante a reserva, também montava computadores). No computador, um programa que ninguém sabia como funcionava e que eu deveria investigar pra ver se tinha utilidade: era o Ventura Publisher, da Xerox. O primeiro grande programa de editoração eletrônica. Ainda rodando sob o DOS, sistema operacional da Microsoft, usava um negócio chamado GEM Graphical Environment, que lhe dava uma interface gráfica ainda rudimentar. Minha relação com o Ventura foi sempre muito apaixonada. Era um programa muito completo e que resolvia todos os problemas da editoração. Não à toa os programas que vieram depois sempre, de uma forma ou de outra, usavam (aperfeiçoando, mas nem sempre) recursos básicos do Ventura. Mais ou menos nessa época ao passar por Miami, nos Estados Unidos, visitei uma loja de informática (uma festa, porque aqui a gente vivia na seca, com a tal reserva de mercado) e, entre tantos deslumbramentos, encontrei a nova versão do Ventura (3.0) e um sistema operacional com interface gráfica, o Windows. Comprei. E nessa compra descobri uma coisa muito interessante: além dos disquetes com o programa, vinha um livro enorme, com instruções detalhadas, coisa inimaginável de se obter num mundo de cópias piratas. Se a gente lembrar que na época a internet era movida a lenha e não tinha Google nem Youtube com tutoriais e informações sobre como as coisas funcionam, tem-se uma ideia de como esse livro era importante. A partir daí, sempre que possível, procurava adquirir o software original. Foi assim quando surgiu o canadense Corel Draw. O primeiro que comprei vinha com uma fita vhs onde o programa era apresentado em vídeo. Ali aprendi, por exemplo, a pronúncia correta do nome do programa (aqui no Brasil chamavam e acho que ainda chamam, de Córel e a moça do video dizia que era Corél). E além do livro com instruções, tinha livro com amostras das centenas fontes e de clipart que estavam também nos discos de instalação, como brindes. Quando a Corel comprou o Ventura Publisher da Xerox lançou, na versão 4.1 do programa, um pacote semelhante, com fontes e ilustrações. A partir daí, por inúmero$ motivos, comecei a reduzir a compra de programas originais e embarquei na canoa dos programas “informais” e, claro também em busca dos códigos livres ou gratuitos. Coisa que a segunda parte do livro do Gastão trata com muita propriedade. ![Dois CDs, um do Corel Draw, outro do Ventura Publisher.](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/corel-ventura.jpg) Depois dos disquetes, a coisa se modernizou: e os programas chegavam em CDs (ainda não eram DVDs). Esses discos aí são do Corel 5 (de 1995) e do Ventura 4.1 (de 1993). No ofício de diagramar minha trajetória, tal e qual a do Gastão, começou analógica, passou pelo Page Maker, que era da Aldus e depois foi comprado pela Adobe e virou InDesign. Fiquei uns 15 anos com o InDesign e aí fiz um desvio que sempre pensei fazer: quando o Ventura ainda era o dono do pedaço: o principal concorrente (e adotado nos maiores jornais e revistas) era o Quark-XPress, que nunca tinha usado. Já neste século, aproveitando uma fase muito interessante do Quark-XPress (durante a gestão do Matthias Günther como diretor global), com grandes aperfeiçoamentos e preço bom (com uma licença perpétua, sem assinatura), comprei e comecei a usar pela primeira vez. Lembrava o Ventura, com suas caixas de texto. E fomos felizes até que mudanças na direção da empresa fizeram a relação com os usuários azedar, modificando a política de updates e upgrades e caminhando para o programa de assinaturas. O passo seguinte me levou em 2022 à estrada (asfaltada, bem diferente das trilhas do século passado) onde estou até agora, o conjunto de softwares Affinity: Publisher, Designer e Photo. Não são grátis, mas não têm assinatura e o preço é bem acessível. E tem uma integração muito útil dos três programas. Ao editar uma página (no Publisher), posso editar a foto (no Photo) sem ter que abrir outro programa, ou criar ou editar uma imagem vetorial (no Designer), também sem sair do Publisher. Mas isso é conversa para outra hora. Voltando ao livro do Gastão: notei que ele não navegou pelos programas de criação e edição de PDF (que substituam o Acrobat Pro, da Adobe), como o online I Love PDF, ou a parte grátis do Sejda. Avaliar as ferramentas disponíveis nessa área é importante porque o PDF é, cada vez mais, onipresente pela sua versatilidade. Seria um bom acréscimo para a segunda edição. Já que estamos na senda do “no meu tempo” permitam-me fazer um comentário adicional. Aqueles PCs montados com peças contrabandeadas foram desaparecendo aos poucos, à medida em que os efeitos da reserva de mercado foram se dissipando e fabricantes começaram a colocar no mercado produtos prontos e a oferta de computadores de boa qualidade aumentou. Ainda era possível personalizar e montar um computador, mas aí com peças importadas legalmente. A certa altura da vida profissional fiz a transição dos PCs com Windows para a Apple. Não cabe agora examinar detalhes (nem a motivação ou o custo) dessa decisão, mas trouxe o assunto, ainda inspirado pelo que o Gastão fala no livro, para lembrar que os computadores da Apple trazem, sem custo adicional, programas muito úteis. Por exemplo: I-Movie para edição de videos, Garage Band, para edição de audios, Keynote, para apresentações e Numbers, para planilhas. Acabei me estendendo. Mas isso só mostra que boa provocação o Gastão fez com o seu livro grátis sobre software livre. ### O meu “caso” com o jornal O Estado URL: https://cesarvalente.com/o-meu-caso-com-o-jornal-o-estado/ Last updated: 2026-07-05T08:13:35.000Z > O fato é que o primeiro emprego, a primeira carteira assinada, a gente não esquece. Ainda mais quando fica voltando ao local do crime, como se não conseguisse se livrar dessa “coisa”. ***\[Artigo publicado no livro "Loucos e Memoráveis Anos — o centenário do jornal O Estado", organizado pelo Laudelino José Sardá e pelo Mário Medaglia em 2015, para a Editoral Unisul\]*** Durante algumas semanas tinha sido suficiente publicar crônicas no Correio do Estreito. Não era um jornal diário, nem tinha grande circulação, mas isso não importava, porque as crônicas também não eram grande coisa, algumas eram redações escolares que saíram direto do caderno de Português para o jornal. Tá certo que tinham, como endosso, uma boa nota atribuída pelo professor, o Padre Aloísio, do Colégio Catarinense. Mas eram, ainda, apenas composições de um aprendiz. Mesmo assim, inventei de querer ser lido por um público maior. E o maior jornal, na época, era O Estado. Ainda (mal) impresso em rotoplana, composto em linotipo, mas diário, com grande prestígio na cidade. Com o destemor e a cara de pau que costumamos ter aos 17 anos, subi a escada de madeira que levava à redação, na velha sede do jornal, na esquina da Conselheiro Mafra com a Bento Gonçalves. A escada rangia a cada passo. Lá em cima, conversei com o Mauro Júlio Amorim, jornalista que mantinha uma página semanal chamada “Plá!”. Gíria corrente, nascida da onda da “jovem guarda”, plá era conversa, bate-papo. E a página conversava sobre teatro, literatura, eventos culturais em geral. Caberia ali uma crônica, como aquelas que levara como amostra? Mauro achou que sim. E a partir dali comecei uma relação com O Estado que duraria 19 anos, com altos e baixos, separações e reatamentos. Jornalista amador, leitor de O Pasquim, publicava, no final da década de 60, no Colégio Catarinense, jornaizinhos satíricos impressos em mimeógrafo a álcool. O primeiro se chamava O Bafo. Depois de criar alguns problemas, tive que fechá-lo e substituí-lo pelo O Sapo, que irritava os professores da mesma forma. A produção dos jornais também me interessava. Por isso, aos sábados à tarde, ia espiar, por um vidro quebrado numa das janelas das oficinas do jornal O Estado, na ladeira da rua Bento Gonçalves, o jornal sendo feito. Não era um ponto de vista ruim: ficava no alto e dava pra ver as linotipos e a rotoplana. De vez em quando aparecia por lá o Osmar Schlindwein, que tanto podia ser encontrado na redação quanto na oficina, metendo a mão na tinta. Eu ficava um tempo olhando aquela movimentação. No dia seguinte corria à banca mais próxima, na praça Nossa Senhora de Fátima, no Estreito, a exatos sete minutos de casa, para conferir o resultado. Lá estava, em legítimas “letras de imprensa”, a crônica da semana. Missão cumprida. Agora era só recomeçar o processo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/oe-1970-6-23.jpg) A edição de 23 de junho de 1970, impressa no sistema "antigo", com títulos montados com tipos móveis, um a um e o texto composto em linotipo. Fotos eram clichês metálicos, em relevo. ## O ESTADO, AGORA EM OFF SET De tanto publicar crônicas na página do Mauro Júlio Amorim, acabei sendo lembrado quando O Estado, em 1972, pressionado pela chegada do Jornal de Santa Catarina “em off-set”, também comprou novas máquinas e ampliou sua equipe. Redator no Caderno 2, editado pelo Paulo da Costa Ramos, foi meu primeiro emprego, meu primeiro salário, meu primeiro registro na carteira de trabalho. O caderno de cultura, pra variar, ficava numa sala separada da redação principal. Cuidando das notícias de verdade, locais, nacionais e internacionais, estava um time de primeira, de jornalistas experientes, a maioria gaúchos, alguns dos quais recém-saídos do concorrente JSC. Jorge Escostegui, Nei Duclós, Elaine Borges, Mário Medaglia, Airton Kanitz, pra citar alguns, eram os deuses do olimpo das *hard news*. Cá no fundo, no rés-do-chão, os catarinenses do caderno de cultura e das tarefas auxiliares, como “pentear” os telex. Quando os “gaúchos” se rebelaram e saíram do jornal, de repente e de uma só vez, fomos chamados a cobrir as ausências. E num longo dia de trabalho árduo, tivemos que aprender a fazer tudo o que não nos tinha sido permitido aprender. A duras penas e com um atraso considerável, acabamos colocando na rua um jornal feito inteiramente pela “prata da casa”. Literalmente, de um dia para o outro. O fato de existirem jornalistas que sabiam fazer coisas que eu não sabia e fazer melhor que eu as coisas que eu sabia, me desafiou. E resolvi que iria atrás dessa “expertise”. Quando avisei ao Sérgio da Costa Ramos, o editor do jornal, que iria cursar jornalismo em Porto Alegre, ele riu. Naturalmente, seria um curso de pouca serventia. Afinal, dali a quatro anos o recém-formado talvez conseguisse uma vaga de iniciante, enquanto que, se continuasse, estaria numa posição bem melhor. Não levei muito a sério a advertência e fui embora. Durante o curso, na PUC-RS, trabalhei quase o tempo todo, em TV, rádio e jornal. Mas não me desliguei completamente de O Estado. Toda semana levava, ao escritório que representava comercialmente o jornal em Porto Alegre, uma crônica, uma coluna de humor, ou outro tipo de colaboração, que era enviada pelo malote para Florianópolis. Quando me formei e voltei, em 1976, fui testar a profecia do Sérgio da Costa Ramos e trabalhei como repórter de O Estado até 1978\. Pouco depois, convidado pelo Moacir Pereira para participar da comissão que criaria o curso de Jornalismo da UFSC, acabei me envolvendo com esse projeto e me afastei de O Estado por vários anos. ## DE VOLTA À CASA, COMO EDITOR Em 1987 estava longe, em Porto Alegre, como secretário de redação do novo jornal Diário do Sul, quando o José Matusalém Comelli, dono de O Estado, voltou a conversar comigo. Ele me pediu, a certa altura, para comentar o jornal, dizer o que estava achando. Mandei uma longa avaliação e fiz algumas sugestões, baseadas no que tinha aprendido recentemente, em Brasília, como editor geral da EBN e em Porto Alegre, ao participar da operação de montagem de um jornal diário, concorrente da Zero Hora. Como resultado dessas conversas, Comelli me convidou para editar O Estado. Aceitei o convite e assumi o cargo em agosto de 1987. Concordei com o Comelli que seria necessário reduzir o número de jornalistas e ele, em princípio, concordou comigo que à redução corresponderia uma melhora salarial dos remanescentes. O objetivo era qualificar a redação e poder contratar os melhores do mercado. Chamei, para me ajudar a tocar o jornal e a montar a equipe, o Flávio Sturdze, que conhecia bem o mercado profissional, agitado com a chegada do jornal “dos gaúchos” (eu fiquei afastado algum tempo e não conhecia todo o pessoal). Tiramos alguns colegas do Diário Catarinense, mantivemos vários que já estavam na casa e, num dos movimentos que causou mais agitação, porque mexeu com profissionais que já eram conhecidos e respeitados na área, reestruturei a editoria de cultura. Na secretaria de redação, completando o trio de confabuladores, que iria tentar fazer o jornal andar em novo ritmo, coloquei o Mário Medaglia, um veterano de O Estado e do jornalismo, que era mais conhecido pela sua atuação como editor de esportes e correspondente da Placar. Fiz o possível, também, para que o Comelli trouxesse de volta o Osmar Schlinwein, que estava no Jornal de Santa Catarina. Eu achava, como ainda acho, que o bom entendimento entre redação e comercial é fundamental. E o Osmar tem, como ninguém, uma visão correta dessa complementaridade e do papel que cada área deve ter num jornal de prestígio. Fui advertido, mais de uma vez, por colegas mais conservadores, sobre o “perigo” de algumas contratações. Achavam eles que alguns (e algumas) eram excessivamente “rebeldes” e que poderiam criar problemas. Como nosso propósito era montar a melhor redação possível, procurávamos justamente por jornalistas com visão crítica, capazes de se indignar com as injustiças e, naturalmente, que não ficassem indiferentes às notícias. *\[*Nota:* abaixo, depois deste artigo, publico como curiosidade a lista com os nomes de todo o pessoal ligado à redação do jornal, em 1988\]* Quanto ao acerto com o Comelli, não deu muito certo. Nem reduzi a redação tanto quanto ele gostaria, nem ele melhorou os salários tanto quanto tinha sido combinado. Mas conseguimos, durante o tempo em que a equipe se manteve trabalhando, dar um “calor” na concorrência e realizar algumas coberturas que nos orgulham a todos. Uma das mais complexas e bem sucedidas foi a reportagem sobre o sequestro dos dois filhos do Saul Brandalise, na época sócio da Perdigão. Os meninos foram sequestrados em Videira, SC e levados para um cativeiro em Balneário Camboriú. Enquanto estiveram em poder dos sequestradores, o jornal atendeu os pedidos da família e da polícia e não noticiou nada. Mas, claro, acompanhamos toda a movimentação da polícia. O chefe de reportagem Ricardo Garcia, o “foca” Carlos Locatelli, e o fotógrafo Gilberto Gonçalves foram para Videira. Mais ou menos ao mesmo tempo em que os reféns eram libertados, em Tijucas, ficamos sabendo que os sequestradores tinham sido localizados em Balneário Camboriú. Estavam num prédio de apartamentos, onde foram cercados pela polícia. O Flávio Sturdze lembra que, na época, estávamos empenhados em furar o DC a qualquer custo, e o forte do DC era justamente a editoria de polícia. Eles tinham, além disso, recém contratado o Betinho Hirtz, um repórter policial famoso e respeitado. Seria uma boa briga. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/capas-oe-1988.jpg) Capas de algumas edições do jornal em 1988 A informação de que o cenário da ação principal fora transferido para Balneário nos chegou mais ou menos no horário de fechamento. O Ricardo Garcia e o Locatelli continuavam em Joaçaba e não teriam como chegar a tempo ao litoral. Como nem eu nem o Flávio acreditamos muito nessa história de especialização de jornalistas, mandamos a Déborah Almada (editora-assistente de política) a Balneário, para reforçar o time, com o repórter Carlos Jung e o editor de fotografia Tarcísio Matos. Combinamos que até às 21h30min ela nos abasteceria de informações, que mandaria de um telefone público (pois é, na época não existia celular), e fomos montando a matéria do cerco e do tiroteio entre bandidos e policiais. Mas a certa altura os contatos cessaram. Soubemos depois que o tiroteio apertou e nenhum repórter conseguia sair do abrigo para chegar a um telefone. Como a história estava empolgante e ainda longe do desfecho, resolvi liberar uma edição para o interior e “segurar” o jornal da capital. Continuamos com a cobertura até muito depois da meia-noite, usando um expediente pouco comum. Pegamos uma velha e boa lista telefônica por endereços de Balneário Camboriú e começamos a telefonar, da redação, para vizinhos do prédio onde estavam os bandidos, e eles foram contando, mais ou menos, o que acontecia por lá. Resultado: nossa cobertura foi infinitamente melhor do que a do DC. E tinhamos inaugurado, em O Estado, o tal de “jornalismo cidadão”. Alguns vizinhos foram tão bons “repórteres”, tão solícitos, que no dia seguinte mandei um cartão de agradecimento e uma assinatura anual do jornal de presente. ## O “ESFORÇO DE REPORTAGEM” Uma da coisas que eu mais gostava de fazer era a coluninha “Do Editor”. Uma pequena janela, aberta para os bastidores do jornal, onde eu conversava com os leitores, comentando sobre jornalismo e o dia-a-dia de O Estado. Na edição em que publicamos a história do tiroteio em Balneário Camboriú, contei para os leitores o que ocorreu. E transcrevo a coluninha aqui, para mostrar como era essa conversa e como foi movimentada aquela madrugada. O reparte do jornal que circulou na capital, como podem depreender do que escrevi, rodou quase no amanhecer. > Do Editor > > **Tiros e Sustos** > > *Que noite!* > > *Em Balneário Camboriú, tiroteios no mais puro estilo “Intocáveis”. Em Videira, aviões decolando na madrugada, carregados de policiais armados até os dentes. Em Florianópolis, Muda Brasil Tancredo Jazz Band lotando o teatro desta capital ansiosa por uma vida cultural mais agitada.* > > *Pouco depois da meia-noite, o delegado Elói Gonçalves retira, da delegacia do Balneário, a mulher de um dos sequestradores. Atentos, os repórteres deste nosso O Estado, o seguem. Elói vai à toda no Gol branco. Atrás, também num Gol branco – só que com a marca do jornal na porta – o repórter Carlos Jung, a editora-assistente Déborah Almada, o editor de fotografia Tarcísio Matos e, de carona, a repórter Rosana Porto, da Folha de São Paulo. Ao volante, o destemido motorista José Rios.* > > *A perseguição terminou diante de um prédio. O carro de Elói parou, o carro de O Estado parou junto, quase grudado. Até aquele momento não se sabia onde estavam escondidos os sequestradores. E a partir daquele momento ficaram sabendo da forma mais assustadora: começou o tiroteio contra o carro do delegado, que tentou dar uma ré. Atrás, impedindo, o nosso carro, parado. É que o José Rios, as balas zunindo por todos os lados, não conseguia mover o carro. Os segundo pareceram horas, até que ele conseguiu engatar a ré, sair da linha de fogo e liberar o caminho para o outro gol.* > > *A partir daí estavam todos literalmente no centro dos acontecimentos. Mortos de medo de levar uma bala perdida, mas no centro dos acontecimentos.* > > *Tão no centro que tinham muita dificuldade de sair para passar as informações por telefone (os relatos detalhados estão na edição de hoje). Um dos moradores da vizinhança, amigo deste nosso O Estado, supriu essa dificuldade relatando-nos, pelo telefone da sua casa, o que estava vendo e ouvindo.* > > *Em Videira, quando o delegado Renato Hendges e sua equipe levantaram-se, às 3h, para sair em direção ao aeroporto, esbarraram, na porta do hotel, com um “comitê de recepção” formado pelo secretário de redação Ricardo Garcia, pelo repórter Carlos Locatelli, pelo editor-assistente de fotografia Gilberto Gonçalves e pelo motorista Luiz de Assis. Todos prontos a acompanhar os policiais até o aeroporto, para documentar a partida dos policiais catarinenses que foram caçar sequestradores em Curitiba.* > > *Que noite!* ## DIVERTIDO, MAS SEM FINAL FELIZ Como essa, ocorreram várias aventuras jornalísticas no período em que fui editor do mais antigo, algumas bem sucedidas, outras nem tanto. Provavelmente muitos dos colegas da época lembram-se de mim apenas como “o cara que proibiu a venda de bebidas alcoólicas na cantina do jornal”. Outros, como “o editor que foi derrubado pela greve dos jornalistas”. Foi um período estimulante e movimentado, mas o final da história foi doloroso. Os repórteres que Flávio e eu tinhamos trazido para a equipe resolveram, na primeira crise mais séria que enfrentamos, que deveriam proibir a minha entrada e participação na assembléia que discutiria os problemas e uma proposta de greve. Eu acreditava que, ao ouvir as queixas dos colegas, poderia tentar dialogar com a direção. Mas eles não quiseram essa intermediação. E acabaram decidindo, a meu ver intempestivamente, pela greve. Restou-me, com o Flávio e o Mário, tocar o barco enquanto aguardávamos algum desfecho. Os grevistas não queriam conversa e o patrão, claro, muito menos. Fechamos o jornal por alguns dias, usando basicamente press releases e telegramas de agências de notícias. Até que o Comelli me chamou e pediu-me que começasse a contratar outros jornalistas, para que o jornal voltasse à normalidade. Expliquei que tinha montado uma equipe com os melhores que existiam no mercado e que não fazia sentido trazer outras pessoas, dispensando a turma original sem qualquer negociação. Diante do impasse, percebi que não tinha mais nada a fazer ali e pedi demissão. No dia 2 de março de 1989 saí de O Estado. Definitivamente. --- ## QUANTA GENTE! Quando olho a lista dos jornalistas que trabalhavam na redação de um jornal médio como O Estado, em 1988, espanto-me, em primeiro lugar, com o número de pessoas. Na época nem achava que era uma equipe tão grande, mas hoje é um negócio imenso. Inimaginável, impraticável. E diriam os patrões (como já diziam naquele tempo), “insustentável”. Acho que estão aí todos e todas que, em algum momento de 1988, fizeram parte da equipe. Não foi por acaso que o pessoal do marketing escolheu, para slogan de uma campanha publicitária, aquela frase pretensiosa (“O melhor do jornalismo está aqui”). A foto da propaganda, que ilustra esta nota, deve ter sido feita depois (ou antes) desta lista que achei nos meus guardados. Na foto aparecem três colegas (Sérgio da Costa Ramos, Sérgio Bueno e Paulo Clóvis Schmitz) que não estão na relação do pessoal. Mas é mais ou menos o mesmo período. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/oe-grupo1.jpg) *Editor-chefe:* Cesar Valente *Chefe de redação:* Flávio de Sturdze *Secretária Gráfica:* Jucélia Fernandes[](editor-chefe: Cesar ValenteChefe de reda%C3%A7%C3%A3o: Fl%C3%A1vio de SturdzeSecret%C3%A1ria Gr%C3%A1fica: Juc%C3%A9lia FernandesSecret%C3%A1rio de Reda%C3%A7%C3%A3o: M%C3%A1rio Medaglia)*Secretário de Redação:* Mário Medaglia **Editoria de Política** *Editora:* Ludmila Souza *Ed. Assistente:* Déborah Almada *Repórteres:* Evandro Baron Linete Braz Martins Luciana Grillo Roseméri Laurindo Urbano Salles **Editoria de Economia** *Editor:* Jorge Luiz Tyburski *Ed. Assistente:* Suzete Antunes *Repórteres:* Denise Christians Valdir Cachoeira Sandra Werle Mauro Pandolfi **Editoria de Esporte** *Editor:* Danilo Mirales *Editores Assistentes:* Mauro Bento Pires e Carlos de Carvalho Neto *Repórteres:* Luciano Bittencourt Cláudia Sanz Ewaldo Willerding Neto Ivonei Fazzioni José Carlos Zeca Virtuoso **Editoria de Geral/Cidade** *Editor:* Ricardo Garcia *Coordenador:* Vitor Louzado *Ed. Assistente:* Carlos Jung *Repórteres:* Geraldo Hoffmann Lino da Silva Rodrigues Luiza D’Argolo Ferrão Isabel Drulla Brandão Maria Brígida Pascoal Lena Obst **Editoria de Polícia** *Editor:* Paulo Goethe *Repórter:* João Carlos Mendonça Santos **Sucursais** *Coordenador:* Antônio Kowalski **Nacional/Internacional** *Editor:* Doroti de Sturdze **Editoria de Lazer e Cultura** *Editora*: Liliana Reales *Ed. Assistente:* Rossana Espezim *Repórteres:* Cláudio Schuster Monique Vandresen Ricardo Carle Rosana Maria Marcis Tayana Cardoso de Oliveira Zeni Rates **Editoria de Fotografia** *Editor*: Olívio Lamas *Ed. Assistente:* Gilberto Gonçalves *Repórteres fotográficos:* Alcebíades Muniz Cláudio Silva da Silva Luiz Eduardo Vasseur Marco Cezar Nascimento **Diagramação** *Chefe:* Paulo Martins *Sub:* Lu Zuê Edio Pecus Bill Orleans Wilson Heron Domingues Paulo Ricardo Della Pasqua **Ilustradores** Clóvis Medeiros Sérgio Bonson Fábio Veiga **Colunistas** Luiz Henrique Tancredo Moacir Pereira Cláudio Ricardo Silva (Miro) Zury Machado Beto Stodieck Paulo da Costa Ramos **Apoio** *Arquivo* Silvana Coelho Iria Maria da Silva *Telex* Danísio Cardoso Marcos Estevão *Secretária* Ivana Rosa Pra quem não lilgou os nomes às pessoas, vou identificar quem está na foto. **Em pé, da esquerda:** Zury Machado, Flávio Sturze, Sérgio Bueno, Luciano Bittencourt, Fábio Veiga, Bonson, Debrah Almada, Vitor Louzado, Ludimila Souza, Moacir Pereira, Mário Medaglia, Doroti de Sturdze e Sérgio da Costa Ramos. **Na fila da frente:** Lu Zuê, Carlos de Carvalho Neto, Paulo Clóvis Schmitz, Mauro Pires, Paulo Martins, Paulo Goethe, Zeni Rates, Luiz Henrique Tancredo, Toninho Kowalski e este que vos fala. ### O dia em que descobri o fogo URL: https://cesarvalente.com/o-dia-em-que-descobri-o-fogo/ Last updated: 2026-07-05T08:13:56.000Z ### Um menino às voltas com técnicas e tecnologias. Filho único de família classe média, com pai cirurgião dentista e mãe coletora federal (cargo que equivale hoje ao de auditora da receita federal) vivi desde 1953 em Tubarão, pequena cidade do sul de Santa Catarina (município assinalado no mapa abaixo) cortada, na época, por uma ferrovia que unia as minas de carvão de Criciúma ao porto de Imbituba. No início da década de 1960 a cidade tinha cinema, uma linha aérea regular que trazia todos os dias o jornal O Globo do Rio de Janeiro e todas as semanas o Pato Donald e O Cruzeiro. Ia para o colégio a pé e os terrenos baldios da vizinhança eram campos de futebol. Aos domingos, antes da missa na matriz, tocava o sino pendurado na corda, subindo e descendo, com o paramento de coroinha abrindo como paraquedas na descida. Acho que vivi, dos oito aos dez anos, aventuras (reais e imaginárias) suficientes para preencher um livro. Mas tentarei manter-me nos limites deste ensaio. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/mapa_tubarao.jpg) Antes de começar a contar as histórias que prometi no título é preciso apresentar apropriadamente um dos personagens principais. Meu pai. Ele usava uma palavra que eu achava engraçada para elogiar quem ele gostava ou que tinha feito alguma coisa merecedora de elogios: “que sujeito batuta!” Anos depois descobri que a palavra engraçada não só existia, como significava, segundo os dicionários exatamente isso: de qualidade acima do normal, digno de confiança, corajoso, determinado e, claro, valente. Então, esse era meu pai: seu Orlando, um sujeito batuta. ![Placa com nome de Orlando Valente](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/ovalente-placa.jpg) ***Eu e a placa original, do consultório do dentista em Tubarão, que hoje é objeto decorativo na casa da neta.*** ### À MARGEM DO RIO TUBARÃO O consultório dele, em Tubarão, ficava num sobrado à beira do rio, geminado com vários outros. Embaixo, lojas de vários tipos e ramos. Em cima, escritórios, advogados, médicos, dentistas. Na minha lembrança o consultório do Dr. Orlando Valente era muito amplo, com duas cadeiras de dentistas separadas por um biombo (acho que em algum momento ele teve um colega trabalhando junto). E uma sala, separada por uma porta, onde era feito, também por ele, o trabalho de prótese dentária. Ali a coisa era quase mágica: puro artesanato. Dos moldes que fazia nas bocas dos clientes ele produzia modelos em gesso, que complementava com próteses e novos dentes que ajustavam-se à perfeição às bocas que, até onde sei, sempre saíam sorridentes. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2022-07-09-at-19-29-21.png) ***Fotos recentes (do Google Street View). Acima os fundos do conjunto de sobrados à beira do rio Tubarão. Num deles ficava o consultório do Dr. Orlando. Abaixo, a frente dos sobrados, na rua Lauro Müller.*** ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2022-07-09-at-21-26-59.png) Num dia qualquer de 1961, com oito anos de idade, estava lá, no “gabinete do dentista”, provavelmente fazendo deveres ou mexendo em alguma coisa que não deveria mexer quando numa hora, sem clientes, meu pai me chamou para perto do “equipo” (aquele conjunto que fica próximo à cadeira do dentista). Não lembro dele ter dado qualquer explicação, apenas mostrava o que estava fazendo. Pegou uma pinça, daquelas que costumava usar no trabalho com os clientes, enrolou uma bolinha pequena de algodão, embebeu-a no álcool, segurou-a com a pinça e fomos para a janela. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pinssa.png) ***A pinça usada na primeira aventura.*** Lá fora, o rio Tubarão. Abaixo, a barranca do rio e, perto da parede do prédio, algumas caixas de papelão. Embaixo do consultório tinha uma loja de sapatos e, naquela época, descartar caixas de papelão na margem do rio não era coisa que despertasse qualquer preocupação. Ele me pediu para olhar para as caixas enquanto acendia a bolinha de algodão com fogo. Estendeu o braço e afroxou a pinça. A bolinha, com aquele fogo meio invisível do álcool, desceu e quando tocou as caixas, elas começaram a pegar fogo. Meu pai ria com o sucesso da experiência. E eu achava o máximo ter descoberto como fazer fogo à distância usando coisas que o dentista usava todo dia para outras finalidades. Sempre que conto essa história alguém pergunta, preocupado “mas conseguiram apagar o fogo, não incendiou mais nada?” É provável que o fogo em algumas caixas de sapatos tenha ficado por ali mesmo. Nos meus oito anos, fascinado com o evento extraordinário que meu pai tinha compartilhado comigo, não me preocupei com qualquer consequência. Porque, como disse, tinha descoberto o fogo. Todo o resto apagou-se-me da memória. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/agenda-volando-004.jpg) ***Propaganda de "equipo" numa agenda antiga (de 1946) distribuída pelos Laboratórios Catarinense S.A. Parecido com o equipo que existia no consultório em 1960.*** ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/agenda-volando-017.jpg) ***Propaganda, da mesma agenda antiga, daquele material cor de rosa de fazer dentaduras que meu pai usava, pela maleabilidade, resistência e durabilidade, para consertar muita coisa (principalmente objetos de baquelite ou galalite) em casa.*** Naquele ambiente aquela foi a experiência mais fascinante. Só o dia em que meu pai me mostrou as propriedades e possibilidades lúdicas do mercúrio chegou perto. O mercúrio, metal líquido em temperatura ambiente, compunha o amálgama com que eram feitas as obturações dentárias. Hoje sabemos de todos os riscos à saúde, mas o mercúrio é inegavelmente um elemento visualmente espetacular: com seu brilho prateado, como um metal inoxidável polido e sua consistência entre o líquido e pastoso, quando colocado numa superfície (com bordas, como uma bandeja, para não escorrer para fora), formava bolinhas. A gente ficava mexendo na bandeja para ver as bolinhas se juntarem ou separar. Era muito divertido. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/1024px-mercury_escaped.jpg) ***O mercúrio, fascinante e misterioso metal líquido que tinha, como toda coisa perigosa, um talento lúdico irresistível. E, nas horas vagas, era usado pelos dentistas em obturações.*** Mas não era só de fogo e metais cancerígenos o dia-a-dia do dentista: usava gesso para fazer os modelos a partir dos moldes bucais e um composto químico (uma parte líquida e outra em pó que, misturados, formavam aquele material meio cor de rosa das dentaduras). ### A SERVIÇO DO ÓCIO CRIATIVO Então, lá em casa, nessa época, sempre que alguma coisa quebrava, a primeira tentativa que meu pai fazia era remendar (ou “consertar”) usando essa “massinha” que secava e endurecia rapidamente. Não era difícil, à visita mais atenta, descobrir aqui e ali remendos cor de rosa. Pra mim era muito óbvio: se servia para criar uma dentadura, ajustando-se às caprichosas curvas da boca humana, certamente poderia ser usada para muitas outras finalidades, artísticas, artesanais ou só pra irritar minha mãe, que preferiria um vaso novo a um colado com uma vistosa “cola” cor de rosa. Quando preparava o gesso para encher os moldes, o protético Valente mexia a mistura com uma espátula de osso (hoje seria de plástico) numa pequena cuia de borracha. Um dia ele levou a espátula, a cuia e gesso lá pra casa. E deu-me de presente uns moldes de plástico com figuras das revistinhas de Walt Disney (Pato Donald, Mickey, Pateta…). Aprendi então a misturar o gesso, naquela cuia de borracha e a encher os moldes. Depois de secar, era só retirar dos moldes e pintar com gouache. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pato-gesso.jpg) ***A cuia de borracha que eu gostava de pegar e onde misturar o gesso virava uma ação cheia de sensações táteis. O gesso dos moldes dentários virava figurinhas da Disney, dos gibis onde aprendi a ler.*** Toda aquelas técnicas e tecnologias tanto poderiam ser utilizadas para o trabalho, quanto para o ócio criativo, ou qualquer uso que a gente imaginasse. Naquela época tinha, na praça, um “serviço de alto-falantes”, uma espécie de rádio hiper-local. E um dia meu pai apareceu com uma coisinha de metal redonda, como uma latinha de minancora, que disse que era um microfone. Ligou a um fio e conectou em dois buraquinhos que eu nem desconfiava que existiam na parte de trás do velho rádio Zenith. Virou um pequeno interruptor ao lado dos buraquinhos e shazam! a minha voz saía no altofalante do rádio. E no botão de volume se podia regular a altura. Coloquei o rádio na janela da frente da casa e comecei a operar o meu próprio serviço de alto-falante. No início só oferecia, aos passantes (poucos, porque era uma rua residencial), os quadrinhos de gesso pintados que tinha produzido e pretendia vender. Depois falava de outras coisas, lia revistas e jornais. Mas não durou muito, porque sempre tinha alguma coisa nova acontecendo. Ou coisa antiga que voltava a me interessar. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/projetor1.jpg) ***O que restou do projetor de filmes de 16mm movido a manivela (peça importante que se perdeu nas muitas mudanças). Foto recente que mostra a ação do tempo, da maresia e do desleixo***. Meu pai era um cinemaníaco. Ia ao cinema quase todos os dias, com a minha mãe ou sozinho. E, naturalmente, comprou um projetor de filmes 16mm (manual, movido a manivela e sem som). E alguns filmes (pxb) com desenhos animados clássicos, como dos três porquinhos e o lobo mau. A vantagem da manivela é que era possível avançar ou retroceder o filme. Mas o meu pai sugeria usos também para os pedaços da película, no início ou no final do rolo, que não tinham nada: se a superfícia estava preta, dava para riscar com um estilete, se estava transparente dava pra pintar com uma caneta. E projetar aquela “animação” fazia parte da descoberta de novos usos e costumes. [Clique aqui se quiser ver, no youtube, a versão colorida e com som de um dos desenhos animados que tinhamos em casa: Os Três Porquinhos, de 1933.](https://youtu.be/C9o%5FXokZbW8?feature=shared&ref=cesarvalente.com) ### O PIANO QUE TOCA "SOZINHO" Meu pai, quando jovem, tocava piano nas sessões de cinema mudo. E, claro, tínhamos um piano em casa. Mas não era um piano qualquer: tinha pianola. Como um “transformer”, abria-se uma portinhola embaixo e saía um par de pedais enormes, abria-se uma gavetinha diante do teclado, para os controles e ao abrir a janelinha na parte superior podia-se trocar a bobina de papel perfurado que continha a música. Pedalando para acionar o mecanismo do sistema, fazia-se o rolo girar e se produzia ar que ao passar ou não pelos furinhos do papel movimentava as teclas. E o piano tocava “sozinho”. A canalização, de um material com pouca duração, acabou apodrecendo e o seu Valente improvisou, com mangueirinhas de chuveiro, as ligações que tinham sido interrompidas. E a pianola voltou a tocar. Nunca aprendi a tocar piano tão bem quanto o rolo de papel ou como meu pai, mas nunca me importei, porque viajava bastante usando o banco giratório redondo do piano como direção do meu caminhão. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pianola2.jpg) ***Esse aí acima era o piano e sua pianola. Fotografado pela minha nora Alice poucos meses antes de sucumbir definitivamente aos cupins. O apodrecimento da caixa e o fato das peças de reposição não estarem disponíveis no Brasil, tornaram sua recuperação impossível para os meios que dispunhamos.*** ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/playerpianoroll.jpg) ***Para ilustrar, aí está o rolo da música colocado numa pianola.*** [Se quiser ver e ouvir (num video do youtube) uma pianola funcionando, clique aqui.](https://youtu.be/IElCAs7tivM?feature=shared&ref=cesarvalente.com) [E aqui tem um video que mostra mais detalhadamente o funcionamento da pianola e informa sobre o trabalho de digitalização dos rolos de música feito na Espanha. Áudio em inglês, mas a maioria das imagens é auto-explicativa.](https://youtu.be/sPeR0UHsb7U?feature=shared&ref=cesarvalente.com) ### OS COMPROMISSOS "PROFISSIONAIS" Fora de casa, tinha uma vida “independente”. Era uma espécie de coroinha profissional. As missas católicas ainda eram em latim. O padre iniciava as orações e os presentes deveriam responder. Mas ninguém sabia latim ou tinha interesse, então restava aos coroinhas fazer esse papel, em voz alta. Às seis da manhã ajudava a missa no colégio de freiras onde fazia o primário e que era bem perto de casa. O café da manhã servido por elas para o padre e para mim depois da missa era provavelmente um dos principais motivos de sair de casa quando ainda era escuro. Na catedral os motivos da assiduidade para “ajudar a missa” eram outros. Ao coroinha cabiam duas responsabilidades muito sérias: tocar o sino e ligar o sistema de som. O sino, grandão no alto da torre à frente da igreja, era acionado puxando-se uma corda, no térreo. Com nove ou dez anos, não era muito pesado, então tinha que fazer alguma força para a primeira puxada da corda. Mas depois era só diversão: segurando firmemente na corda, tal e qual num parque de diversões, subia até uma altura, levado pelo peso do sino, depois descia, como contrapeso, até o chão. Ao descer, a “saia” dos paramentos de coroinha se abria como um paraquedas. E era preciso uma certo conhecimento intuitivo de física para depois de um certo número de badaladas ir reduzindo os impulsos, parar de tocar e ficar no chão. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/coroinha3.jpg) **Os coroinhas de Colina (México), em março de 2022, tocando o sino.** [No instagram tem um videozinho desses meninos mexicanos se divertindo ao tocar o sino da matriz.](https://www.instagram.com/reel/CaFvEa8p0Ii/?ref=cesarvalente.com) Ligar o sistema de som era menos emocionante, em termos. Aos domingos a missa era transmitida pelo rádio (tinha até um “locutor de missa” que em voz quase sussurrada informava o que estava acontecendo). E o povo só poderia ouvir, em suas casas, o sermão do domingo, se eu não tivesse feito nada errado ao ligar a aparelhagem. Acho que foi no aniversário de dez anos, em 1963, que ganhei um rádio portátil, de pilhas. Ainda era o tempo em que o conceito de portátil não estava bem definido. O rádio precisava de seis pilhas grandes para funcionar. E só isso já era um peso e tanto. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/radio-5099566_1.jpg) ***O rádio "portátil" Philips que ganhei de aniversário, cuja antena permitia ouvir rádios "do mundo todo".*** Mas era uma maravilha. Em Tubarão não tinha televisão. Ouvir rádio era uma atividade bem difundida. Mas com o meu próprio rádio eu podia deitar logo depois da janta, com o rádio ao lado da cama e fazer o que passou a ser uma das minhas diversões noturnas preferidas: zapear. Ia rodando o dial e ouvindo estação por estação, chiado por chiado. Nas ondas médias e depois nas ondas curtas. Tanto as rádios que entendia, como a Mayrink Veiga, do Rio, com programas humorísticos que tinham vindo da rádio Nacional e que depois iriam para a televisão (como o Balança Mas não Cai), quanto as que não entendia, como as rádios da Argentina, com locutores muito entusiasmados. E os programas em português da Voz da América, da rádio de Moscou, da BBC e da rádio de Pequim. Ou a cadeia da Legalidade, do Brizola. Até dormir. Na noite seguinte recomeçaria (rádio “pega” melhor à noite). ### ESCREVER E DESENHAR... Minha mãe, já contei, era funcionária pública. Às vezes trazia trabalho pra casa. Suas ferramentas eram uma máquina de escrever Smith & Corona e uma caneta Parker 51\. Meu pai também usava uma Parker 51\. Mal comparando eram assim tipo o Cadillac das canetas. Com seu perfil aerodinâmico, a pena escondida na “fuselagem”, eram um instrumento de precisão. Meu pai sabia exatamente quando alguém tinha usado a caneta. Não tinha como esconder. Então, tinha que me contentar com uma Compactor estudante, até ter letra suficientemente bonita para poder usar uma Parker 51. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pk51-zina-orlando.jpg) ***As Parker 51 da minha mãe e do meu pai. Devidamente gravadas com os nomes, porque eram objetos personalíssimos que não deveriam ser utilizados por "qualquer um"; Muito menos por mim.*** Isso de letra, de desenhar, de rabiscar, era coisa do meu pai que, durante muito tempo (antes da invenção do xerox e antes da popularização das lojas de música), copiava a mão as partituras das músicas que gostava, acrescentando capas com seus títulos cuidadosamente desenhados e alguma outra ilustração. E não raro riscava fotos das revistas, criando personagens de narizes imensos, olhos arregalados, orelhas de abano. Reinventando as imagens. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/partitura-1b.jpg) ***O pianista que copiava: acima uma amostra de partitura desenhada a mão, em 1928.*** ***Abaixo, a capa de uma música de 1925;*** ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/partitura-jpeg.jpg) Quando começou na profissão, em Gaspar, no vale do Itajaí, década de 30, a broca era movida a pedal. Depois, bem depois, veio a establidade da energia elétrica e as brocas mais rápidas. Quando chegaram as brocas de alta velocidade, zunindo como aviões a jato, o doutor Valente decidiu não dar aquele passo. E começou a deixar as restaurações para os colegas, ficando com o artesanato das próteses. Minhas cáries foram tratadas por outro dentista, com as brocas a jato (jato de água e barulho de avião). Ele não queria me submeter à trepidante broca “normal”. Acho que isso de causar dor não era muito com ele. Meu pai se aposentou e deixou a odontologia assim que foi possível, ainda em 1963\. Tinha outros planos e não podia deixar que a profissão, o trabalho, criassem obstáculos: construiu um pequeno prédio em Florianópolis, para onde pretendia mudar-se com a família em 1964\. Afinal, o filho único precisava cursar o Colégio Catarinense na capital para ser o engenheiro, médico ou, se não tivesse jeito, pelo menos o advogado da família. Imaginem a cara que fizeram no dia em que informei que queria ser jornalista. Em 1970 minha mãe foi, sem eu saber, ao jornal O Estado, na rua Conselheiro Mafra, em Florianópolis, onde publicava minhas primeiras crônicas semanais, falar com o editor para que ele desse uns conselhos para esse menino, pediu-lhe que me aconselhasse a desistir do jornalismo, para poder ser alguma coisa na vida. Coitada. Não teve sucesso nessa empreitada. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/casamento-silvio001.jpg) ***No destaque minha mãe, meu pai, minhas orelhas e eu, no casamento de um primo, em 1962\. No cabelo, Gumex.*** ### CONSIDERAÇÕES FINAIS Este ensaio foi construído a partir do que prescreve Theodor W. Adorno (2003) em “Ensaio como forma” e pretendeu abraçar, sem vergonha, todo o resquício de liberdade de pensar, relacionar, contar, explicar e lembrar que emerge daquele texto que incita, provoca e estimula o mergulho nas suas próprias vivências: > *O ensaio, porém, não admite que seu âmbito de competência lhe seja prescrito. Em vez de alcançar algo cientificamente ou criar artisticamente alguma coisa, seus esforços ainda espelham a disponibilidade de quem, como uma criança, não tem vergonha de se entusiasmar com o que os outros já fizeram. O ensaio reflete o que é amado e odiado, em vez de conceber o espírito como uma criação a partir do nada, segundo o modelo de irrestrita moral do trabalho. Felicidade e jogo lhe são essenciais.* > > *(ADORNO, 2003, pg 16)* Além de funcionar como um exercício de memória, perfumado com um certo romantismo nostálgico, as referências que reuni mostram uma criança que se deslumbra com as técnicas e a tecnologia dos anos 60\. E a forma escolhida para apresentação vale-se de tecnologias disponíveis agora (2022), para ilustrar o ensaio com exemplos que podem ser úteis para ajudar quem não teve acesso, no passado, ao mesmo conjunto de experiências aqui compartilhadas, a entender o contexto desses relacionamentos. Ao final, acho que agora entendo melhor o que Simondon (1989) queria dizer ao afirmar que “A oposição erguida entre a cultura e a técnica, entre o homem e a máquina, é falsa e sem fundamento”. E procurei, por isso, afastar-me da “xenofobia primitiva” que poderia criar essas barreiras artificiais, tratando como agentes criadores de experiências e emoções todos os elementos humanos e não humanos envolvidos. The End. --- - *Este ensaio foi apresentado no primeiro semestre de 2022 como trabalho final da disciplina *Tópicos Avançados em Tecnologias, Linguagens e Inovação: Yuk Hui*, ministrada pela Profa. Dra. Stefanie Carlan da Silveira no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.* --- ### REFERÊNCIAS ADORNO, W.T, **Notas de Literatura** I. Tradução Jorge de Almeida, Ed. 34, Coleção espírito crítico, 2003. SIMONDON, G. *Du mode d’existence des objets techniques* (orig. 1958). Paris: Aubier, 1989\. In CUPANI, Alberto, **Filosofia da tecnologia: um convite**. 3\. ed. Florianópolis: Editora da UFSC, 2016. ### Rumo à China, de ferryboat URL: https://cesarvalente.com/rumo-a-china-de-ferryboat/ Last updated: 2026-07-05T08:14:02.000Z Estava procurando passagens aéreas de Paris para Shenzhen, no sul da China, mas só encontrei com escala em Pequim (Beijing). Já para Hong Kong, que fica perto, havia vôos diretos. Posentão. Vou contar pra vocês como foi (em 2019) ir pra China via Hong Kong. > *Estas conversas de viagem que publico aqui não devem ser consideradas "reportagens". São anotações de um viajante (meio distraído, às vezes), que talvez interesse a quem gosta de viajar e de conhecer a experiência de outras pessoas.* Pois bem, vamos lá. Shenzhen é uma daquelas enormes cidades chinesas que a gente nunca tinha ouvido falar. E que, há 40 anos eram pequenas cidades interioranas. Nessas poucas décadas ganharam arranhacéus impressionantes, bairros residenciais em áreas onde antes era mar, enormes aeroportos, portos gigantescos e redes completas de metrô e ônibus urbanos. E passaram de alguns poucos milhares de habitantes (uns 30 mil) para muitos milhões (mais de 10 milhões em 2016). ![Mapa do metrô de Shenzhen](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/metro-mapa-img_9420.jpg) Pelo número e extensão das linhas do metrô, dá pra ter uma ideia do tamanho da cidade. E se orgulha de ter 15 prédios "muito altos", ou seja, acima de 300 m (Dubai tem 25). O mais alto tem 599 metros, o segundo 442 metros e o terceiro, esse que aparece no video abaixo, "apenas" 392 metros. Foi planejado para ter uns 500, mas teve que se contentar com menos porque estava na rota dos aviões. Só pra comparar, o Morro da Cruz, em Florianópolis, tem 285 metros de altura. https://vimeo.com/362400060É um foguete? É uma bala de canhão? É a China Resources Tower. Talvez outro dia escreva sobre esse processo de megalopolização da cidade e o centro de tecnologia que se tornou. Mas hoje a gente ainda está tentando chegar lá. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/mapa-hkg-shekou.jpg) São dois "países", numa região densamente habitada e que seria conurbada, não fossem os postos de controle de fronteira. ### VIA HONG KONG Quando perguntei a quem já tinha ido, como era chegar à China via Hong Kong deram-me instruções muito detalhadas e precisas: "tranquilo". Depois de ter ido e vindo, acho que também posso responder, resumindo: tranquilo. Hong Kong, vocês sabem, é um território que não é China (ainda), embora seja governado pela China. Hong Kong e Macau são áreas "especiais". A diferença mais fácil de explicar é esta: em Hong Kong a internet tem facebook, whatsapp e dá pra baixar ou atualizar qualquer app do celular. Na China, não. Mas é claro que por lá nada é assim tão simples. Como estamos apenas conversando sobre a ida e a vinda, não vou entrar nos detalhes dessa situação de ser China sem ser China, que Hong Kong ostenta. O fato é que a gente compra passagem num vôo direto para Hong Kong, como qualquer pessoa que vai para Hong Kong. E desembarca no mega aeroporto de Hong Kong como os demais passageiros. Mas não vai pegar a mala nem sair do aeroporto. Porque não vamos para Hong Kong. E, como a gente vai para a China, não faz sentido fazer a alfândega em Hong Kong. No aeroporto mesmo, antes de chegar na aduana, tem os guichês do ferry para Shenzhen (e para Macau). Ali a gente compra a passagem e mostra o ticket da bagagem. Eles se encarregam de pegar a bagagem no avião e colocar no barco. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pier-aeroporto-hkg-img_8410.jpg) No pier do aeroporto, o ferry que levará a Shekou, em Shenzhen. Sim, sim, dá um certo temor que as malas se extraviem e que a gente vá para um lado e as malas para outro. Mas, como disse a pessoa que me orientou, quando perguntei como era isso: "tranquilo". Claro, não se pode pegar o barco que esteja saindo logo, porque precisam de algum tempo para fazer essa operação das bagagens. Esperamos uns 45 minutos. E aí fomos para o embarque. Já falei que é um mega-aeroporto? Posentão. Desce em longas escadas rolantes, pega um metrô e lá adiante sai no pier do próprio aeroporto, onde tem um ferry ancorado. Um catamarã, com capacidade para trocentas pessoas. Quando chega o horário, partimos para a China. Meia hora, mais ou menos, de viagem. https://vimeo.com/362422213E aí, florianopolitanos, que tal atravessar as baías num treco desses? ### A FRONTEIRA, NA CHEGADA A viagem é, como direi, tranquila. O catamarã (com suas duas quilhas) tem motores potentes, navega muito rápido e com pouquíssimo balanço. Alguns dos barcos, contudo, provavelmente pela idade, têm as janelas sujas ou com algum problema que dificulta a visibilidade. O que é uma pena, porque navegam perto da costa e é bem legal quando os vidros são translúcidos e a gente consegue ver a paisagem. ![Shekou](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/panorama-pier-img_9059.jpg) O pier de Shekou é aquela estrutura em formato de asa delta, ao centro O pier de Shekou, em Shenzhen, é uma estrutura enorme, um porto alfandegado para navios de cruzeiros e para os vários ferry que servem a cidade. Ao desembarcar, como num aeroporto, vamos para a fila da aduana. O controle é bem rigoroso. Tem que tirar foto e deixar digitais das duas mãos diante de policiais que parecem ter dificuldade em ler os caracteres ocidentais dos nossos passaportes. Lê, relê, olha pra gente, digita coisas no terminal. Recomeça. Ou seja, muna-se de paciência porque não é rápido. Depois da aduana, as bagagens. E nada de "por amostragem": todas as malas, maletas e mochilas passam por um raios-X gigante. Nesta altura a gente começa a descobrir uma das características dos chineses. Eles vão que vão, não tem isso de esperar, dar a vez. Vi um sujeito ser derrubado naquele avanço de colocar a mala na esteira do raios-X e quase que ele vai pra dentro da máquina. Mas não tirem conclusões precipitadas. Se precisarem de ajuda ou de informação verão que a maioria é muito solícita, gentil, te ajuda com um sorriso. A língua é sempre um problema, é raro encontrar quem fale inglês. Mas se a gente pergunta alguma coisa correm a abrir, no celular, o app de tradução, pra gente falar e eles poderem ler o que estamos dizendo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pier-shenzhen-img_0022.jpg) Um dos "fingers" do pier de Shenzhen. De um lado o ferry, do outro o navio de cruzeiro. O pier tem ônibus passando por dentro, ligação com a estação de metrô mais próxima e, ao redor, um bairro inteiro sendo construído (dia e noite, sem domingo e feriado, como parece ser costume por aquelas bandas), para aproveitar a proximidade com essa porta de entrada. ### A FRONTEIRA, NA SAÍDA Shenzhen é perto de Hong Kong. São uns 50 km por via terrestre e perto de uma hora de barco. Teoricamente é fácil ir e vir. Na prática é preciso levar em conta o fato de que se atravessa uma fronteira muito controlada. Digamos que os netos te convidem para passar o dia na Disneylandia de Hong Kong, que fica perto do aeroporto. Tem que contabilizar, na ida e na vinda, de carro, a passagem pelas duas aduanas. Saída da China e entrada em Hong Kong. Depois saída de Hong Kong e entrada na China. E só carros com duas placas podem fazer esse trajeto. Mas é fácil contratar um "carro de aluguel" que esteja autorizado a fazer esse vai e vem. https://vimeo.com/362401821Ao fundo, Hong Kong. O trânsito de ferrys é intenso. Para ir ao centro de Hong Kong, de barco, é um pouco mais fácil, mas tem fiscalização na saída e na entrada de cada um dos "países", na ida e na volta. https://vimeo.com/362400015Chegada a Shenzhen, pela ponte que liga a Hong Kong. Se o vôo de retorno está marcado para sair de Hong Kong e a gente está em Shenzhen, o check in é feito já no pier, onde se pega o ferry (aquele mesmo onde chegamos). Tem guichês das companhias aéreas. A bagagem também é despachada ali. E faz a alfândega de saída da China. No aeroporto de Hong Kong (já falei que é um mega-aeroporto?) a gente desembarca, faz a alfândega de entrada em HK, passa pelos controles de segurança, pega o trem e vai direto para a área de embarque. Por baixo e por dentro. Essa foi a razão pela qual, mesmo tendo embarcado num dia em que ocorreram manifestações diante do aeroporto, a gente não viu nada. Quem vinha de Hong Kong para o aeroporto teve mais dificuldade, com engarrafamentos e outros transtornos. Mas quem veio da China de barco só ficou sabendo das coisas quando espiou o noticiário. Ou seja, é tranquilo. ![Centro cultural de Shekou](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/shekou-artcenter-img_8490.jpg) O Centro Cultural de Shekou, um dos bairros mais novos de Shenzhen, tem museus, espaços para exposições, para cursos e lojas que vendem objetos de arte --- ### EM TEMPO Encontrei numa IstoÉ antiga (de setembro de 2004) um bom resumo dessa transformação de nomes em chinês para o alfabeto ocidental. É um texto do Cláudio Camargo que transcrevo: > *"No caso da China, Pequim virou Beijing depois que o governo, há cerca de duas décadas, unificou as transliterações do chinês através do sistema Pinyin, que regula as transcrições fonéticas da língua chinesa para o alfabeto romano. Assim, para desespero de quem já passou dos 30, Cantão agora se escreve Guangzhou; Nanquim é Nanjing e Hong Kong grafa-se Xianggang. Nem os líderes do panteão chinês escaparam: o nome do “grande timoneiro” Mao Tsé-tung hoje soa como um mero Mao Zedong."* ### A CHINA QUE EU VI / 1 URL: https://cesarvalente.com/a-china-que-eu-vi-1/ Last updated: 2026-07-05T08:14:15.000Z Neste e em alguns outros posts, vou contar um pouco do que consegui anotar, nos 31 dias que passei na China (em 2019), mais precisamente em Shenzhen, na província que antigamente era conhecida como Cantão (agora Guangdong), ao lado de Hong Kong. . Shenzhen é uma metrópole recente. Como tantas outras na China, foi construída em menos de 40 anos. O fenômeno do crescimento do país foi muito bem resumido numa matéria recente (recente em 2019), publicada pela **BBC Brasil** [(clique aqui para ler)](https://www.bbc.com/portuguese/internacional-49877017?ref=cesarvalente.com), a propósito dos 70 anos da revolução comunista (do Mao Zedong, que no nosso tempo se chamava Mao Tse-Tung). A política de reforma e abertura, implementada por Deng Xiaoping a partir de 1978, mudou completamente a China. E a cidade onde fiquei é celebrada como um dos resultados positivos mais espetaculares dessa política. A província de Guangdong é a mais populosa da China e comporta uma das maiores aglomerações urbanas do planeta. Ali vivem mais de 104 milhões de habitantes (censo de 2010). > *"Sob a ideia de um "socialismo com traços chineses", Xiaoping rompeu com o status quo e implementou uma série de reformas econômicas, centradas na agricultura, num ambiente liberal para o setor privado, na modernização da indústria e na abertura da China para o comércio exterior."* > > [70 Anos da Revolução Comunista na China: como país pobre e rural se tornou potência mundial em 4 décadas (BBC Brasil)](https://www.bbc.com/portuguese/internacional-49877017?ref=cesarvalente.com) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/yuan-img_9316-heic_.jpg) Estátua de Yuan Geng, diante do centro cultural de Shekou, em Shenzhen ### "TEMPO É DINHEIRO, EFICIÊNCIA É VIDA" Essa frase, que se lê em vários locais e está num enorme cartaz, na confluência de vias importantes de Shenzhen (é o que mostra a foto em destaque, no alto deste post), É atribuída a Yuan Geng, um dos personagens centrais dessa aventura de crescimento e abertura em que a China se lançou. Yuan mereceria um capítulo inteiro. Nasceu em Shenzhen em 1917, cursou academia militar, entrou para o Partido Comunista em 1939, participou da guerrilha anti-japonesa e depois da criação da República Popular da China (1949), foi consultor de Ho Chi Minh, presidente do Vietnam, para informação e artilharia. Depois de ocupar cargos de relevo no governo chinês, foi vice presidente executivo da China Merchants, um dos mais poderosos grupos econômicos do país. Em 1979 Yuan criou o protótipo das zonas econômicas especiais da China, em Shekou, um bairro de Shenzhen. E desde então Shekou é aclamado como "o líder da reforma e abertura da China". Aos pés da sua estátua, o texto gravado na pedra diz, entre outras coisas, o seguinte: ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/timeismoney-img_9152-heic_.jpg) "Time is money, efficiency is life", o mote da nova China. > "Em Shekou, Yuan Geng defendeu e praticou um novo conceito de eficiência e trabalho duro, divulgando o lema "tempo é dinheiro, eficiência é vida", que era saudado como "o primeiro estalo do trovão de primavera que rompe com a prisão do pensamento". Este conceito é um dos símbolos da economia de mercado socialista com características chinesas". Yuan também dizia que "conversa fiada prejudica o país, trabalho duro revitaliza a nação". Incansável, foi o criador de vários empreendimentos que hoje têm dimensão internacional, como o China Merchants Bank, e responsável pelo crescimento global do grupo China Merchants. Ele faleceu em 2016, aos 99 anos. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/museu-fachada-img_9431-heic_.jpg) Fachada do museu de Shenzhen. Entrada gratuita e sempre com muita gente. ### O MUSEU E A PROPAGANDA Não se trata da propaganda publicitária, mas da propaganda propriamente dita, a difusão de informação política. Os chineses, pelo jeito, não se descuidam um só instante dessa tarefa: contar como chegaram até aqui, por que chegaram e quem os trouxe, com que objetivo. O Museu de Shenzhen, um dos maiores do país, não tem, é claro, apenas propaganda e é um bom museu, mesmo do ponto de vista da museologia ocidental. Algumas coisas me chamaram a atenção. Primeiro, a ala reservada ao Deng Xiaoping, o grande artífice da "reforma e abertura" que impulsionou a China e a transformou na potência econômica e política que é hoje. Ele visitou Shenzhen em 1984 e 1992. Aí, numa sala, vê-se uma cama de hotel, com todos os apetrechos de um quarto de hotel e a informação: Deng Xiaoping dormiu nessa cama. Ao lado, um escritório, provavelmente no mesmo quarto de hotel: Deng trabalhou nessa mesa, enquanto esteve em Shenzhen. Adiante, o carro em que Xiaoping visitou a cidade e que, conforme tradição chinesa, tem um teto solar. com microfones, de onde o mandatário discursa, sem precisar sair do carro. O presidente atual usou carro semelhante hoje (setembro de 2019), nas festividades do aniversário da RPC. E, ao lado do carro, no museu, uma escultura, em tamanho natural (ele era bem baixinho) do próprio Deng. Os visitantes fazem selfies e tiram fotos diante do grande cara. Num canto, uma pá e um baldinho. Claro, utilizados por Deng Xiaoping em sua visita de 1992, quando plantou uma árvore no jardim botânico. Uma estátua mostra como ele fez, para segurar a pá e cavar o buraquinho. As fotos estão abaixo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/deng2-img_9474-heic_.jpg) Ele dormiu aqui. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/deng1-img_9480-heic_.jpg) Ele e o carro com microfones no teto. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/deng3-img_9487-heic_.jpg) Imagino que o baldinho tenha sido usado para colocar água na muda recém-plantada... --- ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/comite-pc-img_9665-heic_.jpg) Um dos primeiros comitês do PC, em Shenzhen. A história da região está bem contada, desde os achados arqueológicos, os primeiros habitantes, as migrações, as lutas contra o invasor português, contra os japoneses. E também, naturalmente, o registro do nascimento e crescimento do Partido Comunista. Dioramas com esculturas feitas com grande fidelidade, mostram reuniões, assembleias e os principais personagens da estruturação do Partido que há 70 anos dirige o país. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/apto-img_9530-heic_.jpg) Mobiliário de um apartamento modesto, para marcar o "antes". Numa das alas é possível ver como era a vida, antes da chegada do progresso. Shenzhen era uma pequena vila, de pouco mais de 30 mil habitantes, Shekou era um povoado de pescadores. Os costumes e as informações históricas dessa época estão lá. E achei interessante a sala de um apartamento comum, que segundo a legenda pertencia a "um intelectual", que foi doada ao museu e remontada, para mostrar como eram as condições de vida urbana nos primeiros tempos da reforma e abertura, ou seja, mais ou menos há uns 30 anos. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/livrinhos-img_9535-heic_.jpg) Material de estudo político. Numa estante em que estavam vários exemplares de livros escritos pelo "Grande Timoneiro", Mao Zedong, os tais "livrinhos vermelhos", a legenda em inglês me deixou meio intrigado: "material para estudo político dos fazendeiros de ostras (aquicultores)". Achei que algo poderia ter se perdido na tradução, porque nos livros não há nada sobre ostreicultura. Mas logo caiu a ficha: na baía de Shenzhen, até hoje, se criam ostras e há atividade pesqueira e os livrinhos do camarada Mao ajudavam a fazer a cabeça do pessoal para a construção e manutenção da grande base de apoio às decisões do PC. ### "EFICIÊNCIA É VIDA" No museu achei uma foto que ajuda a entender como foi radical a mudança dessa parte da cidade (Shekou). Na foto antiga (antiga para os padrões chineses, deve ter 30 anos ou menos) vemos o Minghua, navio de construção francesa, batizado em 1962 pelo General De Gaulle. Fazia as rotas do Atlântico, entre Europa, África e Canárias. Em 1973 foi comprado pela China, Durante dez anos navegou entre a China e o leste da África. Até que, em 1983, foi ancorado em Shenzhen como um hotel turístico de luxo, parte do complexo chamado de Sea World, em Shekou. Tinha 253 quartos. Na foto antiga, vemos que o campo de golfe, construído sobre um aterro, acabou deixando o navio encalhado. E em 1998 o hotel flutuante encalhado chegou a fechar. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/navio2-img_9511-heic_.jpg) O Minghua preso na terra. A fundo a baía de Shenzhen. Por volta de 1990. De lá pra cá, muita terra foi colocada sobre o mar. Depois de um tempo meio abandonado, o Minghua recebeu, de 2001 a 2004, uma reforma de 70 milhões de yuans (cerca de 40 milhões de reais) e voltou a ser hotel, com vários restaurantes e bares. Seu entorno foi modificado, transformando-se numa grande área de lazer, com estação de metrô. Junto ao barco foi feito um lago, com chafarizes, com shows notunos de "águas dançantes". A foto nova foi feita por mim do terraço do hotel Hilton. Pelo ângulo, dá pra ver que o hotel foi construído onde, na foto antiga, havia apenas mar. Localizaram-se? Pois então, essas construções da foto nova têm menos de 20 anos. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/navio1-img_9074-heic_.jpg) Acharam o Minghua nesta foto? Está à esquerda. Foto de agosto de 2019. Não é à toa que, no museu, tem alas homenageando os trabalhadores da construção civil. Constroem rápido, realizam projetos muito grandes e completos: enquanto constroem os prédios, constroem linhas de metrô, fazem a urbanização, plantam árvores (pelo tamanho, devem ter sido transplantadas grandinhas, não daria tempo para crescer tanto). ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/operarios-img_9502-heic_.jpg) A história dos operários da construção também está contada no museu. https://vimeo.com/363673307O trabalhador, com uma britadeira, parece soldado numa guerra. E as trabalhadoras estão presentes. É isso, por hoje. É tanta coisa que acabo sempre me estendendo mais do que deveria. Espero que tenham gostado, porque daqui a alguns dias terá mais um capítulo. Tentarei não cair na tentação de ficar só falando nisso. Até. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/minghua-img_8455-heic_.jpg) Taí o Minghua, E eu passeando com dois dos netos. Ali no fundo tem uma churrascaria brasileira. ### A China que eu vi / 2 URL: https://cesarvalente.com/a-china-que-eu-vi-2/ Last updated: 2026-07-05T08:14:30.000Z Sim, eu estava na China, mas na parte da China construída para tornar mais fácil e atraente a vida dos estrangeiros. É impossível explicar Shenzhen (sul da China, fronteira com Hong Kong) sem falar um pouco da história recente, que levou aquela região a ser o que é. Um lugar que em 40 anos passou de 30 mil habitantes para cerca de 13 milhões, recebeu multidões de fora. De outras regiões da China e do exterior. Em Shenzhen é muito difícil encontrar quem tenha nascido lá. Há 40 anos, o governo chinês (Deng Xiaoping à frente) resolveu enfrentar o problema da fuga para Hong Kong criando, do lado de cá da fronteira, uma coisa parecida com uma metrópole cosmopolita e moderna, que fizesse os chineses pensarem duas vezes antes de emigrar. Sim, também reforçou o controle das fronteiras. Mas não só. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/distritos-shenzhen.jpg) Os distritos da cidade e o bairro onde passei um mês, em 2019. Em 1980 foi no bairro Shekou, no distrito Nanshan, dentro de Shenzhen, que o governo criou a primeira Zona Econômica Especial. E começaram a desenvolver condições para atrair empresas multinacionais e grandes empresas chinesas. Bairros residenciais, centros comerciais, áreas de lazer, escolas internacionais, infraestrutura (portos, aeroportos, rodovias, ferrovias) para baratear a logística, universidades e incubadoras. Enfim, fizeram, com competência, o dever de casa para criar um ambiente atrativo. Assim, quando cheguei ali, em julho de 2019, para visitar os netos, a filha e o genro, encontrei um lugar que, fora o idioma e seus caracteres estranhos, pouca coisa tinha de diferente do que encontrara poucos dias antes, ao passar por Paris, ou mesmo ao circular por Florianópolis, no Brasil. Mas tudo muito organizado e limpinho. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/shekou-sereia-img_8538.jpg) O "Sea World" e Shekou, vistos do terraço do centro cultural. Agora, cá pra nós, acho que exageraram um pouco. Quer um exemplo trivial? Gosto de comprar camisetas com estampas locais. Não consegui achar uma camiseta com uma bonita ilustração que não tivesse palavras em inglês. As raríssimas que tinham caracteres chineses, eram feiosas ou com logotipo de empresa "ocidental" (digamos, pepsi) e o nome em chinês. Shekou quer dizer "a boca da cobra", Porque fica na "boca" (na foz) do rio Pérola, que deságua no mar do sul da China. É basicamente um bairro residencial, com grandes áreas desenvolvidas sobre aterros feitos na baía de Shenzhen. Sua principal área de lazer e consumo é chamada Sea World (mundo marítimo), acredito, até com uma certa ironia. Sabe aquela história, que se conta em Florianópolis, de que "antigamente o mar vinha até aqui e dali pra cima era tudo mato"? Posentão, em Shekou dá pra contar a mesma coisa. E levaram isso ao pé da letra. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sw-letreiro-img_9147.jpg) O mar vinha até aqui... Um parque, no Sea World, marca até onde vinha, há poucas décadas, o mar. Os sobrados que ficavam à beira mar, na praia, ainda estão lá. À frente deles, um parque gramado. E, num local, uma "ilha" de areia, para lembrar que o mar vinha até ali. Tem até uma placa marcando o nível do mar. E hoje, para chegar até o mar, é preciso passar por prédios de apartamento, pelo banco China Merchants, atravessar uma avenida e passar todo o centro Cultural de Shekou. E, no mar, não tem praia, é uma marina. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sea-level-img_9293-heic_.jpg) Letreiro pra marcar o nível do mar. Quando aqui ainda tinha mar. Mais ou menos como aquela "maquete" do Miramar, em Florianópolis. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sea-level2-img_8440-heic_.jpg) Aí era a praia. À esquerda, o aterro. O prédio de apartamentos foi construído onde há pouco tempo era o mar. Num outro capítulo vou comentar essa história de praia ou não praia e a relação que os chineses (as chinesas, principalmente), têm com o sol. E por que suspeito que a falta de praia não seja um grande problema para elas. Bom, mas voltando ao assunto de hoje: no comércio de Shenzhen se encontra todo tipo de produto. As principais marcas mundiais estão lá. Claro, com embalagens e rótulos, na maioria dos casos, em chinês. Mas são aqueles produtos que os estrangeiros se acostumaram a encontrar mundo afora. E tem os importados. Todos. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/lays-img_0311.jpg) Batatinha frita sabor "lula grelhada". Achei fofo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/ole1.jpg) O supermercado "boutique", em foto de divulgação, porque esqueci de fotografar. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/icecream-img_8900.jpg) Sorvete com sal marinho. Uma espécie de modinha mundial. Que também tem no Sea World. Claro. Toda essa oferta de importados, claro, tem um preço. Uma das redes de supermercados desenvolveu um ramo especialmente para atender os gostos dos "expatriados" (trabalhadores estrangeiros que vivem ali, com suas famílias): o Olé é um, como direi, "mercado boutique" (pra fugir do desgastado "gourmet"). E seus preços são visivelmente mais altos do que outros mercados. Mas é conveniente, próximo, fácil de chegar. Eu ia a pé, fazer as comprinhas de última hora. Sem querer assustar ninguém, preciso contar que Shenzhen tem o terceiro custo de vida mais caro da China. Só "perde" para Beijing (Pequim) e Shanghai. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/galinha-img_8728.jpg) Os pés das galinhas, ao que parece, são muito importantes. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/chas-img_9299.jpg) Flores, raízes, folhas para fazer chá. Tem de um tudo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pesticidas-img_9303.jpg) O painel que indica se os agrotóxicos encontrados nos vegetais estão dentro das normas do governo. Na tabela tem o nome do produto e do produtor, com o resultado da análise, que é feita periodicamente. Redes como o Walmart também estão em Shezhen. São grandes supermercados como aqueles que encontramos nos Estados Unidos, no Brasil, na Europa. Poucas diferenças. A oferta de galinhas inteiras, abatidas há pouco, com pés e cabeça, por exemplo. Ou os brotos de flores, nos balcões de chás. O botão de rosa produz um chá muito apreciado. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/arroz-img_0214.jpg) Arroz e mais arroz, em sacas ou saquinhos. Difícil é encontrar um que não fique papa... Não poderiam faltar, claro, o que em algumas regiões do Brasil chamam de "atacarejos" (como o Fort, em Santa Catarina). Também sem grandes diferenças. Exceto, naturalmente, o enorme espaço reservado ao arroz, vendido até em sacas de 60 quilos e em todas as espécies e tipos imagináveis. E as gôndolas igualmente imensas com todos os tipos e embalagens de óleo para cozinhar. É mais fácil achar galões e embalagens enormes, do que os nossos raquíticos litrinhos. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/oleo-img_0220.jpg) Milho, girassol, oliva, soja... latão, latinha, garrafão, garrafinha... Na área de pescados dos supermercados chamam a atenção os aquários com os animais vivos. Não é uma exclusividade chinesa, mas surpreende brasileiros como eu, que embora prefiram peixes que não tenham sido congelados, não encontra, nos mercados daqui, o peixe (ou o crustáceo) vivo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/lagosta-img_9704.jpg) Lagostas vivas. O preço é de cerca de R$ 56 o quilo. Comprar o bicho vivo é fácil: pega a redinha, "pesca" o que quiser, na quantidade que quiser, coloca na sacola, pesa, paga e vai embora. O grande problema (pra mim, pelo menos), é o que vem depois. Matar e limpar pode ser tranquilo para quem fez isso a vida inteira (e usa todas as partes, como cabeça, rabo, patas, ovas, miúdos, etc). Eu passo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/ikea-img_9184.jpg) Lá dentro tem lanchonete com as famosas almôndegas suecas. Como em qualquer loja Ikea ao redor do mundo. Na primeira vez a gente fica meio supreso de ver tantas marcas conhecidas. A sueca Ikea, também está lá. A Decathlon, está lá. Mas, se prestarmos atenção, muito do que esses comércios vendem é feito na China. Levaram para lá apenas sua expertise de oferecer os produtos, mas esses continuam sendo "locais". ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/decathlon-img_9185.jpg) O "comunismo" chinês e seus templos de consumo. Esse ambiente atraente para manufaturas industriais e empresas de todo tipo (hoje cerca de 50% do movimento econômico de Shezhen é do setor de serviços) faz com que todas as principais marcas de eletrônicos e produtos inovadores tenham sede ou filiais em Shenzhen. Pense numa marca, ela provavelmente tem, no mínimo, um escritório ali, para gerenciar a fabricação de algum produto numa das várias fábricas da região. A gigantesca Foxconn (taiwanesa que ficou famosa por fabricar o iPhone e outros produtos da Apple) tem uma "cidade Foxconn" em Shenzhen, no bairro Longhua, o "Science Technology Park". Ali estão 15 fábricas, onde trabalham cerca de 300 mil pessoas e uma estrutura completa de cidade, com canal próprio de TV, hospital, escolas, etc. Huawey, ZTE, Lenovo, Amazon, IBM, Dell, Philips, Apple, Xiaomi, Toshiba, Google, Sony, Olympus, Alcatel, Harrys, Oracle, Epson são algumas das marcas que têm fornecedores na região e participam, com variados níveis de envolvimento, dessa zona de desenvolvimento industrial. Viram? "Todo mundo" está em Shenzhen. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/latina-img_8591.jpg) Ao lado da bandeirinha brasileira está escrito, em inglês: "Bem vindo à Latina, bem vindo ao Brasil". E não é a única churrascaria do Sea World. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/paulaner-img_8572.jpg) Uma cervejaria alemã em Shekou. Legítima. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/calcadao-img_9285.jpg) Área de pedestres do Sea World, com calçadas imitando ondas. De manhã, vazio, porque nada, na cidade, abre ou começa a funcionar antes das 10 horas. É pra atender esse milhões de "expatriados" que o comércio local oferece tanta variedade. Para que se sintam em casa. Quando se trata de bares e restaurantes, então, a coisa não é diferente. Churrascaria "brasileira" (onde ninguém entende português) e restaurantes italianos, franceses, gregos, japoneses, coreanos e até chineses de outras regiões (Shenzhen, no Cantão, tem culinária cantonesa). E cervejarias alemãs legítimas, com cerveja produzida no local. E garçonetes chinesas vestidas como as garçonetes da Oktoberfest... de Munique. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pcc-img_8878.jpg) Numa das fachadas do centro cultural de Shekou, a foice e o martelo lembram que o partido comunista chinês dirige o país há 70 anos. Mas, se é fácil encontrar o que se procura para comprar, beber ou comer ([tem até sites especializados em indicar onde comprar importados](https://shenzhenshopper.com/531-grocery-shopping-in-shenzhen-where-to-buy-imported-foods.html?ref=cesarvalente.com)), não é tão fácil navegar na internet. Os firewall do governo bloqueiam o Google, o facebook, o whatsapp e as lojas de aplicativos. Uma saída, para estrangeiros, era habilitar um VPN (um truque que engana o firewall, dizendo que estás em outro país). Mas desde 2017 isso é ilegal. Mesmo assim, muita gente usa. Há alternativas chinesas para todos os aplicativos "ocidentais". Em vez de Uber, a gente chama o Didi, em vez do Google, tem o Baidu, em vez do Whatsapp, o WeChat e, para comprar online, PandaBoo substitui a Amazon. E entrega no dia seguinte. Se o Google Maps não funciona direito por lá, curiosamente o Apple Maps funciona razoavelmente (tem acordo com fornecedor chinês). Quem se hospeda no Hilton de Shekou tem internet de Hong Kong (que é igual à nossa, tudo liberado). Algumas empresas colocam, no acordo para se instalar na cidade, uma internet liberada. Mas o cidadão comum e os trabalhadores, nas suas residências, têm que conviver com esse controle (ou arriscar a fazer um gato VPN, porque lá, como cá, sempre tem quem dê um jeitinho, por uns trocados). Então tá. Voltaremos em breve, neste mesmo canal, com mais algumas anotações sobre a China que eu vi. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/cesar-isk-img_8602-heic_.jpg) "I love Shekou". Imitando o "I love New York". Brega por brega, taí um selfie. Até a próxima. PS: a foto grande, que abre o post, é de uma latinha de Coca Cola Zero. Achei bem interessante a forma como adaptaram o desenho inconfundível do logo para os caracteres chineses. Mesmo sem saber ler, a gente identifica a semelhança, pelos traços do acabamento. ### A China que eu vi / 3 URL: https://cesarvalente.com/a-china-que-eu-vi-3/ Last updated: 2026-07-05T08:14:45.000Z Hoje vou fazer uma mistureba, um trivial variado, com registros curtos de algumas coisas que me chamaram a atenção. ### COMO ASSIM? ANDAIMES DE BAMBU? Hong Kong é China, ainda que seja uma China diferente. E no centro de Hong Kong não conseguia tirar os olhos dos prédios que tinham andaimes, aquela proteção externa durante obras, porque não queria acreditar no que via: pareciam feitos com bambu. E não é que eram mesmo de bambu? ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/bambu-img_0070.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/bambu-img_0069.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/bambu-img_0072.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/bambu-img_0059.jpg) Fiz algumas fotos, rapidamente (fiquei só um dia na cidade), mas tem boas fotos (e informações importantes), por exemplo, no [Atlas Obscura](https://www.atlasobscura.com/articles/cocoons-hong-kong-bamboo-scaffolding?ref=cesarvalente.com), e no [South China Morning Post](https://www.scmp.com/news/hong-kong/article/1186476/why-hong-kong-last-frontier-bamboo-scaffolders?ref=cesarvalente.com). ### O NINHO DOS TESLA [**Tesla**](https://www.tesla.com/?ref=cesarvalente.com), vocês sabem, é marca famosa de carros elétricos. São relativamente caros, mas sonho de consumo de muita gente, no mundo todo. E em Shekou (Shenzhen), na área do centro financeiro, tem um estacionamento exclusivo para carros Tesla, com recarregadores. O estacionamento para as demais marcas é no subsolo. Pelo jeito os banqueiros e seus clientes riquinhos gostam muito dessa marca, porque o estacionamento tem sempre bastante carro. Ah, claro, em Shanghai terminaram de construir uma mega-fábrica Tesla, que deve produzir, pra começar, uns 250 mil carros elétricos por ano. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/tesla-img_9337.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/tesla-img_9232.jpg) ### O MEDO DO SOL As mulheres chinesas (e acho que de outros países orientais, também), fogem do sol. Uma das tradições mais arraigadas no imaginário popular é que uma pele pálida é sinal de virtude, de saúde, de beleza. Pele bronzeada, às vezes, é associada ao fato de ter que trabalhar ao ar livre, realizando atividades braçais. Por isso, num calor úmido de mais de 35 graus, não era difícil encontrar pessoas com mangas compridas, máscaras, chapéus de abas muito grandes e, sempre, com sombrinhas. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sol-img_9815.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sol-img_9905.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sol-img_9844.jpg) É mais raro, mas o medo do sol também faz com que homens se protejam. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sol-img_9902.jpg) No The New York Times tem uma reportagem (de 2012) bem interessante sobre as chinesas na praia, de máscara (umas balaclavas), para não pegar sol. [Clique aqui para ler e ver as fotos](https://www.nytimes.com/2012/08/04/world/asia/in-china-sun-protection-can-include-a-mask.html?ref=cesarvalente.com). Por essas e outras é que fiquei com a impressão de que terem substituído a bela prainha que existia em Shekou, há 3o anos, por um aterro urbanizado, não causou grande impacto. Ir à praia e pegar sol é um grande problema. ### A POLÍCIA TÁ DE OLHO Em Shenzhen existe uma sensação de segurança estranha, para quem é brasileiro (ou italiano, ou argentino, ou francês) e mesmo os índices de pequenos crimes (batedores de carteira, ladrões de bicicleta) são muito baixos. Uma das razões para isso, até onde consegui saber, são as centenas (milhares?) de câmeras, várias com reconhecimento facial, que a polícia espalhou pela cidade. É bem fácil encontrar esses postes com dois ou três tipos de câmera e iluminação noturna. E, em alguns locais mais movimentados tem postos de polícia abertos e, curiosamente, com policiais. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/policia-img_8479.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/policia-img_9052.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/police-img_9311.jpg) Na placa, está escrito "Polícia e cidadãos estão juntos para tomar medidas severas contra contrabando e atividades criminais. Quem der informações relevantes será recompensado". ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/policia-img_9111.jpg) Que tal? Caixa eletrônico na rua, funcionando 24h. ### CHAFARIZ RASINHO Num lugar de verões muito quentes, faz sentido instalar chafarizes e outros equipamentos com água, como elemento paisagístico e também para ajudar a reduzir um pouco a sensação de abafamento. Não é grande novidade, mas achei curioso que todos os chafarizes de Shekou não tivessem, como é comum aqui e em outros lugares, um tanque. Deem uma espiada nas fotos que vocês vão entender melhor. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/chafariz-img_9203.jpg) Com água, funcionando. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/chafariz-img_9338.jpg) Desligado, sem água, para manutenção. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/chafariz-img_9279.jpg) ### ÁRVORE ESQUISITA A cobertura de sinal de celular, na China, é espetacular. O problema é que tem um firewall que bloqueia o que o governo acha que deve bloquear. Numa das avenidas de Shenzhen a Lúcia chamou a atenção para umas árvores esquisitas, que pareciam artificiais. Olhando melhor dava pra ver que eram as antenas de telefonia, disfarçadas. Como estava no carro e não parei pra fotografar, as fotos ficaram bem ruins, mas dá pra ter uma ideia. A ideia de disfarçar as torres com árvores falsas é quase tão ruim quanto as minhas fotos. Mas não é exclusividade chinesa. [Nesta matéria da Vox tem fotos de alguns outros locais](https://www.vox.com/2015/4/19/8445213/cell-phone-towers-trees?ref=cesarvalente.com). ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/antena-img_0224.jpg) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/antena-img_0226.jpg) ### A FIM DE UM POMBINHO? Pra terminar. Num dos shoppings de Shekou, na praça ao ar livre do terceiro andar, uma mulher vendia saquinhos de comida para os pombos. Os pombos, treinados e trazidos por ela, eram bem amigáveis. E interesseiros. Subiam nos braços e ombros da gente, esperando encontrar, na mão, a comida. O saquinho custava 10 yuans (uns R$ 6,00). Quando os pombos voavam e se empoleiravam nos beirados próximos, a mulher tocava um apito e eles voltavam para o chão. Quando ela não estava por ali, não tinha pombos. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pombo-img_8932-heic_.jpg) Aí quando vi, numa das estações de metrô, esse cartaz com a propaganda de um [restaurante especializado em pombos](https://www.tripadvisor.co.uk/Restaurant%5FReview-g297415-d3466926-Reviews-Jin%5FHuang%5FTing-Shenzhen%5FGuangdong.html?ref=cesarvalente.com), fiquei dividido. Deve ser meio esquisito comer o bichinho com quem a gente brincou... ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pombo-img_9735.jpg) ### A Grande Reforma de 1972 URL: https://cesarvalente.com/a-grande-reforma-de-1972/ Last updated: 2026-07-05T08:14:58.000Z ## Mudanças tecnológicas no jornal catarinense O Estado --- ### Introdução Em 1972 o jornal *O Estado*, de Florianópolis reformulou radicalmente sua operação. Mudou de um sobrado acanhado para um galpão espaçoso, instalou novos sistemas de composição e impressão e ampliou o seu quadro de funcionários, em especial o número de jornalistas. E não só: passou a circular em todo o estado. Foram mudanças surpreendentes porque não houve alteração de propriedade e não havia qualquer planejamento empresarial prevendo uma “modernização” com essa extensão ou profundidade. Os principais editores faziam parte do jornal antes das mudanças e continuaram no “novo” jornal, o que demonstra que não ocorreu ali, como em tantos outros jornais, o tipo de reforma que acontece quando da posse de um novo quadro dirigente. Para conhecer em maior detalhe esses eventos, este trabalho propõe: fazer uma contextualização histórica evidenciando as principais mudanças ocorridas e destacar resultados, com reflexões preliminares acerca deles, apontando para questões de pesquisa futura na continuidade deste estudo. Após a necessária revisão bibliográfica, foram feitas entrevistas abertas com profissionais que acompanharam de perto esse período e uma análise documental, principalmente revisando a coleção de exemplares do jornal da época, para verificar e confirmar informações relevantes. "Conforme explica a própria designação, a análise documental compreende a identificação, a verificação e a apreciação de documentos para determinado fim” (MOREIRA, 2015, p. 271). No caso deste estudo, entendemos que esse seria o método mais adequado para atender a duas finalidades principais: a) visualizar a aparência do jornal antes e depois da mudança do processo de impressão, passo fundamental para identificar em que medida expressões como “mal impresso” ou “melhor impresso” são utilizadas com propriedade; b) buscar confirmação das datas e fatos referidos pelos entrevistados. A história, nos ensina Marialva Barbosa (2009, p. 24), “é sempre interpretação feita a partir de quem, do presente, olha o passado. A história é sempre narrativa, algo que foi narrado no passado e que agora podemos re-narrar”. E, como ela situa, “a categoria experiência aparece como central na definição de narrativa” (BARBOSA, 2004, p. 2). Vivi o processo que relato neste artigo, por ter atuado no jornal O Estado nesse período, primeiro como colaborador e depois como profissional contratado. Publiquei crônicas semanais entre 1970 e 1972 e depois, já no “novo jornal *O Estado*”, fui contratado como redator do Caderno 2, suplemento diário de cultura e variedades, de 1972 a 1973\. Entre outras funções exerci o cargo de editor geral de 1987 a 1989. > Nada começa hoje. A mesma lógica processual que governa a reflexão em torno das práticas comunicacionais governa também o olhar histórico. O momento atual é resultado de um jogo acumulativo dos processos que começaram muito antes de nós. > > (BARBOSA, 2012, p. 148) ### Contextualização histórica O jornal *O Estado*, de Florianópolis, SC, foi fundado em 1915\. Circulou como diário até maio de 2007 e semanário a partir daí até o fechamento, em dezembro de 2008\. Durante muito tempo foi o jornal de maior prestígio na capital. Na literatura encontramos várias citações sobre o período “áureo” do jornal: “É na década de 70 que o *mais antigo* registrará fase áurea, em termos de tiragem, circulação e prestígio em todo o estado” (PEREIRA, 1992, p. 119). ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-05-at-22-01-24.png) Até a década de 1960 o jornal atuava como portavoz de um partido político ou de uma corrente política. Seu proprietário a partir da década de 1940, Aderbal Ramos da Silva, era político influente, líder do Partido Social Democrata (PSD) e foi governador do estado (em 1947). Ele também era proprietário da rádio *Guarujá*, que seguia a linha do PSD. Até sua morte, em 1985, manteve uma rotina de acompanhamento do jornal, como relata seu biógrafo (e também colunista político e editorialista de *O Estado*) Luiz Henrique Tancredo: > Entre eles (os hábitos), incluía-se uma passagem diária, geralmente ao cair da tarde, pelo jornal *O Estado*. Gostava de conversar com a equipe dirigente e, em especial, com os colunistas políticos. Ia sempre em busca de novidades, mas muitas vezes ele é quem as levava. > > (TANCREDO, 2011, p. 377) A UDN (União Democrática Nacional), liderada pela família Bornhausen, também tinha o *seu jornal*: *A Gazeta*. Irineu Bornhausen foi governador do estado na década de 50 e embora não fosse acionista do jornal, era proprietário da emissora de rádio *do partido*, a rádio *Diário da Manhã*. O atrelamento partidário dos meios de comunicação era uma coisa antiga e incorporada à cultura local. Na década de 60 o jornal *O Estado* começou a afastar-se do papel de panfleto político de um partido, aparentemente em busca de um jornalismo *mais moderno*. Não só porque os partidos políticos foram extintos, por um dos atos institucionais da ditadura militar, mas principalmente pela chegada, à direção, de jovens bacharéis, na equipe montada pelo novo diretor do jornal, José Matusalém Comelli, genro do *Doutor Deba*, como era conhecido o proprietário, Aderbal Ramos da Silva. Alguns desses colaboradores eram muito talentosos, a ponto de se transformarem em nomes respeitados no jornalismo e nas letras. O ideal jornalístico que os motivava e orientava era o *Jornal do Brasil*, que então estava em seu auge de popularidade, depois de uma bem sucedida reforma gráfica. E, não por acaso, Marcílio Medeiros Filho, o editor-chefe de *O Estado* foi, por alguns anos, correspondente do *JB* em Santa Catarina. Mas as limitações técnicas tornavam a imitação muito difícil. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/1970-6-23.jpg) Edição de 23 de junho de 1970\. Títulos feitos com tipos móveis de metal, compostos manualmente, textos compostos "a quente", em linotipo e impresso em rotoplana. > Em meados dos anos 60, o Dr. Aderbal pediu-me para cuidar também do jornal. Ao longo do processo de interação em *O Estado* começamos a ensaiar mudanças, em sua sede alugada, na rua Conselheiro Mafra. As perspectivas aumentaram no início dos anos 70 com a construção de nova sede e o avanço tecnológico. A aquisição de um moderno sistema de composição e de um equipamento de *offset* deu o necessário *start* ao crescimento vertiginoso, com novos profissionais oriundos de outros estados e a aquisição de agências de notícias nacionais e internacionais. Meus compromissos com outras empresas obrigaram-me a constituir uma equipe de gestores altamente confiável. Em menos de seis anos, o jornal transformou-se em um dos mais importantes veículos do Sul do Brasil. > > (COMELLI, 2015, p.182) Ainda que os Ramos estivessem ativamente participando da Arena (o partido de suporte ao governo militar), a censura aos meios de comunicação também fez vítimas em *O Estado*. Moacir Pereira conta que *O Estado* “foi o jornal mais censurado em Santa Catarina”. Por motivos políticos os principais editores do jornal na década de 60 foram processados ou presos: Marcílio Medeiros Filho, Paulo da Costa Ramos e Sérgio da Costa Ramos (PEREIRA, 1992, p.4). Sérgio ficou preso em 1968 por vários meses porque escrevera uma crônica bem-humorada sobre a visita do general-presidente Artur da Costa e Silva a Florianópolis. Esse enfraquecimento do jornalismo atrelado a grupos politicos se dá não só porque o governo militar extinguiu os partidos políticos (e os Ramos e os Bornhausen reuniram-se na Arena, o partido governista, reduzindo temporariamente os atritos), mas porque a cidade e o estado começavam a viver um ambiente de renovação. Em todo caso, o jornal *O Estado* que o leitor recebia em casa ou comprava na banca, em 1970, era uma espécie de compêndio do que, em arte gráfica, se considera *mal impresso*. As fotos, em alguns casos, eram irreconhecíveis (donde a importância da legenda) e mesmo os textos tinham falhas no entintamento. A tinta ficava nas mãos do leitor com facilidade. E a composição em metal não permitia flexibilidade no desenho das páginas. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/4abril-1972.jpg) Edição de 4 de abril de 1972. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/gol.jpg) Como mostrar a bola, se a impressão é ruim? A saída foi fazer um círculo, no clichê, para ajudar o leitor a descobrir onde ela estava. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/salesale.jpg) A montagem das páginas com títulos e textos em metal não permitia muita flexibilidade e às vezes uma distração na colocação de títulos de matérias diferentes numa mesma linha produzia coisas estranhas. Nessa época, todos os jornais catarinenses eram produzidos de forma semelhante. Mas os jornais do *centro do país* que chegavam à cidade tinham melhores sistemas de impressão. A *Folha de S.Paulo* foi o primeiro jornal brasileiro a adquirir uma impressora *offset* rotativa de grande porte, usando-a a partir de 1968 (FREIRE, 2009, p. 7). O que o *Jornal de Santa Catarina* (*JSC*), publicado em Blumenau colocou nas bancas, em setembro de 1972, portanto, era um produto inovador, que superava a concorrência local já pela aparência e nitidez das fotos. > *Offset* produz uma imagem de melhor qualidade, porque consegue pontos muito menores e, portanto, com maior resolução do que na impressão tipográfica. As fotos, especialmente, ganham definição; os anunciantes, em particular, gostavam do *offset*. > > (GENESOVE, 1999, p. 3, tradução do autor) Enquanto em Blumenau se planejava a criação desse novo jornal, com circulação estadual, *O Estado* continuava no sobrado da rua Conselheiro Mafra onde funcionavam, no térreo, as oficinas e, no andar superior, a redação. Santa Catarina não tinha curso de Jornalismo (só criado em 1979) e repórteres e redatores normalmente tinham outro emprego para complementar a renda. Como Florianópolis é capital de estado, em geral o segundo emprego era em alguma repartição pública. O que era usado pelos concorrentes, como Flávio de Almeida Coelho, um dos fundadores do*Jornal de Santa Catarina* (*JSC*), para alfinetar uma provável falta de independência dos jornais da capital. > Era uma época que “Santa Catarina não tinha jornal independente”, destaca Flávio de Almeida Coelho. “Boa parte dos jornalistas não vivia do jornalismo, vivia de outros empregos, principalmente no Governo do Estado. Como então a imprensa podia ser independente?”, questiona o empresário. > > (FERNANDES, 2005, p. 59) A rotina diária de produção do jornal, até o dia 11 de maio de 1972, foi basicamente a mesma por décadas. Os textos, em boa parte, eram escritos a mão, nem sempre com caligrafias facilmente legíveis. As notícias nacionais mais importantes, recortadas dos jornais do Rio e São Paulo que chegavam via aérea. Ou anotadas dos noticiários de rádio. Os repórteres locais nem sempre conseguiam redigir satisfatoriamente seus relatos, donde a importância de contar com redatores que pudessem transformar aquelas informações num texto que fizesse sentido. O jornalista Sérgio da Costa Ramos (filho de Rubens de Arruda Ramos que dirigiu o jornal na década de 1950) contou, em artigo/crônica publicada no livro comemorativo do centenário de fundação do jornal (SARDÁ, MEDAGLIA, 2015, p. 409), um pouco do que viu e viveu: > Foi por esta época que, depois de tantas facetas pregadas pelo mau tempo, o jornal contratou o seu primeiro repórter “full-time”: Rodolfo Eduardo Sullivan, que além de míope dos dois olhos – usava um poderoso telescópio fundo de garrafa – não possuía exatamente o ágil perfil de um trepidante da notícia: pesava 150 quilos. Mas, surpresa: trazia no mínimo cinco boas matérias por dia, para satisfação do editor e pânico dos copidesques. Seus textos, rascunhos ricos em informação, eram redigidos num difuso discurso mais indireto do que o Hino Nacional ou a primeira estrofe do poema épico “Os Lusíadas”: > > – Traduz aí! – comandava o editor Marcílio Medeiros Filho aos redatores (Sérgio Lopes, Paulo e Sérgio da Costa Ramos, Raul Caldas Filho, Luiz Henrique Tancredo, Aldo Granjeiro, Laudelino Sardá), entre outros ‘voluntários’ incumbidos da penosa missão. > > (RAMOS, 2015, p. 409) O material, literalmente, era *baixado* para as oficinas (situadas no térreo) e entregue às mãos experientes dos linotipistas, exímios não apenas na operação daquela máquina que era uma verdadeira maravilha, pela engenhosidade e pela forma como resolvia o complicado problema tecnológico de criar linhas de texto fundindo na hora o metal, mas também em decifrar os garranchos dos textos manuscritos. Nem todos utilizavam as máquinas de escrever e nem todos tinham boa caligrafia. Enquanto as linotipos cuidavam de transformar os textos até corpo 12 em matrizes para a impressão, os títulos e demais textos maiores (corpo 14 em diante) eram compostos como no tempo de Gutemberg: caracter por caracter, catados manualmente nas caixas de tipos. Fotos e ilustrações precisavam passar por um processo fotoquímico para ganhar relevo numa chapa de metal (o clichê) e serem adicionados às páginas. A impressão era feita por uma máquina que Osmar Schlindwein chama de “a avó da rotativa *offset*”. Era da família das rotativas: usava bobinas de papel, para impressão contínua. Mas o sistema era tipográfico: a matriz recebia tinta e imprimia diretamente o papel. O desgaste das peças, nas décadas de uso, foram criando áreas em que a tinta ficava mais *fraca* e o resultado era um jornal cujos problemas de impressão eram bem visíveis a cada exemplar e a cada edição. Em 1970, quando comecei a colaborar com o caderno dominical de cultura, com crônicas semanais, *O Estado* já era o jornal de maior prestígio na capital, mas ainda era um pequeno jornal, mal impresso. > Minha primeira missão ao chegar à porta de *O Estado* era galgar uma íngreme escadaria de pagador de promessas. Nunca contei, mas eram mais de 30 degraus, único acesso à redação encarapitada no sobradão da Conselheiro Mafra, número 160\. Rangia ao peso dos compulsórios passageiros e ao ataque dos cupins contra os barrotes já semidevorados. A redação dispunha de quatro mesas e três máquinas de escrever, posto que a quarta era mais uma peça de museu do que um exemplar das outras Remington de guerra. > > (RAMOS, 2015, p. 408) Por isso, a decisão de modernizar-se fazia todo sentido: só seria possível concorrer com o *JSC* (ou mesmo manter sua posição de jornal de prestígio) se fosse possível imprimir mais exemplares, mais rapidamente e com melhor qualidade. > Corria o ano de 1972 e *O Estado*, principal jornal de Florianópolis, não passava de um modesto produto midiático sofrivelmente impresso e tocado por uma plêiade de jovens – nós – esforçados, porém amadores – (ou semi) – que procurávamos denodadamente elaborar uma edição na medida do possível aceitável pela sociedade florianopolitana. Que, diga-se, na verdade, nunca deixou de ser-lhe fiel. > > (MEDEIROS FILHO, 2021, p. 206) A transição de “um diário essencialmente político para outro de informação geral” foi notada pela pesquisadora Leani Budde (2013, p. 72), com a ressalva de que, embora o proselitismo político partidário não fosse mais o foco, “continuava atrelado aos interesses políticos e econômicos de seu proprietário”. ### O gatilho para a mudança Sediada em Blumenau, a *TV Coligadas* trouxe de Porto Alegre o jornalista (e professor na Famecos/PUC-RS) Nestor Fedrizzi para dirigir o departamento de jornalismo. Ele seria uma peça-chave na montagem das equipes que a seguir criariam o *Jornal de Santa Catarina* (*JSC*). A visão que Wilson de Freitas Melro, Caetano Deecke de Figueiredo e Flávio de Almeida Coelho, proprietários da *TV Coligadas* (única afiliada da *Rede Globo* em SC) tinham do cenário estadual era de que o jornal *O Estado* não era um concorrente a ser considerado: > Com o sucesso da *TV Coligadas*, nós concluímos que estava aberto o mercado da mídia impressa e que Santa Catarina precisava de um jornal profissional. Santa Catarina tinha o jornal *O Estado*, de Florianópolis, que era propriedade do ex-governador Aderbal Ramos da Silva, e estava sendo dirigido pelo genro dele, José Matusalém Comelli. Que era um jornal tipo chapa-branca, porque o Aderbal era um cacique político do PSD, depois da Arena. \[...\] Outra, os jornalistas, praticamente, no Estado, eram assessores de imprensa de algum órgão do Estado, então era um jornal absolutamente chapa-branca. Em Joinville tinha o jornal *A Notícia*, era a mesma coisa. Aqui, tinha o *A Nação*, que era do *Diários Associados*, também já estava pela boa, porque o *Diários Associados* já estava quebrando. \[...\] Então estava aí um campo aberto. > > (COELHO, 2009, p. 3) Para completar esse panorama, em 1970 o jornal de maior circulação em Santa Catarina era o *Correio do Povo*, editado em Porto Alegre, que destinava um reparte de cerca de 15 mil exemplares para assinantes de todo o estado (PEREIRA 1992, p. 68). Em 10 de dezembro de 1970 torna-se público o projeto do grupo que dirigia a *TV Coligadas*, para criação de um jornal de circulação estadual, impresso em *offset* em Blumenau. Fedrizzi, que tinha começado a montar uma rede estadual de correspondentes para a TV, preparou uma estrutura com foco na profissionalização. Ao atrair profissionais de Porto Alegre o jornal blumenauense dava uma contribuição importante para mudanças também no cenário dos recursos humanos. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/jscb.jpg) A equipe de jornalistas gaúchos, em Blumenau, para o lançamento do Jornal de Santa Catarina. Fedrizzi é o terceiro a partir da esquerda. Alguns deles depois iriam trabalhar em O Estado. > Uma equipe de 40 jornalistas deu comando à redação do *Jornal de Santa Catarina*, num montante de 200 funcionários. Cerca de 20 profissionais foram trazidos de Porto Alegre, \[…\]. Com eles, vieram técnicos em fotografia, fotógrafos, gráficos e operadores de rotativa. > > (WEISS e ALMEIDA, 2010, p. 4) Naturalmente a sucursal em Florianópolis, capital do estado, era a mais importante e merecedora das maiores atenções. > Fomos buscar o que havia de melhor em equipamento. Por exemplo, eu fui e comprei dos Estados Unidos um equipamento de telefoto, que ninguém tinha aqui. Então, a nossa sucursal de Florianópolis \[...\] fazia com que o fato que acontecia lá às 4h da tarde eu tivesse a foto aqui às 4h15min. Vinha mais ou menos como um fax. Então eu competia em Florianópolis com o jornal *O Estado* como se fosse um jornal local. > > (COELHO, 2009, p. 5) Tudo indica que o lançamento do jornal de Blumenau mexeu com os brios dos dirigentes de *O Estado*, que se lançaram numa corrida para recuperar o tempo perdido e também disputar o mercado estadual. Com a boa repercussão do lançamento do *JSC*, em setembro de 1971, ficou claro que a única opção seria modernizar-se. Não agir poderia significar o fim precoce do veículo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/jsc-inaugura-governador.jpg) Edição de 22 de setembro de 1971, primeiro número do JSC, registrando a inauguração ocorrida na ´véspera. ### A sorte como aliada Sem planejamento prévio (ainda que alguma mudança estivesse nos planos mais ou menos genéricos), sem que tivessem sido feitos os demorados trâmites de compra e importação de equipamentos o jornal *O Estado* conseguiu lançar sua edição *offset* em maio de 1972, com equipamentos novos, apenas oito meses depois da criação do *JSC*. Uma série de eventos fortuitos permitiu esse *milagre*. O primeiro deles: havia, já em portos brasileiros, desembaraçado da alfândega, um parque gráfico completo, importado por um empresário paranaense que pretendia fazer um jornal, mas desistira da empreitada e queria vendê-lo (VALENTE, 2005, p 74, [artigo transcrito aqui, nesse post antigo](https://cesarvalente.com/a-imprensa-na-grande-florianopolis/)). O paranaense, dono de cinemas, relacionava-se com o catarinense Jorge Daux, também dono de cinemas. Daux, ao saber da história, lembrou-se do amigo José Matusalém Comelli, diretor de *O Estado*. E fez a *ponte* entre os dois. Por isso foi possível, em menos de um ano, trazer para Florianópolis e instalar uma rotativa *offset* e o laboratório fotográfico para produção de fotolitos e chapas de impressão. O sistema de composição foi adquirido da IBM brasileira. Tratou-se de um evento marcante não só para a história da empresa, como para o jornalismo catarinense. > 1972 foi o início da transformação de *O Estado*, que ganha uma nova e ampla sede no alto da rua Felipe Schmidt, onde uma moderna impressora *offset* aposenta a velha e surrada rotoplana, enquanto as linotipos cedem espaço à composição a frio, cuja tecnologia constituía o primeiro passo ao sistema digital. O processo de modernização do jornal fortalece-se com a contratação de profissionais formados em jornalismo. > > (SARDÁ, 2015, p. 32) Essa *revolução* permitiu que o jornal, em pouco tempo, fosse considerado “o periódico mais importante do período em Santa Catarina” (BUDDE, 2013, p. 56). Garantidos os equipamentos principais, 1972 iniciou com o projeto do *novo O Estado* sendo tocado com grande velocidade. Afinal, se aproximava a melhor data para anunciar novidades: o aniversário do jornal, no dia 13 de maio. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/19marco-datilografos.jpg) Anúncio, em 19 de março de 1972, recrutando pessoal para o novo sistema de composição a frio. O pessoal técnico começou a ser recrutado em 19 de março de 1972, quando já circulava a informação de que haveria um *novo O Estado* a partir de maio. Para a composição (a frio, em máquinas IBM) foram chamados basicamente datilógrafos. Apareceram centenas de candidatos e o resultado da seleção (feita por instrutores da IBM) foi anunciado em 12 de abril. Não é demais lembrar que a nova operação já estava sendo divulgada e iniciaria em apenas um mês. Para operar os demais setores e a rotativa, a seleção não foi pública, mas por experiência em gráficas. Além do treinamento oferecido por técnicos dos fabricantes, o jornal fez acordo com jornais de Novo Hamburgo (Grupo NH) e de Caxias do Sul (O Pioneiro), no Rio Grande do Sul, para que o pessoal passasse lá alguns dias acompanhando a produção em sistemas semelhantes ao que estava sendo instalado em Florianópolis. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/anuncio-img_6133.jpg) Anúncio publicado em abril de 1972. Rogério Junkes, primeiro colocado na seleção de pessoal para a composição, chefiou a pré-impressão por muitos anos, em entrevista ao autor, em julho de 2022, conta que o início foi difícil: “começamos do zero, ninguém tinha experiência prévia naquilo que estavamos fazendo. Os instrutores ficaram um tempo, mas depois tivemos que nos virar sozinhos”. *Começar do zero* é imagem recorrente nos relatos, que a todo momento enfatizam as dificuldades enfrentadas na transição. A equipe que operava os equipamentos do “velho jornal”, na prática, ficou sem função no *novo jornal*. Mas não houve demissão em massa. Schlindwein, que era diretor à época, conta que o jornal se preocupou em acompanhar cada caso e encontrar, quando possível, recolocação no mercado. Foi o caso de alguns linotipistas, que passaram a atuar nas linotipos ainda em funcionamento na Imprensa Oficial do Estado e na Imprensa da Universidade Federal de Santa Catarina. Alguns funcionários foram para o *novo* jornal, mantendo o vínculo empregatício, mas sem qualquer função relacionada com a produção gráfica. O outro *lance de sorte*: boa parte dos jornalistas que Fedrizzi trouxe do RS para criar o *JSC*, não se adaptou a Blumenau e a seus costumes e planejava sair. Vários acabaram sendo contratados pelo *O Estado*, para reforçar a equipe local. Na redação, portanto, não houve necessidade de *começar do zero*. A equipe foi composta por jornalistas já atuavam no jornal, por outros que já moravam na cidade e tinham alguma ligação com o jornal (no meu caso era cronista, com colaborações semanais publicadas desde 1970) e os jornalistas do RS que fizeram parte da equipe que lançou o *JSC*. Estes complementaram o time e assumiram as principais editorias (geral, nacional, internacional e esportes). Não só tinham experiência em jornalismo, mas também em usar recursos como telex e teletipo e na rotina de produzir jornais diagramados. Além de ter vivido, há pouco tempo, a aventura de lançar um novo jornal. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/oe-capa-inaugura-governador.jpg) Edição de 14 de maio de 1972\. O governador, oito meses depois, volta a acionar uma rotativa off-set em Santa Catarina. Com ele, o proprietário do jornal, ex-governador Aderbal Ramos da Silva. Assim, em pouquíssimo tempo, aquele pequeno jornal mal impresso surgiu repaginado, bem impresso e com mais conteúdo. > O jornal deixara o *velho pardieiro* da Conselheiro Mafra, transferindo-se para o alto da Felipe Schmidt. Máquinas novas, impressora *offset* zero quilômetro, mobiliário renovado, tudo, enfim, era exatamente o oposto do que se via na antiga sede. Isto para não falar na maravilha tecnológica do telex, através do qual as notícias enviadas pelas agências chegavam fresquinhas numa fita picotada, que o aparelho se encarregava de transpor para o vocabulário do nosso idioma. Os olhos de todos nós que formavam a família do jornal brilhavam ao ver aquele deslumbramento que colocava em nossas mãos o noticiário sempre atualizado de todo o Brasil e do exterior. > > (TANCREDO, 2021, p.196) ### As etapas de produção Para facilitar a compreensão dos processos envolvidos, esquematizei as áreas relacionadas diretamente com a confecção do jornal impresso da seguinte maneira: a) **Redação**: o que hoje seria conhecido como produção de conteúdo. É o espaço onde se realiza o trabalho de repórteres, redatores, fotógrafos e ilustradores. Quando recebe as marcações adequadas indicando em que parte do jornal será utilizado, o material passa à etapa seguinte. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/oe-redaca-fschmidt.jpg) Sala de redação, em 1973, na nova sede, da rua Felipe Schmidt. Foto do arquivo do jornal, provavelmente de Orestes Araújo. b) **Pré-impressão**: textos e fotos são tratados e preparados em equipamentos e rotinas separadas até serem reunidos na montagem das páginas. O objetivo é obter uma matriz com a página pronta para imprimir. c) **Impressão**: como o nome diz, trata-se de colocar a matriz, com a página, em condições de ser montada numa impressora e realizar o processo de transferir textos e imagens para o papel. Os exemplares impressos e devidamente encadernados e embalados são então entregues à distribuição. d) **Distribuição**: o processo de fazer o jornal chegar ao leitor. Seja colocando em pontos de venda ou entregando no endereço dos assinantes. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-11-at-09-42-11.png) A circulação estadual adicionou novos desafios ao jornal: além de fazer com que os exemplares chegassem a todas as regiões, era necessário ter algumas sucursais que fornecessem noticiário local, para ampliar a cobertura. Em 1972, no jornal *O Estado*, ocorreram mudanças em todos essas etapas. Algumas, como veremos, mais radicais. Mas nenhum setor atuava, depois de 13 de maio, da mesma forma que antes. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-05-at-21-49-51.png) ### O novo jornal Com o sistema de impressão (e marca e modelo do equipamento) definido pelo acaso, restava a escolha do sistema de composição. O jornal adquiriu o conjunto da IBM MT72, composto basicamente por máquinas de escrever elétricas, que usavam esferas intercambiáveis para a impressão do texto no papel. O texto era gravado em fitas magnéticas em máquinas mais simples e essa fita era lida em uma máquina com recursos mais sofisticados, que imprimia o texto em papel. O senão era o fato de, a cada mudança de fonte ou estilo (bold, itálico, com serifa, sem serifa, etc) ser necessário trocar manualmente a esfera. Em comparação com as linotipos, contudo, era um avanço. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/1972-9-6.jpg) Edição de 6 de setembro de 1972\. Além dos novos sistemas de composição e impressão, a assinatura de agências de notícias internacionais permitia, por exemplo, manchetes como essa. Para os títulos, a escolha foi uma máquina Morisawa. Uma matriz com os caracteres da fonte era movimentada manualmente e as letras fotografadas uma a uma numa tira de papel fotográfico. Uma grande câmera de artes gráficas (ou de reprodução) era utilizada para copiar as fotos e ilustrações inserindo, se necessário, a retícula que permitiria a simulação dos tons contínuos nas fotos e ampliando ou reduzindo os originais conforme o planejamento de cada página. Os textos, os títulos e as fotos e ilustrações (tudo em papel, comum ou fotográfico) eram então montados na página usando um adesivo de parafina. E a página, pronta, voltava à câmara fotográfica para a geração do fotolito. Basicamente um *negativo* transparente da página, que seria utilizado para a sensibilização da chapa que seria colocada na impressora. Nada disso era feito dessa forma na sede da Conselheiro Mafra. > Na mudança do “hot metal” para a fotocomposição analógica \[…\] Novos conhecimentos sobre eletrônica e óptica eram necessários. Não apenas as habilidades genéricas de mecânica eram menos valiosas, mas o conhecimento específico das complexidades das máquinas que fundiam o metal também perdeu seu valor. > > (TRIPSAS, 1996, p. 96, tradução do autor) ### Considerações finais Mary Tripsas (1996) mede, de forma abrangente, o impacto da implantação do *offset* e da fotocomposição nos jornais. Apropriadamente, ela dá ao trabalho um título de impacto dramático: “Sobrevivendo a uma mudança tecnológica radical: um estudo empírico da indústria gráfica”. David Genesove (1999) detalhou, no artigo “A adoção das impressoras *offset* pelos jornais diários nos Estados Unidos”, como se deu esse movimento e o que levou, predominantemente, a empresa a tomar a decisão de investir num novo sistema. Mas, no jornal *O Estado* de Florianópolis, para os jornalistas, que usavam máquinas de escrever mecânicas para redigir suas matérias no sobrado da Conselheiro Mafra e continuaram usando máquinas de escrever mecânicas na *nova sede* da Felipe Schmidt não houve, nessa ocasião, uma *mudança tecnológica radical*. Não por acaso, em *O Estado* de maio de 1972 a maioria dos *sobreviventes*, que veio da antiga sede, era jornalista. Ainda que, nas bancas, por causa da *mudança tecnológica radical*, o jornal *O Estado* depois de 13 de maio de 1972 pareça muito diferente do mesmo jornal do início do mesmo ano, o núcleo dirigente do jornal, que define e decide sobre a política editorial, não mudou. O proprietário, os diretores, o editorialista, o editor-chefe e o responsável pela principal coluna política no *novo* jornal são os mesmos. O que levanta uma questão importante, a ser estudada: que reflexos tiveram as mudanças na qualidade do conteúdo editorial? O jornal anterior era *melhor* do que o impresso em *offset*? Pode-se supor, preliminarmente, que a decisão de contratar mais jornalistas, entre os quais profissionais com perfil diferente da equipe que já trabalhava ali, tenha provocado alguma mudança na linha editorial. De forma intencional ou acidental. Mas é relevante, para o jornalismo, entender melhor se e como as mudanças tecnológicas afetam o conteúdo. > O conceito de qualidade é problemático quando aplicado ao jornalismo porque é quase impossível relacionar quais elementos compõem o conceito. Como resultado, qualidade tende a ser definida não pela sua presença, mas pela sua falta e os observadores ficam na posição de dizer “não podemos definir a boa qualidade, mas nós reconhecemos a má qualidade quando a vemos”. > > (PICARD, 2000, p. 97, tradução do autor) Janara Nicoletti (2019), em sua tese “Reflexos da precarização do trabalho dos jornalistas sobre a qualidade da informação: proposta de um modelo de análise” relaciona o depauperamento das condições de trabalho à perda de qualidade jornalística. Talvez ali se encontrem ferramentas que permitam medir o movimento oposto: o reflexo na qualidade do produto quando ocorrem a melhoria das condições de trabalho e a ampliação do número de profissionais envolvidos. “Entende-se que precarização e queda da qualidade caminham lado a lado na indústria jornalística”, afirma Nicoletti (2019, p. 15). Nos meses que precederam a “Grande Reforma de 1972” uma equipe pequena, dependendo de equipamentos antigos que funcionavam mal, num ambiente de trabalho acanhado, é ameaçada pelo surgimento de um concorrente poderoso. E, em poucos meses a equipe de profissionais, ampliada com colegas mais experientes (ainda que jovens) trabalha em novo ambiente, certamente com outro ânimo, vê-se estimulada pela possibilidade de fazer frente, em condições semelhantes, à concorrência. Qual a qualidade do jornal resultante desse conjunto de fatores? Embora não tenha sido o objetivo deste artigo, buscar a relação entre essas novas condições de trabalho e a qualidade do produto oferecido aos leitores é uma sequência, de certa forma óbvia, dessa história. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/11jun72.jpg) Edição de 11 de junho de 1972\. A qualidade da impressão, sem dúvida, melhorou. Mas, e o conteúdo? ### Referências BARBOSA, M. C. O presente e o passado como processo comunicacional. **MATRIZes**, São Paulo, v. 5, n. 2, p. 145-155, 2012\. DOI: 10.11606/issn.1982-8160.v5i2p145-155\. Disponível em: [https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/38330](https://www.revistas.usp.br/matrizes/article/view/38330?ref=cesarvalente.com). Acesso em: 12 maio 2023. BARBOSA, M. C. Comunicação e história: presente e passado em atos narrativos. **Comunicação, mídia e consumo**, São Paulo, v. 6 n. 16, p. 11-27, Jul. 2009. BARBOSA, M. C. A narrativa, a experiência e o acontecimento fundador de novos regimes de visibilidade da TV brasileira. **Tempo**, Niterói, v. 9, n. 17, p. 1-20, Jul 2004, Disponível em: [https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=167017770008](https://www.redalyc.org/articulo.oa?id=167017770008&ref=cesarvalente.com). Acesso em: 12 maio 2023 BUDDE, L. **Jornadas impressas: *O Estado* e Florianópolis – 1985 a 2009**. 2013\. 294 p. Tese (Doutorado em Ciências Humanas) Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2013. COELHO, Flávio de Almeida, 2009\. In: WEISS, C.; ALMEIDA, A**. *Jornal de Santa Catarina*: da Ambição Nacional ao Foco no Vale do Itajaí.** Jornada de Iniciação Científica em Comunicação, XXXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Caxias do Sul, 2010. COMELLI, J. M. Liberdade à redação, essência para o exercício profissional. In: MEDAGLIA, M. **O menino que corria atrás das notícias**. Florianópolis, SC. Editora Insular, 2021\. COMELLI, J. M. *O Estado* me fez sorrir. In: SARDÁ, L.; MEDAGLIA, M. (orgs.) **Loucos e memoráveis anos: o centenário do jornal *O Estado* 1915-2015**. Palhoça: Ed. Unisul, 2015. FERNANDES, M. L. A mídia no Vale do Itajaí. In: BALDESSAR, M. J.; CHRISTOFOLETTI, R. (orgs.) **Jornalismo em perspectiva**. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2005. FREIRE, E. 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(orgs.) **Jornalismo em perspectiva.** Florianópolis, Ed. da UFSC, 2005. WEISS, C.; ALMEIDA, A. **Jornal de Santa Catarina* *: da Ambição Nacional ao Foco no Vale do Itajaí.** Jornada de Iniciação Científica em Comunicação, XXXIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Caxias do Sul, 2010. --- - *Trabalho apresentado no GT História da Mídia Impressa, do XIV Encontro Nacional de História da Mídia, da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (Alcar), em agosto de 2023, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, RJ.* ### Os desafios éticos de um jornal popular URL: https://cesarvalente.com/os-desafios-eticos-de-um-jornal-popular/ Last updated: 2026-07-05T08:15:11.000Z ### O caminho das pedras que o DIARINHO trilha pra não ficar atolado na lama do sensacionalismo Aqui se pretende contar, a partir do ponto de vista de quem esteve envolvido no processo, como um jornal regional, no Sul do Brasil, mudou sua orientação editorial ao longo dos anos, abandonando o sensacionalismo e a exploração gratuita dos dramas populares para adotar uma linha de respeito a padrões éticos. O Diarinho (Diário do Litoral), de Itajaí (estado de Santa Catarina, no sul do Brasil) existe há 44 anos e criou fama e angariou leitores, nos primeiros anos, por usar (e abusar) das manchetes escandalosas e do tratamento irreverente que dava às suas principais reportagens. Fundado em janeiro de 1979 por Dalmo Vieira, um advogado que se dizia indignado por sua cidade não ter um jornal diário, o Diarinho desde o início reunia as qualidades e os defeitos do que, de uma maneira geral, se chamou de “imprensa popular”. Segundo o resumo feito por Márcia Amaral (2006), “na imprensa popular um fato terá mais probabilidade de ser noticiado se: possuir capacidade de entretenimento, for próximo geográfica ou culturalmente do leitor, puder ser simplificado, puder ser narrado dramaticamente, tiver identificação dos personagens com os leitores (personalização) ou se for útil”. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-17-58-38.png) No Diarinho das primeiras duas décadas o uso do calão, do humor e da ironia temperavam o texto, que segundo afirmava o proprietário e fundador deveria se assemelhar a uma conversa na mesa do bar, onde amigos se reúnem para contar os casos (e as fofocas) do dia. Vieira criou o jornal porque quis, porque era seu sonho, relata Samara Toth Vieira, neta e atual diretora do jornal. E dedicou-se a encontrar uma fórmula que fizesse com que o leitor tivesse, folheando suas páginas, o mesmo prazer que ele encontrava fazendo o jornal. Não era, portanto, desses jornais criados para agradar os governantes e explorar as vaidades, vendendo espaço e reportagens. Era jornal, dizia Vieira, “para ser lido e apreciado, de preferência com gosto e ao som de boas risadas”. Ele queria um jornal local. Que contasse o resultado do jogo do Marcílio (o time de futebol da cidade), os acidentes mais próximos, as dificuldades da região. Vieira achava um absurdo que os itajaienses soubessem mais rápido e com mais detalhes do resultado do jogo do Flamengo, do Rio de Janeiro, do que de uma disputa no “estádio das avenidas”, na cidade. Mas essas informações locais tinham que ser publicadas numa linguagem acessível, que fosse entendida pelo povo: “irreverente, às vezes com pitadas de humor e outras vezes até ‘macriada’”, como ele mesmo definia. E, sobretudo, sem se importar se o que estava sendo dito, contado e mostrado agradava ou não aos poderosos do momento. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-01-27.png) Dalmo Vieira lutou, praticamente durante todo o tempo em que esteve à frente do jornal, contra o preconceito e a violência daqueles que não admitem a liberdade de imprensa. Exemplos de manchetes dessa época: “Pedreiro morreu baleado e negou-se a dizer quem atirou”; “Cigano estupra e deixa mulher pelada na 101”; “Corria peladão pela praia com um esporão de bagre espetado na bunda”; “Governo Pedro Ivo caga na cabeça do povo de Navegantes”. Sem surpresa, o jornal foi processado inúmeras vezes, o proprietário sofreu atentado a tiro (que danificou seu carro, mas não o atingiu), boicote econômico e acabou, em 1993, numa decisão incomum (para crimes de opinião), sendo preso. Fato que o jornal noticiou, com ironia, na capa: “Confundiram o Dalmo Vieira com o PC Farias”. PC Farias foi tesoureiro do deposto presidente Collor e que na época se encontrava foragido. Mesmo assim o jornal, aberto como poucos aos leitores, desenvolveu um tal nível de compromisso com a comunidade que a população às vezes leva suas queixas primeiro ao Diarinho. Como se o jornal fosse uma espécie de “auditor popular”. Transformou-se num jornal com enorme penetração popular. Em todas as classes econômicas. ### SOB NOVA DIREÇÃO A região onde circula o jornal, na foz do rio Itajaí-açu, tem hoje (2023) cerca de 700 mil habitantes e a sede do jornal é na cidade de Itajaí (um dos principais portos marítimos brasileiros). O Diarinho continua sendo o principal veículo de informação regional e embora a versão impressa ainda circule, o notíciário é distribuído prioritariamente em outras plataformas ([diarinho.net](https://diarinho.net/?ref=cesarvalente.com) é o endereço do portal) em texto, video e áudio. E na leitura desse material não se encontra mais aquilo que um dia caracterizou o jornal: fotos de cadáveres e pessoas feridas, envolvidos em crimes ou acidentes, manchetes escandalosas, palavrões ou gíria. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-17-55-43.png) A mudança, que ocorreu aos poucos, aparentemente não causou prejuízos ao prestígio do jornal. Segundo os dados fornecidos pelo jornal a agências de publicidade, a tiragem do jornal impresso está em 10 mil exemplares, o site de internet tem cerca de 2 milhões de visualizações, 180 mil seguidores no Facebook, 162 mil seguidores no Instagram, 16,7 mil seguidores no Twitter, comunidade de WhatsApp de 1.4 mil participantes, 7,2 mil seguidores no TikTok e 9 mil inscritos no canal do YouTube. Consegui identificar dois fatores principais, na história do jornal, para desencadear e definir os parâmetros dessa mudança. #### a) A sucessora Em 1994 o fundador e editor do jornal convidou sua neta Samara Toth Vieira, que estava se preparando para cursar Jornalismo da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) para trabalhar no jornal. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/dalmo-samara-1.jpg) Dalmo Vieira e a neta, Samara Toth Vieira > No início eu era simplesmente “estagiária da editoria de polícia” e telefonista. Atendia ligações, reclamações de leitores, ia à delegacia, fazia a ronda policial telefônica atrás de notícias no fim do dia. Nessa época o Diarinho tinha sede e redação em Balneário Camboriú. Eu trabalhava na sucursal de Itajaí. Escrevia os textos e mandava para a redação. No ano seguinte, meu avô achou melhor que eu fosse trabalhar na redação. Daí comecei a ajudar no processo de edição. > > Samara Toth Vieira, em entrevista ao autor, em março de 2023. Enquanto trabalhava graduou-se em jornalismo na Univali (1999), em 2002 fez especialização em Estudos de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina e em 2004, quando Dalmo morreu (durante um cruzeiro de férias na Espanha), assumiu a administração da empresa e a direção de redação. Quando iniciou o curso de Jornalismo, ela conta, o avô dizia que “finalmente teremos um jornalista profissional no Diarinho”. O jornal tinha então 17 anos de circulação e nunca tinha sido editado por jornalista de formação. Ele achava que, “para o jornal ter futuro, seria importante se modernizar e se profissionalizar”. Como o Diarinho era o jornal mais lido e mais conhecido da cidade, naturalmente acaba sendo comentado no curso de Jornalismo da Univali. > Os professores da Univali sempre faziam críticas à linha editorial do jornal, naquela época muito focado em notícias policiais e escândalos políticos. Eu levava essas críticas da academia ao meu avô. Ele tinha um temperamento explosivo e não era muito simpático às críticas. Uma vez disse que se colocasse os meus professores da universidade para gerir o jornal, certamente eles “faliriam” o negócio em um mês (risos). > > Samara Toth Vieira, em entrevista ao autor, em março de 2023. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-18-07.png) Aos poucos o avô foi transferindo, à neta, o trabalho diário de editar o jornal. Em 2004, quando morreu, já frequentava pouco a redação. Nessa época ela mantinha a linha editorial definida pelo avô. E era comum, por exemplo, que a foto principal da capa mostrasse alguém preso, ferido ou morto. Ela afirma que a partir da morte repentina do avô, começou a repensar o jornal. Além de ter formação e temperamento diferente do avô, a jovem (então com 27 anos), ficou responsável também pela administração da empresa proprietária do jornal. “Não tinha mais como eu fazer o Diarinho do Dalmo: aprendi na prática que só haveria progresso se houvesse uma redação profissional e uma gestão profissional do negócio”, afirma. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-19-41.png) Embora em 2006 o jornal ainda tivesse algumas das características principais de sensacionalismo (edição de 1º de junho, por exemplo, tem como manchete “Carioca é fuzilado com oito tiros” e a foto da pessoa morta, caída no chão e um segundo cadáver, no alto da página), a decisão de mudar a linha editorial estava sendo construída. > Como jornalista acredito que o jornal pode ser popular, pode ser crítico, combativo, pode ser útil e muito lido pela comunidade, mas não necessariamente fazendo só sensacionalismo. Há outras formas de fazer bom jornalismo. É o que eu aprendi na academia, é o que tenho aprendido na vida e na lida. Não me imagino mais trabalhando no Diarinho da década de 90\. Foi importante, foi potente, foi único, mas aquele Diarinho era de uma outra época, num outro contexto de mundo. > > Samara Toth Vieira, em entrevista ao autor, em março de 2023. As pautas, os textos, as manchetes e a escolha das fotos foi sendo modificada e Toth Vieira começou a formar o que ela chama de “uma nova redação do Diarinho”. #### b) O Código de Ética Em 2012 o jornal filiou-se à Associação Nacional dos Jornais (ANJ) que naquele ano, durante o 9º Congresso da entidade, lançou o Programa Permanente de Autorregulamentação. Samara Toth Vieira contratou-me, então, para organizar e redigir um Guia de Ética e Autorregulamentação Jornalística para o Diarinho, que atendesse às recomendações da ANJ e consolidasse o que, naquele momento, ela pensava para a linha editorial do jornal. O convite se deve ao fato de que, além de ter sido seu professor, quando de sua passagem pela UFSC, fui colunista de política estadual do jornal por quase uma década. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-24-54.png) O guia de 2012, publicado como livreto impresso entregue a todos os jornalistas e funcionários do Diarinho e em pdf na internet, com acesso aberto, informava, já no prefácio: > Este jornal, justamente por ser popular, preza o bom comportamento. Não o comportamento falsamente moralista dos hipócritas, mas o verdadeiramente respeitoso, da maioria dos cidadãos. Tal como as pessoas de bem, que por mais humildes que sejam esforçam-se por manter em dia o pagamento de suas prestações e procuram ensinar para os filhos o que de melhor sabem, o DIARINHO sempre quer fazer tudo certo. A ética, se a gente não quiser complicar, é coisa simples: trata-se de saber o que é bom e o que é ruim e escolher, em cada situação, o melhor, o mais adequado para honrar os valores cultivados pela comunidade em que vivemos. > > (VIEIRA, S.; VALENTE, C. 2012, p. 7) Dei ao Guia o título de “**O Caminho das Pedras**” e também no prefácio justificava essa escolha: “Este guia serve para ajudar os jornalistas do DIARINHO. Mostra o caminho das pedras, que permite ir adiante sem enfiar o pé na lama e ficar preso no lodo”. A linguagem com que o Guia foi escrito acompanhava a proposta do jornal, de manter um texto quase coloquial, sem grandes formalidades. E tinha uma função importante na reestruturação da linha editorial. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-33-51.png) A década que se seguiu ao lançamento do Guia de Ética foi repleta de crises e desafios, para os jornais impressos. A principal tarefa era completar a transição para o online, com a diversificação das plataformas onde a informação era distribuída. Ao contrário do que ocorria no impresso, em que existiam inúmeros modelos e “receitas” de funcionamento mundo afora, na internet era preciso, segundo a diretora, “reinventar-se diariamente, para continuar a ser uma fonte de informação relevante também no digital”. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-32-15.png) Em 2022 fui novamente contratado, desta vez para fazer uma edição revisada e atualizada do Guia de Ética do Diarinho. A proposta era adaptar o material à nova realidade, em que o jornal impresso não era mais a prioridade. E reforçar os conceitos fundamentais da linha editorial, para evitar que a equipe caia na tentação de caçar cliques usando os recursos fáceis do sensacionalismo. No início de 2023 foi publicada uma edição atualizada e ampliada do Guia mantendo, na essência, os mesmos princípios adotados na primeira edição, mas reforçando e tornando mais claras algumas recomendações, como a que veta o uso de imagens de pessoas feridas ou mortas. Segundo a diretora de redação, isso de “se espremer sai sangue” não serve mais para o Diarinho “há pelo menos duas décadas”. Outras mudanças e acréscimos no Guia foram provocadas pela substituição da rotina de criação prioritária da edição impressa pela de publicação online. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-38-45.png) ### O PROCESSO DE CRIAÇÃO A decisão da diretora de redação (e principal administradora da empresa jornalística), de filiar-se à Associação Nacional de Jornais (ANJ) e adotar seu programa de autorregulamentação certamente eliminou longas e penosas etapas de convencimento. O novo rumo à política editorial foi sendo amadurecido, ela afirma, no dia-a-dia da redação e a partir das discussões acadêmicas na graduação e na especialização. Quando entrou em contato para saber se eu aceitaria a tarefa de redigir o Guia, o fato de termos um relacionamento profissional de quase dez anos (como professor e aluna no início e depois como colunista e consultor editorial do jornal) permitiu que eu apresentasse um plano de trabalho adequado ao que ela esperava e com o nível de ousadia necessário a um jornal como o Diarinho. É possível esquematizar as etapas seguidas para a redação das duas edições do Guia de Ética e Autorregulamentação do jornal da seguinte forma: **a) Convencimento (decisão) da direção** O processo de dar-se conta da profundidade e da extensão das repercussões éticas do que o jornal publicava e da forma como publicava iniciou logo que Toth Vieira assumiu a direção da redação, após a morte do fundador e avô, em 2004\. Aos poucos, ela foi se distanciando do projeto original quanto à forma, mas mantendo, na essência, os valores do jornalismo local. Não tive, portanto, que debater com ela sobre a necessidade de organizar um manual de boas práticas. **b) Conhecimento das rotinas** Apesar de já conhecer o funcionamento da redação (principalmente por ter substituído a diretora na edição do jornal em algumas das suas férias), reexaminei os processos, para identificar prováveis pontos críticos que precisassem ser examinados ou citados com maior ênfase no Guia. E essa familiaridade com os procedimentos usuais foi fundamental para a agilidade e sucesso do projeto. **c) Diálogo com os diversos setores** Naturalmente, mesmo tratando-se de uma pequena redação de um pequeno jornal, foi importante conversar com o pessoal e ouvi-los/as sobre suas preocupações e aspirações antes de redigir o Guia. **d) Redação adequada à linguagem do veículo** O Diarinho era (e é) famoso pela linguagem que utiliza. Coloquial, fugindo um pouco da norma culta (às vezes fugindo muito, com uso do calão e da gíria, coisa comum até por volta de 2010). O Guia foi pensado e redigido para manter identidade com o padrão de linguagem do jornal. **e) Discussão e teste** Ao longo do processo de redação e construção do Guia foram feitas algumas reuniões e consultas sobre pontos específicos e sobre a estrutura em geral, para ouvir as críticas e sugestões. Como se trata de iniciativa da direção do jornal, a aprovação do texto final ficou a cargo da diretora. **f) Seminário de apresentação** Depois de pronto, o Guia foi apresentado à redação num seminário, onde pude chamar a atenção para as várias seções e destacar alguns itens que poderiam levar a uma mudança mais radical dos procedimentos usuais. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-40-52.png) ### Alicerces teóricos Assim que recebi a tarefa de preparar o Guia, lembrei-me do colega professor do curso de Jornalismo da UFSC, Francisco José Castilhos Karam, cuja atenção acadêmica sempre esteve voltada para os aspectos éticos da profissão. Utilizei, como base para estruturar o Guia do Diarinho, a lista de “escolhas, temas, dilemas” que ele apresenta no artigo “Ética, deontologia, formação e profissão: observações sobre o Jornalismo” (KARAM, 2004), cuja adaptação pode ser vista nos itens que compõem o capítulo “E agora, o que faço?”. > Isenção; Dize-me com quem andas; Notícia plantada; Informação e opinião; O “off” e o sigilo das fontes; Acordos e acertos; O repórter oculto; Privacidade e direito à informação; Parece, mas não é; A pressa e a perfeição; Autoria; Manipulação digital; Manipulação informativa; O inocente útil “esperto”; Gentilezas e favores; A fonte não é “colega” nem “amigão”; Consciência pessoal e profissional; Os limites do comercial; Casos especiais. > > Lista dos verbetes explicados nas páginas 9 a 17 do Guia Ali, para cada situação são explicados os procedimentos que o jornal considera mais adequados. Por exemplo: > **ISENÇÃO** > > OK, não tem como ser “isento”. Nem no jornalismo, nem na vida. A gente faz escolhas e toma partido desde que nasce e não é porque entra numa redação de jornal que vai se tornar um ser puro, distante das paixões humanas e capaz de manter distância de tudo e de todos. Mas é preciso ser honesto e claro nas escolhas que se faz. Ainda mais quando envolve uma função que (ainda) tem fé pública, como o jornalismo. Assim como ninguém espera que um juiz tome decisões em um processo em que esteja pessoalmente envolvido, espera-se que o jornalista seja capaz de relatar os fatos desapaixonadamente. Sem odiar e sem amar perdidamente algum dos lados. Nos casos de conflito de interesses, recomenda-se que a pauta seja assumida por outro profissional. > > (VIEIRA, VALENTE, 2023, P. 9) Escolhi também citar alguns parágrafos sobre ética retirados do livro “A Regra do Jogo: o jornalismo e a ética do marceneiro” do jornalista Cláudio Abramo (1988). Pareceram-me capazes de provocar entre jornalistas, fora do ambiente acadêmico, uma discussão inicial sobre o tema. > Onde entra a ética? O que o jornalista não deve fazer que o cidadão comum não deva fazer? O cidadão não pode trair a palavra dada, não pode abusar da confiança do outro, não pode mentir. No jornalismo, o limite entre o profissional como cidadão e como trabalhador é o mesmo que existe em qualquer outra profissão. É preciso ter opinião para poder fazer opções e olhar o mundo da maneira que escolhemos. Se nos eximimos disso, perdemos o senso crítico para julgar qualquer outra coisa. O jornalista não tem ética própria. Isso é um mito. A ética do jornalista é a ética do cidadão. O que é ruim para o cidadão é ruim para o jornalista. > > (ABRAMO, 1988, p. 109) Para tentar definir, em termos simples, o que é e para que serve a ética, também utilizei trechos de um texto escrito por Elton Simões (2012): > “Acho que todos nós temos esta voz que insiste em distinguir o que é certo do que é errado. Às vezes, estas vozes falam tão alto que a gente sente fisicamente sua presença. É aquela sensação de que tem algo fora de lugar. É aquilo que chamamos de consciência. A ética é a manifestação física desta voz interna. Ética, como disse o Jurista inglês John Moulton, é obedecer ao que não tem punição prevista em lei. > > (SIMÕES, 2012) ### CONSIDERAÇÕES FINAIS Ao longo desses anos em que a primeira edição do Guia esteve em uso foi possível observar que ele teve um papel importante para facilitar o processo de informação e treinamento dos novos jornalistas, uniformizando os conceitos e procedimentos, sem necessidade de longas preleções das chefias cada vez que um profissional ou uma profissional é contratado/a. O bom resultado dessa forma de reunir e compartilhar conhecimento foi que levou o jornal a fazer a nova edição, atualizada, do Guia. E, como complemento, na mesma ocasião foi elaborado e lançado um Manual do Diarinho, com explicações detalhadas e didáticas sobre vários dos procedimentos utilizados na publicação do jornal. Como, por exemplo, os passos necessários para chamadas nas redes sociais ou publicar reportagens no portal (diarinho.net). O Guia e o Manual constituem-se no principal material de informação sobre quais procedimentos são considerados adequados na produção do jornal. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-49-22.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-54-21.png) O conteúdo é produzido para as plataformas online. E os principais assuntos, no final do dia, são reunidos para compor a edição impressa que circula de manhã cedo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screenshot-2023-09-01-at-18-55-39.png) > O DIARINHO quer conquistar multidões e vender cada vez mais exemplares e acessos, mas acha que é possível, com talento, criatividade e muito trabalho, ter informações exclusivas, interessantes, “quentes”, sem pisar na bola e enfiar o pé na lama. Não queremos fazer jornalismo burocrático, careta, de gabinete, que agrade a todos os poderosos e dê sono no leitor. Mas também não queremos ofender, caluniar, mentir ou inventar. > > (VIEIRA, VALENTE, 2023, p. 25) [Cópia em pdf do "O Caminho das Pedras 2" pode ser obtida no site do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS). Para baixar, clique aqui.](https://objethos.files.wordpress.com/2023/02/o-caminho-das-pedras.pdf?ref=cesarvalente.com) ### REFERÊNCIAS: ABRAMO, Claudio. **A Regra do Jogo**. São Paulo, Companhia das Letras. 1988 AMARAL, M. F. **Imprensa popular: sinônimo de jornalismo popular?** Trabalho apresentado ao NP 01 – Jornalismo do XXIX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da – UnB – 6 a 9 de setembro de 2006 KARAM, F. Ética, deontologia, formação e profissão: observações sobre o Jornalismo. In **Estudos em Jornalismo e Mídia**, Vol. I, Nº 1, 2004. SIMÕES, E. **O GPS da vida**. Blog do Noblat, 30/04/2012\. Em http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2012/04/30/o-gps-da-vida-442708.asp. Acessado em 30 de abril de 2012. VIEIRA, S.; VALENTE, C. **O Caminho das Pedras 2**: Guia de ética, estilo e autorregulamentação jornalística. Diarinho, Itajaí, 2023\. Disponível em [https://objethos.files.wordpress.com/2023/02/o-caminho-das-pedras.pdf](https://objethos.files.wordpress.com/2023/02/o-caminho-das-pedras.pdf?ref=cesarvalente.com) VIEIRA, S.; VALENTE, C. **O Caminho das Pedras**: Guia de ética e autorregulamentação jornalística. Diarinho, Itajaí, 2012. --- - *Este artigo foi apresentado no VII Congresso Internacional de Ética da Comunicação (Media Ethics Conference) realizado em março de 2023, na Universidade de Sevilla, Espanha.* ### Uma linotipo ao cair da tarde URL: https://cesarvalente.com/uma-linotipo-ao-cair-da-tarde/ Last updated: 2026-07-05T08:15:12.000Z Sou um fã da linotipo. Uma máquina, é verdade, mas com alma de chumbo derretido. Seu charme irresistível vem, talvez, dos ruídos que suas várias partes móveis produzem, ou de sua engenharia impecável, que a fez dominar o mercado, insubstituível e impassível, por tantas décadas. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2021-11-05-at-10-24-41.png) Uma "oficina" tipográfica, com várias linotipos, no The New York Times do século passado Hoje é apenas uma peça de museu, um item valioso de coleções sofisticadas, razão de lágrimas furtivas de tipólatras saudosos. Neste trailer, uma amostra dessa máquina que muitos, da minha geração ou mais velhos, consideram como parte da família. Em Florianópolis, o jornal O Estado utilizou linotipos até o início de 1972\. Outros jornais de SC ainda usaram até a década de 80. https://vimeo.com/15032988Em inglês: não tem legenda, mas é cheio de figurinhas [“Linotype: The Film” Official Trailer](https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fvimeo.com%2F15032988%3Ffbclid%3DIwAR17kdOjswx54Bhflh1%5FwSngaeq7lhIcUr4ui6Sce%5FimMNgEoEjWpOd3Xok&h=AT3TVKJeyc3jUUgzEXHlVwXdUTMbPLku%5FZbZpp05H3x8Iwg4Ogoqqhn4g0-ZtoE9b8dJN63akSWKd26EINZbjRGjyBUIJ-tOxU9fmQCWo%5F3HOCc%5FVua9R6d2cQUxo13XQD7tyWpv6wm4xNzRGz5JEiOaADuQlmeY&ref=cesarvalente.com) from [Linotype: The Film](https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fvimeo.com%2Fuser4747369%3Ffbclid%3DIwAR1VVZqkMZ8p5oI7AHHXtrABA3jzdAJBmBkCCUPdh70GGjk3eO59KsVINp0&h=AT2HeMBDtnKgpLaEe6WBkfmHJ-JDtF-D%5Fhe91Rtv5ZUMzvg7MweaQQP4FrLu1FtudjByKIylBJQ83kYi3ZT1NvuxSWXdHQiXC95DZhiWZM42gv4uz8e1SZAjecAXyaOq2n7z3--qc-Qc0jI0G6evE7yn%5F6Ap9KOS&ref=cesarvalente.com) on [Vimeo](https://l.facebook.com/l.php?u=https%3A%2F%2Fvimeo.com%2F%3Ffbclid%3DIwAR1msrzU6U5Xj9lWDRxVzEx1Ly95dEGFeOe-GOi8yeYoHlZqqeQus1iupPM&h=AT1stXtuM2TtE2ZPI009ZhoGsc0ohGIaalR6ImcnEEAiX9vZBHz-x2GG4QAst4OkxeJCkowmdULb6DL5ezXBpGJnhgh%5FRmcT2LVEOVnvXAbhvFHHbRG-jVDy7EjunNRz2AG-upLeXfET5w7f6my7xe09GCUC1UsE&ref=cesarvalente.com). Para visitar o site do pessoal que fez esse filme, [clique aqui](https://linotypefilm.com/?ref=cesarvalente.com). E para aqueles e aquelas que nasceram ontem e nunca viram uma máquina como essa funcionando e para aqueles que viram mas já esqueceram, aí está [**"Uma breve introdução à Linotipia"**](https://medium.com/deadlines/uma-breve-introducao-a-linotipia-a06bdffdc215?ref=cesarvalente.com), post em português da Fernanda Yuukura. Pra encerrar, outro video com uma demonstração visual do funcionamento da linotipo. Novamente, com a narração em inglês. Mas imagino que, mesmo sem entender o que está sendo dito, será possível apreciar o funcionamento e a complexidade dessa máquina. ### Jornalista do serviço público, esse desconhecido URL: https://cesarvalente.com/o-que-faz-um-jornalista-do-servico-publico/ Last updated: 2026-07-05T08:15:14.000Z > Numa data qualquer, perdida num passado relativamente remoto, o governo do estado de Santa Catarina fez um grande encontro de jornalistas do serviço público em Lages. Metido que sou e ex-jornalista do serviço público que fui, mesmo sem ter sido convidado resolvi reunir duas ou três coisas que sei e que gostaria de dizer aos colegas e publiquei na época, como uma espécie de carta aberta. E republico agora porque acredito que os problemas continuem existindo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/press-2333329_1920.jpg) Taí o discurso que escrevi em 2011, para ler no tal congresso para o qual não fui convidado (imagino que, depois de ler, os organizadores devem ter ficado muito aliviados, com o acerto da decisão que tomaram): ### Caros colegas, jornalistas do serviço público: Em primeiro lugar, quero saudar vossa coragem em assumir uma das mais árduas tarefas do amplo espectro de atividades que um jornalista pode exercer. A assessoria de imprensa, nos diversos órgãos do governo é em geral mal compreendida pelos empregadores e pelos clientes e não raro o próprio profissional acaba sem saber direito qual o seu papel. Por isso, encontros como este são importantes, desde que permitam uma real troca de experiências e o esclarecimento de dúvidas técnicas, profissionais e políticas. Espero que a presença de um palestrante “motivacional” de renome não acabe sendo considerada, pelos organizadores, como o “ponto alto” do encontro e tomando espaço do que realmente vocês precisam, que é conversa séria e diálogo franco. A partir do estudo da comunicação institucional e da vivência em funções gratificadas nos governos federal e estadual, ouso relacionar algumas idéias que considero importante discutir, dentro do espírito de compartilhar as preocupações. ### 1\. Os riscos da militância O maior problema, dentro de qualquer governo, é justamente aquele motor que serviu para colocá-lo no poder: o ímpeto da militância, que contamina os processos administrativos, quando cabos eleitorais são premiados com funções de chefia. Diretores e gerentes, nas secretarias e empresas do governo, têm funções técnicas bem definidas. Mas, a cada novo governo, o pessoal chega com o entusiasmo de quem venceu uma batalha, tomando conta do butim como conquistadores espanhóis no novo mundo e fazendo, pelo caminho, vítimas entre os nativos incultos (os servidores efetivos que, por falar nisso vêem o mesmo filme a cada troca de comando). Na cegueira do militante travestido de servidor público, o “espaço” é político e ele está ali a serviço do partido, ou do grupo de seu padrinho. Nesse ambiente, é difícil conversar sobre cobertura noticiosa, estratégias de comunicação, aproximação com os veículos e geração de notícias. Não raro os veículos ganham carimbo de “contra” ou “a favor”, os profissionais são rotulados e tudo se resume a “prestigiar quem é nosso e tratar os outros a pão e água”. Comunicação interna, por exemplo, que é uma função importante em qualquer assessoria de imprensa, não é bem vista pelas chefias, porque “desvia” o assessor de sua “atividade principal”: plantar notinhas nas colunas, começar matérias citando o chefe e sempre enviar fotos do chefe para os jornais. Afinal, o objetivo míope desse pessoal é usar a função apenas como um trampolim eleitoral, sem dar muita bola para a necessidade de que o governo funcione bem, o que, naturalmente, facilitaria o “bom” noticiário. ### 2\. O confronto desigual Muitos políticos têm os jornalistas em péssima conta. Talvez porque, ao longo da carreira, tenham conhecido muitos picaretas, gente sem estofo que se vende por dois tostões, tendem a pensar que somos todos iguais. E embora tenham um comportamente um pouco mais condescendente com os “nossos” jornalistas (aqueles que eles empregam ou para quem conseguem funções de confiança), ouvem com mais atenção outros assessores. Esse desnível, que muitas vezes leva à exclusão do assessor de imprensa de reuniões importantes ou a desconsideração de suas opiniões, é mortal. Tanto na iniciativa privada quanto no serviço público, o assessor de imprensa não pode ficar num nível subalterno, conhecendo as decisões por terceiros, sem poder influir ou contribuir. Depois sofre pra divulgar um prato feito que foi servido com ingredientes indigestos ou mal cozidos, que poderia ter sido corrigido na fonte, se o jornalista estivesse presente no momento de sua elaboração. ### 3\. O fascínio do “jornalista celebridade” A assessoria de imprensa é uma função gerencial de largo espectro, que exige conhecimento técnico específico. Mas ao escolher seus assessores, muitos políticos não procuram qualificação profissional. Procuram “nome”. Nem sempre dão-se conta que o “nome” do profissional está indissoluvelmente ligado ao veículo que lhe dá visibilidade. E, os que percebem isso, tentam fazer a dobradinha imoral e aética, do duplo emprego, num veículo e no governo. Há ainda aqueles que misturam as frequencias e embaralham as idéias: acham que é sempre bom ter na assessoria um rostinho bonito, conhecido da TV. A profissional, se competente, acaba se sentindo mal com o tom das conversas de corredor. Se incompetente, nem nota e acha o máximo circular com “as autoridades”. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/press-conference-1166343_1920.jpg) ### 4\. Tem gente séria? Tem. Uma das poucas coisas que acho que aprendi, ao longo de mais de 30 anos de profissão, é que existe gente séria, competente e dedicada em todas as áreas de atuação. Nem sempre estão prestigiados, nem sempre ocupam cargos de destaque e nem sempre conseguem durar muito tempo, mas existem. E são eles que podem fazer com que uma máquina estatal ganhe velocidade e até, como seria o desejado, levante vôo, bem azeitada e eficiente. Da mesma forma, mesmo entre aqueles que são escolhidos para ocupar funções comissionadas, porque tiveram algum tipo de militância política, se encontra gente preocupada com o funcionamento da “máquina” em favor do eleitor/contribuinte. São mais inteligentes, vêem um pouco adiante da urna e sabem que nenhum projeto de poder consegue sobreviver apenas de factóides, promessas e conversa mole. É preciso ter resultados, poder comparar desempenhos. ### 5\. A notícia, essa desconhecida E é fundamental que o eleitor/contribuinte sinta os efeitos do que está mudando. As “boas notícias” têm que ser virais, devem ganhar as ruas por sua própria força, se espalhar nas conversas ao pé do ouvido, ganhar velocidade nas tais “redes sociais”, que podem ou não ter a intermediação da internet. Uma coisa assim poderosa só pode ser formatada numa assessoria de imprensa competente, a partir de uma matéria prima de qualidade. Se tem notícia de verdade, fica fácil fazer com que ela circule. O grande problema é que poucos sabem o que, de fato, é notícia. E mesmo que muitos assessores de imprensa reconheçam uma notícia boa de divulgar, esbarram na miopia militante ou na ignorância propriamente dita de chefias de olho fixo na urna. Como não vêem nada além disso e nunca estudaram muito, não desenvolveram uma saudável curiosidade sobre a amplitude da conjuntura econômica, social e política, e aí tendem a desqualificar a assessoria profissional. E a supervalorizar a assessoria bajulatória. ### Conclusão Essas foram algumas idéias alinhavadas meio às pressas hoje de manhã, que poderiam render muito mais. Mas acho que são suficientes para provocar algumas discussões e ajudar àqueles e àquelas que levam a profissão a sério, a identificar melhor os obstáculos e imaginar saídas. É por causa desse conjunto de fatores (e de outros que não listei) que disse, no início, que queria *“saudar vossa coragem, em assumir uma das mais árduas tarefas do amplo espectro de atividades que um jornalista pode exercer”*. E quando os chefes, incomodados com crítica, veneno ou maldade de alguma coluna de opinião ficarem enchendo o saco de vocês, lembrem-se que, de todos os problemas e complicações dessa função, espinafrar o colunista no telefone ou dar bronca nesse irresponsável no tuíter, é a atividade com menor risco e dificuldade. E até alguma chance de acabar sendo prazerosa. Boa sorte, bom encontro e boa semana. --- *Ilustração de Gerd Altmann e fotos fornecidas por* [*pixabay.com*](https://pixabay.com/?ref=cesarvalente.com) ### Mas no meu tempo... URL: https://cesarvalente.com/mas-no-meu-tempo/ Last updated: 2026-07-05T08:15:20.000Z > Tenho a impressão que essa mania que alguns dos velhos jornalistas têm, de falar que "no meu tempo era melhor", não resiste a um exame mais aprofundado. Quer ver? Comecei a trabalhar em jornal na década de 70 do século passado, com a ditadura militar brasileira em pleno vigor. Agora, que vivemos um tempo com tantas semelhanças (governo militar, desmonte das conquistas sociais, perseguição aos críticos do regime, tentativas de desmoralização do jornalismo...), talvez seja oportuno conversar um pouco sobre esse "mantra" que tantos usam, às vezes até sem querer. Era uma situação diferente. O esquema de financiamento do jornalismo funcionava razoavelmente bem. As empresas jornalísticas empregavam jornalistas (e não jornalistas), ofereciam local de trabalho e pagavam (quase sempre) em dia e mensalmente. Esse quadro mudou. O modelo de vender espaços de publicidade nos jornais, TVs e rádio para pagar o jornalismo entrou em crise. Assustados, os empresários recorreram à solução que conhecem melhor: "enxugar" as equipes. Hoje temos redações minúsculas, com gente sobrecarregada e em muitas delas gente trabalhando remotamente. Praticamente nada do que conhecíamos ou vivemos em termos de ambiente de trabalho, se mantém igual. Claro, os proprietários continuam querendo agradar o governo da hora e ainda acreditam que a razão principal de não terem os lucros esperados é essa "mania" de noticiar só coisa ruim. "Temos que mudar isso, fazer um jornalismo positivo, que mostre as coisas boas", é uma frase que ouvi, com algumas variações, de mais de um empresário de comunicação. Neste e no século passado. Fora isso, contudo, parece outro mundo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/oe-191859_186583628052836_100001036016606_471444_2668889_o.jpg) Redação de O Estado, sede da Felipe Schmidt, por volta de 1973\. Foto do arquivo do jornal, sem identificação do autor. ## O IMPÉRIO DA LAUDA DE PAPEL No "meu tempo" (querendo me referir a quando comecei na profissão, jovem, magro e namorador), a principal ferramenta nas redações era a máquina de escrever. Escrevíamos numa folha de papel que, para facilitar a contagem de caracteres e linhas e o trabalho da diagramação, tinha margens impressas e outras indicações. Chamava-se, essa folha, de lauda. Em geral comportava 20 linhas com 70 "toques" (caracteres com espaços) cada. A gente sabia que, quando o editor pedia que a nossa matéria (reportagem, texto) tivesse cinco laudas, precisaríamos escrever cerca de 7 mil caracteres com espaços. Ou se ele pedisse um pequeno box de 15 linhas, estava querendo uns mil toques, porque a linha tinha 70 toques cada. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/lauda2.jpg) Espaços para as marcações do diagramador, no alto da lauda. Quem já escreveu à máquina, numa folha de papel e cometeu algum erro, sabe que não tem muito o que fazer: passar um "corretor" (aquela tinta branca), riscar e escrever corretamente acima da linha, com caneta, ou começar de novo. Às vezes, quase ao final de um texto mais longo, a gente podia ver que se a ordem dos parágrafos fosse modificada (por exemplo, mover o sétimo parágrafo mais para o início), o texto ganharia em clareza e fluência. Como fazer isso numa folha de papel datilografada? Recortar e colar, literalmente, com tesoura e cola (ou grampeador)? Não era fácil a vida da gente, durante o império da lauda de papel. Quanto retrabalho, quanta demora, quanta frustração... Tá certo que o espaçamento entre as linhas era grande, pensando justamente no trabalho de edição e correção. Permitia escrever com a caneta as correções. Isso funcionava bem num pequeno erro de digitação ou para trocar uma ou duas palavras. Mas e quando o repórter entregava tudo na ordem indireta e o editor queria ou precisava colocar na ordem direta? ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/foto-2-x-coluna-31-7-19.jpg) Era complicado melhorar os textos datilografados... Foto: olhave.com.br Claro que só no tempo da lauda e da máquina de escrever a gente podia ver gestos dramáticos, teatrais, que tantos editores adoravam protagonizar: olhava por cima do ombro do pobre repórter o que ele estava escrevendo, se aproximava, pegava a lauda e puxava rispidamente da máquina, com ruído e estardalhaço e, enquanto amassava ou rasgava recitava em voz excessivamente alta, para ecoar na redação, cheia de olhos arregalados, a frase lapidar: "tá uma bosta, reescreve essa merda!" Não posso dizer que, nesse aspecto, esse tempo aí fosse melhor do que hoje. Os processadores de textos permitem escrever, apagar, copiar, editar, gravar, recuperar os textos com grande facilidade. A não ser num cenário de catástrofe, em que não exista energia elétrica, não consigo mais me imaginar, numa máquina de escrever, enchendo de caracteres uma folha de papel. ## A TORTURA DAS DISTÂNCIAS O Mário Medaglia conta, no livro dele, como era difícil publicar as fotos dos jogos de outras cidades. O fotógrafo e o repórter iam de carro a Joinville, por exemplo, faziam o primeiro tempo do jogo e tinham que pegar a estrada de volta a Florianópolis. Porque as fotos, registradas numa película que ainda precisaria ser revelada e copiada, tinham que chegar fisicamente à sede do jornal. A mesma coisa com fotos de neve. Uma correria pra não ter que publicar a foto só no dia seguinte (os jornais naquela época eram publicados uma vez por dia). ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/nb_06photodeskupib.jpg) Máquina para transmitir fotos pelo telefone. Foto: Andy Scott/[The Dallas Morning News](http://photographyblog.dallasnews.com/2012/07/photojournalist-or-pack-mule-a-look-back-at-the-good-old-days-of-wire-service-photography.html/?ref=cesarvalente.com) Dependendo do evento e do tamanho do jornal, era possível alugar uma máquina de radiofoto. Um trambolho que enviava as fotos por telefone. Muitos minutos para cada foto. Era por equipamentos parecidos com esse (só que conectados por rádio) que o jornal, se fosse assinante de agências de notícia internacionais, como a UPI, recebia as fotos das remessas diárias. Os textos chegavam pelo teletipo: máquina ligada à linha telefônica que escrevia, numa bobina de papel o que a agência enviava. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/dinos002-1.jpg) O jovem Celso Vicenzi operando o telex. Foto do acervo pessoal dele. A gente comemorou quando chegou o telex. Também uma máquina ligada à linha telefônica, que permitia a comunicação remota, por escrito. Uma espécie de whatsapp movido a lenha. As principais sucursais de O Estado, onde trabalhava, tinham telex. Ficou fácil enviar as reportagens. Alguém digitava em Chapecó, gravava numa fita perfurada de papel e, quando transmitisse, a máquina de Florianópolis digitava no papel. Maravilha. Mas e quando não tinha máquina de telex disponível? O "avanço" foi quando os Correios emprestaram para o jornal uma nova geringonça, chamada "facsímile" (depois também popularmente conhecida como "fax"), que transmitia uma lauda em estonteantes três minutos. A cobertura dos Jogos Abertos daquele ano ficou muito mais fácil, dava para mandar as reportagens mais rápido do que um carro levaria para chegar à capital pelas estradas precárias daquele tempo. Não consigo pensar que essa ginástica toda fosse melhor, em alguma maneira, do que a facilidade que temos hoje, com a internet e com o telefone celular. A distância não existe mais, quando se trata de enviar fotos e textos. E as fotos e textos chegam com a mesma qualidade com que foram gerados. Sem as linhas causadas por interferências nas radiofotos, sem a necesidade de redigitar os textos. E sem demora. ## COMO É QUE SE ESCREVE ISSO? Como é que a gente pode ter saudade de um tempo em que não era possível saber, em poucos minutos, como é que se escreve o nome de uma pessoa, ou quantos funcionários uma empresa tem, ou qual foi o faturamento no ano passado? Ou mesmo em que rolos a criatura esteve metida nos últimos anos? ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/files-1633406_1920.jpg) "Vai ali no arquivo e procura". Isso quando tinha arquivo e coisas arquivadas com alguma ordem. Foto: pixabay.com. Se o jornal não tivesse um departamento de pesquisa e arquivo muito bem estruturado, com gente competente, não dava nem mesmo pra saber se já foram feitas outras reportagens sobre o mesmo assunto, nos últimos anos. Claro, sempre tinha um colega com conhecimento enciclopédico, que tinha a Barsa em casa (ou na cabeça), mas nem toda hora ele estava por ali. E às vezes o que a gente queria ou precisava saber não era o que ele lembrava ou sabia. Afinal, quando foi que o Martinho de Haro morreu? Ou o Hercílio Luz faleceu? Ou o Figueiredo brigou com a turma na praça XV? E como era o nome daquele ministro orelhudo que levou uma bifa na orelha, na mesma ocasião? Nenhuma dessas dúvidas cria grandes problemas, hoje. Basta saber como e onde procurar e a gente acha tudo. Está tudo ao nosso alcance. Vão me dizer que isso não é muito melhor que antes? ## MAS PUBLICAR É MUITO CARO! No tempo do Pasquim (não tem ideia de quando é isso? pesquisa na internet, catzo!) pra publicar um jornal era preciso ter dinheiro pra pagar a gráfica, E não era baratinho. Pra fazer um fanzine era preciso ter acesso a um mimeógrafo (que é coisa limitada). Ou dinheiro pra gráfica. Botar as ideias na rua era um problema sério. No final da década de 60, quando fiz um jornalzinho na escola, impresso em mimeógrafo a álcool, tive que conseguir patrocínio de duas lojas da cidade, para poder comprar os insumos e o papel. Imagina tentar fazer alguma coisa como o Movimento ou o Opinião (corram para a internet, seus desinformados!), tabloides com dezenas de páginas, capa a cores? ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/printing-2159700_1920.jpg) E aí, vamos fazer uma revistinha impressa a cores? Quem financia? Foto: píxabay.com Hoje a gente cria um blog grátis, que pode ser visto por milhões de pessoas no mundo todo, gastando apenas o nosso tempo. Se quiser sofisticar, pode comprar um domínio de internet (tipo [cesarvalente.com](https://cesarvalente.com/content/files/2026/07/cesarvalente-com.html)), por uns trocadinhos anuais. Mais barato que um stêncil de mimeógrafo. Mas não é só o texto que pode ser distribuído. Com um celular e algum talento, pode-se criar vídeos. Com mais algumas habilidades, criar um podcast (uma espécie de programa de rádio portátil). O limite, hoje mais do que nunca, é o seu talento, sua vontade de fazer (e a disciplina para aprender algumas técnicas e manhas). No meu tempo, naquele tempo em que iniciei no jornalismo, só quem tivesse muito dinheiro podia publicar, em qualquer plataforma. Neste tempo agora, que também é meu, porque ainda não morri e continuo lépido e fagueiro, inventando moda, a facilidade em publicar é tão grande que até imbecis, idiotas e gente mal intencionada fica inundando o mundo digital com suas patacoadas e mentiras. ## ERA DIFERENTE. SÓ. Entendo os colegas e as colegas que às vezes sentem saudade daquele tempo. Eu também gostaria de voltar pra lá. Também gostaria que ainda existisse empregos, salários, redações cheias de gente. A gente se divertia bastante, muitos de nós tinham uma grande esperança em dias melhores. Mesmo com a eleição indireta do Tancredo, a gente achava que o fim da ditadura era sinal de um novo tempo. O Brasil era, sem dúvida, o país do futuro. E, além e acima de tudo, a gente era jovem. Muitos de nós (talvez eu próprio) se achavam e faziam questão de agir como achões que eram. O que poderia dar errado? Bom, nem preciso entrar em detalhes. A partir de 2001 a crise das empresas jornalísticas acelerou, os salários de jornalistas despencaram, as vagas reduziram, a precarização se instalou e quando o jornalista consegue fazer alguns frilas por mês, se considera um afortunado. Trabalha em casa, tem MEI ou pequena empresa (pra poder dar nota, porque PJ é o padrão) e parou de frequentar os bares em que os jornalistas se reuniam para falar mal dos patrões e do governo, Os bares fecharam. E, no espelho, aquele sujeito grisalho e enrugado nos olha com pena. Então, meus caros, minhas caras, "no meu tempo" as coisas eram diferentes. E, para o exercício da profissão, mais difíceis em muitos aspectos. Em outros, mais fáceis e estimulantes: havia um apreço pela qualidade, uma pressão por fazer melhor. O texto da gente passava pelo chefe de reportagem, pelo revisor, pelo editor e cada um deles ou delas dava um pitaco, uma bronca, um conselho. Era impossível não gostar disso e não crescer. Nos meus sonhos às vezes me encontro numa daquelas redações, com chefias competentes e talentosas, pautas instigantes e tempo para fazer o trabalho, usando um computador com internet, celular e todos os recursos de hoje. É um cenário utópico. Que pode se transformar em pesadelo se a gente sonhar com as condições de trabalho de hoje, com os recursos daquela época. Telefone fixo, telex, sem internet e dependendo de laboratórios fotográficos... > Como diria Horácio: *Carpe diem, quam minimum credula postero.* ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/cesar1.jpg) Imagina fazer isso com uma máquina de escrever... Foto: Pedro Valente. ### Precisa mesmo ter papel? /3 URL: https://cesarvalente.com/precisa-mesmo-ter-papel-3/ Last updated: 2026-07-05T08:15:26.000Z Claro que o problema do jornalismo não é o papel, ou a falta de. Nos episódios anteriores sobrevoamos algumas questões que nos levam a responder a questão do título com um "claro que não!". E hoje, pra encerrar a série (ainda que esteja longe de abandonar esse assunto), espero adicionar alguns complicadores. Assim como o rádio não desapareceu nem perdeu a utilidade com o surgimento da televisão e a televisão não fechou com o surgimento da banda larga de internet, o jornal impresso não precisaria, obrigatoriamente, sair de cena porque surgiu alguma novidade. O papel do jornal (com o perdão do Alberto Dines), vai muito além do papel em que é (era?) impresso. E quando vemos jornais suspendendo suas edições diárias impressas (esta semana quatro jornais catarinenses deixam de circular), a preocupação não é só com as demissões que acompanham essa rotina administrativa. Mas, principalmente, com o fato de que essas decisões foram abduzidas pelo mundo sem alma das piores "rotinas administrativas". ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/typewriter-1880894.jpg) Cá entre nós: quem escrevia bobagens na máquina de escrever, continua escrevendo bobagens com o computador. Não é a ferramenta que se usa que melhora ou piora o texto. ### O JORNALISTA, ESSE INCOMPETENTE! Havia jornais em crise bem antes dessa palavra virar moda. Acompanhei, mais ou menos de perto, a agonia de vários jornais que acabaram fechando. E em nenhum dos casos a culpa foi de algum problema relacionado com a plataforma (o fato de ser impresso), ou com a concorrência de outros meios. Naturalmente, quando um jornal fecha, o leigo pensa que os jornalistas fizeram alguma coisa errada. Mal sabe ele que em muitas empresas jornalísticas os donos, acionistas, controladores ou que nome tenham, odeiam jornalistas. E, acima de tudo, detestam essa coisa incômoda, cara e criadora de caso que é o jornalismo. Assim, quando as contas não fecham, quando o lucro está escasso e o prejuízo bate às portas, o fato do jornal prestar um serviço público, da informação ser um bem essencial para a vida em sociedade e da fiscalização do poder público ser fundamental para o bom funcionamento da democracia não são colocados sobre a mesa. Nada disso é levado em conta quando a direção tenta encontrar o caminho do lucro (ou da fuga do prejuízo). Tenho a impressão que numa fábrica de sabão, ou numa agroindústria, levam mais em conta as qualidades do seu produto e a natureza da sua atividade principal, do que em muitas empresas jornalísticas. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/jornais-dscn0274.jpg) Tirei esta foto em fevereiro de 2015, em San Francisco, California. As maquininhas de vender jornais estavam praticamente vazias. Não havia mais jornais pra vender. Só o San Francisco Chronicle ainda persistia. ### ESTUDO DE CASO Nº 1 A Gazeta Mercantil foi um grande jornal. Seu mote publicitário, "o maior jornal de economia e negócios da América Latina" era verdadeiro. O jornal cresceu porque seu dono, Herbert Levy, na década de 1970, entregou a direção a um grupo de jornalistas competentes, em quem tinha irrestrita confiança. Tanto que só lia o jornal depois de publicado. Como todos os demais leitores. A GM foi feita, portanto, por jornalistas, sob o comando do Roberto Muller Filho. Os principais nomes do jornal estão na história do jornalismo brasileiro, como Matías Molina, Armênio Guedes, Glauco Carvalho, Celso Pinto, Tom Camargo, Getulio Bittencourt, Sidnei Basile, Mário Alberto de Almeida, Lilian Witte Fibe, Ottoni Fernandes Jr., Paulo Totti, Aloysio Biondi, Dirceu Brisola e Klaus Kleber. Em cinco anos, no final do século passado, o jornal ultrapassou a marca dos 100 mil exemplares (que, para o Brasil e para um jornal especializado, é muito expressiva) e instalou 21 sucursais. Passou a ser impresso em quase todos os estados e nesses locais tinha cadernos regionais. Chegou a ter mais de 500 jornalistas. Sua sede, em Santo Amaro, São Paulo, era um prédio de dez andares, com restaurante e serviço médico. Uma potência. No campo jornalístico, portanto, tudo parecia estar sendo feito corretamente. A separação entre o editorial e o comercial era efetiva (ainda que colaborassem, não havia interferência). Os repórteres não aceitavam presentes e as viagens, mesmo para o caderno de turismo, eram feitas com o jornal pagando as passagens. Mas, como em outros grandes jornais, na época do Real valorizado, da bolha da internet, da privatização das telefônicas, a administração do jornal (sob o comando do Luiz Fernando Levy, filho de Herbert) fez apostas que se mostaram equivocadas e não conseguiu gerenciar a coisa quando o dólar estourou. É uma história longa e complexa, que aqui e ali começaram a contar ([como no artigo "Gazeta Mercantil, um final melancólico", do ](http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/gazeta%5Fmercantil%5Fum%5Ffinal%5Fmelancolico/?ref=cesarvalente.com)[**Luiz Antonio Magalhães**](http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/gazeta%5Fmercantil%5Fum%5Ffinal%5Fmelancolico/?ref=cesarvalente.com)[, no Observatório da Imprensa](http://observatoriodaimprensa.com.br/feitos-desfeitas/gazeta%5Fmercantil%5Fum%5Ffinal%5Fmelancolico/?ref=cesarvalente.com)), cujo resultado prático era que, de tempos em tempos, os salários atrasavam, Aí era feita uma nova operação bancária e tudo se regularizava. Até a grande implosão de 2001\. De uma tacada, 250 jornalistas demitidos, por email, sem os seus "direitos", depois de uma greve pelo pagamento dos salários atrasados. #### Tava indo tão bem... Quando a Folha e o Globo começaram a criar um jornal de economia (o Valor), que seria concorrente direto da GM, eu trabalhava na sede da Gazeta, em São Paulo. A equipe inicial que montaram era composta por muitos jornalistas que tinham trabalhado na Gazeta. Aí bateu uma certa paúra. "Hum, acho que eles vêm fortes em macroeconomia e a nossa sucursal de Brasília está fraca, temos que reforçar", diziam os chefes. Foi nesse embalo que fui transferido para Brasília, como secretário de redação (que faz a coordenação da redação, distribuição da pauta e o contato com a matriz). O experiente brasiliense Zanoni Antunes foi contratado para dirigir o jornalismo da sucursal, Como tinhamos trabalhado juntos antes (na Empresa Brasileira de Notícias, também em Brasília, no que deveria ter sido o governo do Tancredo), foi fácil engrenar e logo a equipe cresceu, com uns onze jornalistas dentre o que havia de melhor em cada área. Quando o Valor publicou seu primeiro número, teve comemoração na sucursal da Gazeta: o concorrente saiu fraco e naquele dia nós tínhamos material muito melhor e exclusivo de Brasília. Pronto, passou o medo. E aí começava a diversão: é ótimo fazer jornalismo com uma concorrência à altura. A gente bate num dia, apanha no outro e quem ganha é o leitor, porque o esforço é sempre pela melhor informação. O grande Maurício Correa, repórter da área de energia, conseguia o feito de sair, de entrevistas coletivas, durante a crise de energia (a "crise do apagão" em 2000), com informações exclusivas. É preciso conhecer muito a área e ser muito atilado, pra ver e ouvir, numa coletiva, o que os outros colegas não perceberam. Não foi, portanto, a concorrência do Valor que abalou a Gazeta Mercantil. Não foi a entrega de um mau produto, ou jornalismo de baixa qualidade, que matou a Gazeta Mercantil. Mas, a partir de 2001, seus problemas administrativos cresceram. O atraso de salários e a falta de diálogo levaram à greve, encerrada com a demissão de centenas. O jornal teve uma sobrevida melancólica, com novos donos, até 2009, quando fechou definitivamente. O Valor Econômico continua e tudo indica que esteja saudável e bem disposto. Mesmo com a tentativa do governo de estrangulá-lo, secando a fonte de renda que era a publicação dos balanços das empresas. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-22-at-14-09-07.png) Notícia de 2001\. Parecia que os ventos estavam a nosso favor. Mas, pouco depois, tivemos outra notícia: "O Tribunal Superior do Trabalho (TST) suspendeu, nesta quarta-feira 14/11) a sentença do TRT-SP, favorável aos grevistas da Gazeta Mercantil, a pedido da empresa. O despacho foi assinado pelo presidente do TST, Almir Pazzianotto". [Lembram do Pazzianotto?](https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/06/almir-pazzianotto-o-pt-tornou-se-reacionario.html?ref=cesarvalente.com) Posentão. Com a porta aberta pelo amigo dos patrões, a Gazeta demitiu no dia seguinte 520 pessoas, por justa causa, via telegrama. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/wash-705674_1920.jpg) A caixa com os tipos móveis. Em Florianópolis isso era usado nos jornais (para os títulos), até 1971\. Querem saber o que está escrito ali no componedor? Vão tentando. Tem a "solução" lá embaixo, no final. ### ESTUDO DE CASO Nº 2 O jornal O Estado foi um grande jornal. Era o mais antigo diário em circulação em Santa Catarina. Escrevi sobre ele e sua história no capítulo que trata sobre a imprensa na Grande Florianópolis, do livro "**Jornalismo em Perspectiva**", com que o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina comemorou seu cinquentenário.[ O livro pode ser baixado na área de publicações, do Sindicato](http://sjsc.org.br/manuais/?ref=cesarvalente.com). Minha vida profissional esteve muito ligada a esse jornal. Ali publiquei minhas primeiras crônicas, em 1970\. Em 1972, quando o jornal repentinamente mudou seu sistema de composição e impressão e ampliou a equipe, para concorrer com o recém lançado Jornal de Santa Catarina, tive ali meu primeiro emprego com carteira assinada: redator do Caderno 2, que era editado pelo Paulo da Costa Ramos. Mesmo tendo ido cursar jornalismo em Porto Alegre, continuei ligado ao jornal, publicando crônicas semanais e fazendo colunas de humor. Voltei e saí algumas vezes, fiz várias outras coisas, em outras empresas, até ser convidado pelo dono do jornal, José Matusalém Comelli, para ser editor-chefe, em 1987. Nessa posição pude vivenciar de perto os problemas que afligiam o jornal e ver que não bastava fazer um bom produto. Com a ajuda do Flávio Sturdze, que chamei pra ser meu sub, montamos uma equipe com o que havia de melhor no "mercado". Quando conversava com Comelli sobre os resultados que estávamos obtendo, a coisa nunca era muito animadora: o jornal dava lucro operacional, vendia bem, tinha uma boa carteira de anunciantes, os classificados enchiam vários cadernos. Mas... e sempre tem um mas, operações financeiras feitas anos antes, consumiam o lucro. O fato de ter perdido a concorrência pela concessão do canal da TV Catarinense (que a RBS levou, com o supreendente apoio do governador Konder Reis), abalou muito o ânimo do Comelli, que esperava contar com o canal de TV (e a afiliação à Globo), para dar suporte e tranquilidade financeira ao jornal e demais operações. Aí, quando a RBS resolveu fazer um jornal em Florianópolis, acho que ele meio que entrou em pânico. Para se preparar para o concorrente, Comelli foi aos bancos. E reforçou, como pode e como foi aconselhado, o jornal. Há quem diga que ele superestimou o adversário e subestimou a força da sua própria marca. O fato é que, em 1988 a gente sentia reflexos das decisões tomadas em 1985\. Que, naturalmente, também sofreram com a instabilidade econômica e o Plano Cruzado. Mas, enquanto estive à frente da redação, travamos boas batalhas com o concorrente, que não teve vida fácil. O fato de ter uma televisão ajuda não só no reforço de caixa, mas também na atração de anunciantes (é possível fazer "pacotes" vantajosos). Mesmo assim cobrimos melhor vários assuntos, saímos na frente outros tantos e não tivemos cancelamento de assinaturas por leitores descontentes com o jornal. A concorrência não nos assustava. Até porque sabíamos os limites do alcance dos tiros do "inimigo". Como disse tinhamos, Flávio e eu, montado a melhor equipe possível, trazendo gente nova e aproveitando o que estava na casa. Jornalistas, claro, cheios de espírito crítico, animados, destemidos. Quando o jornal teve problemas para honrar a data de pagamento, subiram nas tamancas e resolveram entrar em greve. Foi uma boa oportunidade, não planejada, mas certamente não lamentada pela administração, para reduzir a equipe. Sem negociação, foi encerrada uma etapa, ocorreram demissões e a nova equipe, "enxuta", tocou o barco, com novo editor. O jornal se manteria em boas condições (ainda que perdendo terreno gradualmente), até o final do século. Fechou definitivamente em 2009, depois de ter se transformado em tabloide semanal, com tiragem mínima. A **Leani Budde** publicou, em 2017, o livro "Jornal O Estado, Da glória à decadência (1915-2009)" em que conta não só a história do jornal, como o seu contexto econômico, político e social. O [**Carlos Damião**](https://ndmais.com.br/blogs-e-colunas/carlos-damiao/a-historia-de-o-estado-que-e-parte-da-historia-de-sc/?ref=cesarvalente.com)[ registrou, numa nota, o lançamento](https://ndmais.com.br/blogs-e-colunas/carlos-damiao/a-historia-de-o-estado-que-e-parte-da-historia-de-sc/?ref=cesarvalente.com), comentando sobre a defasagem na informatização do jornal, que teria tido participação nos problemas que causaram a decadência de O Estado. Não concordo, mas é um bom tema pra uma outra conversa. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pickaxe-1346996_1920.jpg) Essa linda picareta azul, na cidade de Kassel, na Alemanha, foi feita por [Claes Oldenburg e Coosja van Bruggen](http://oldenburgvanbruggen.com/index.htm?ref=cesarvalente.com), conhecidos por suas esculturas de objetos do cotidiano em grande escala. Um batom de 7 metros na Universidade de Yale, um grampo de roupas de 13 metros na Philadelphia, uma pá de pedreiro de 12 metros na Holanda e assim por diante... ### À SOMBRA DOS PICARETAS EM FLOR Quando se fala em jornais impressos e suas dificuldades, sempre surge a ideia de que jornais locais, de bairro, têm problemas menores, por exemplo, com a distribuição, por não precisar cobrir muitas distâncias. É verdade. E existem muitos casos, aqui em Santa Catarina mesmo, de bons jornais que continuam firmes e fortes em sua circulação de papel. O que faz, ou desfaz, um jornal, não é o papel, a tela, a onda hertziana: é a qualidade da informação que ele veicula. A informação, como vocês sabem, é um bem essencial, como a água, o ar, o alimento. Coisa de primeira necessidade. Mas, assim como rejeitamos a água salobra, turva, ou com gosto de cloro, também não gostamos de informação embolorada, falsa, sem garantia de procedência ou com a procedência tão evidente que a comprometa. Os bons jornais locais parecem mais resilientes não porque estejam imunes a problemas como o salário dos motoqueiros da distribuição, o custo do papel ou o choro dos anunciantes e assinantes. Mas porque têm uma identificação profunda com suas comunidades. Sabem o que aflige seus leitores e tratam de coisas que estão diretamente relacionadas com a vida, com o dia a dia da cidade. Sofrem muito, contudo, com a picaretagem que, desde tempos imemoriais, ronda jornais e jornalistas. O picareta vive procurando uma forma de enganar o leitor, aproveitando-se da necessidade de informação que todos temos. O picareta clássico promete que consegue colocar a foto do aniversário de 15 anos na coluna social, desde que o cara compre um anúncio. O picareta colunista garante a fotinho na coluna desde que o pagamento seja feito em dinheiro, para ele mesmo. Mas pode ser uma notinha política mesmo, quando não se tratar de colunista social. Como em todas as profissões, no jornalismo também existem picaretas. O repórter/assessor de imprensa, por exemplo. Ganha de alguma empresa ou entidade para divulgar informações à imprensa e ganha de um jornal/tv/rádio para ir atrás de informações. E, adivinha, sempre acaba achando as informações que ele/ela mesmo produz. Mas esses nem são muito numerosos ou perigosos. O picareta, quando resolve ter um jornal, é um espanto. Outro dia me contaram que num jornalzinho de bairro, cheio de colunistas, era fácil publicar, porque o dono do jornal cobrava baratinho cada artigo. Sim, o articulista paga. E o jornal também cobra mensalidade dos governos, dos políticos, dos comércios e de quem mais quiser aparecer no "noticiário". Claro, a matéria também é paga. E os anúncios, naturalmente, idem. Isso de "matéria paga" é antigo. E está entre as maiores causas de desmoralização do jornalismo. É uma prática famosa, embora nem sempre praticada na extensão que muitos acreditam. Dependendo da roda de conversa, fica difícil a gente argumentar que uma reportagem, que sabemos que foi feita corretamente, não foi comprada por alguém, ou que não serve a alguma determinação espúria dos donos do jornal. Porque muita gente acha que tudo, ou quase tudo, que lê, foi negociado. E aí está, a meu ver, o nó da questão. A credibilidade foi pro ralo. E não vejo muita gente interessada em recuperá-la. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/toilet-paper-3964492_1920.jpg) Ops... acho que peguei a foto do rolo de papel errado. Não faz mal. É sempre útil. E, nesse caso, prefiro sem dúvida o papel à tal de "inclusão digital" que andam apregoando pelaí. ### TÁ, E DAÍ? Para responder à pergunta do título desta série "comemorativa" (Precisa mesmo ter papel?): não, não precisa ter papel, mas precisa ter jornalismo. O que estamos assistindo é que, a pretexto de uma crise nos diários impressos, os jornais estão indo para o "digital" sem levar o jornalismo. Ou levando uma variação genérica do jornalismo. Que é mais flexível à venda das pautas, ao controle do conteúdo pelos anunciantes e à mistureba incestuosa do entretenimento com a notícia. Como o "administrativo" só pensa naquilo (fechar as contas no fim do mês com lucro) e como os veteranos foram alijados do processo, a turminha nova, louca pra mostrar serviço e ciente de que aquelas quatro pessoas são as únicas empregadas num raio de muitos quilômetros de deserto jornalístico, embarca com mais facilidade na história de que o fim dos jornais impressos é o fim de um jeito antigo de fazer jornalismo. E que o que sobreviveu é bom, é inovador, é o futuro. Da mesma forma, muitos dos que ficaram de fora das reestruturações e da juvenilização da profissão, embarcam na canoa furada de que tudo o que a gurizada faz é ruim. Que o jornalismo pra ser levado a sério precisa do papel, da tinta que sai nas mãos e daquele sangue dado pelo repórter que tinha que parir uma matéria sem celular, sem internet e sem computador em casa. O jornalismo é caro, não é pra qualquer um/uma, exige cultura geral acima da média, conhecimento do idioma acima da média e técnicas de reportagem, redação e edição que podem ser ensinadas em escola. Mas, dadas essas condições, não é complicado. Uma história bem contada tem sempre audiência. Se esssa história, além de tudo, tem informações novas, relevantes, torna-se produto de primeira necessidade. Que pode ser entregue no papel, se não for alguma coisa factual; numa tela, se for informação urgente; em produto multimídia, com animações, videos, gráficos interativos, se for um material de maior fôlego. Acima de tudo, está a informação de qualidade, esse insumo vital tão descuidado e tão abandonado. Mesmo no tempo em que os jornais diários impressos em papel reinavam absolutos, alguns de nós desdenhavam desse bem precioso e não o levávamos a sério. Agora todos choramos sobre o jornal fechado, sem perceber que estamos sendo subtraídos nessa tenebrosa transação que não leva, para o "digital", o que de mais importante os melhores (embora raros) diários impressos um dia tiveram: informação exclusiva socialmente relevante, apurada de forma independente. --- #### Solução do passatempo O TEXTO NO COMPONEDOR: ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-22-at-21-06-56.png) **The quick brown fox jumps over the lazy dog and feels as if he were in the seventh heaven of typography together with Herman Zapf, the most famous artist of the** A primeira parte (até lazy dog) é uma frase que tem todas as letras do alfabeto ocidental e se usa para ver como são todos os tipos de uma determinada fonte. Não faz muito sentido: *"A rápida raposa marrom pula sobre o cachorro preguiçoso"*. E a continuação entra na brincadeira, para citar o [Herman Zapf](https://en.wikipedia.org/wiki/Hermann%5FZapf?ref=cesarvalente.com): *"e ela (a raposa) se sente como se estivesse no sétimo céu da tipografia, junto com Herman Zapf, o mais famoso artista do"*... Zapf, que morreu em 2015, foi um famoso calígrafo e designer de tipos. Criou fontes muito populares, como [Palatino](https://en.wikipedia.org/wiki/Palatino?ref=cesarvalente.com), [Optima](https://en.wikipedia.org/wiki/Optima?ref=cesarvalente.com), [Zapfino](https://en.wikipedia.org/wiki/Zapfino?ref=cesarvalente.com) e os sempre úteis símbolos do [Zapf-Dingbats](https://en.wikipedia.org/wiki/Zapf%5FDingbats?ref=cesarvalente.com). --- **Créditos das fotos:** Rolos de papel no destaque: Confederation of European Paper Industry (cepi.org) Máquina de vender jornais: Cesar Valente As demais fotos são do [**pixabay.com**](https://pixabay.com/?ref=cesarvalente.com), site de fotos liberadas para uso sem pagamento de royalties. E seus autores são: Máquina de escrever: [Babyboomer100](https://pixabay.com/users/babyboomer100-3801748/?ref=cesarvalente.com) Componedor: [Willi Heidelbach](https://pixabay.com/users/wilhei-883152/?ref=cesarvalente.com) Picareta: [Zorro4](https://pixabay.com/users/zorro4-796252/?ref=cesarvalente.com) Papel higiênico: [Alexas\_Fotos](https://pixabay.com/users/alexas%5Ffotos-686414/?ref=cesarvalente.com) ### Precisa mesmo ter papel? /2 URL: https://cesarvalente.com/precisa-mesmo-ter-papel-2/ Last updated: 2026-07-05T08:15:31.000Z Durante séculos a melhor solução para distribuir informações era imprimi-las em papel. Mesmo as notícias sobre os fatos recém acontecidos. O papel é portátil, durável e absorve bem as tintas. Como diz o velho ditado, o papel aceita tudo. Nesta série de três posts, algumas caraminholas sobre o fim dos jornais diários impressos em papel. Bem antes de serem assombrados pela fuga dos anunciantes, os donos de jornal tinham pesadelos com o problemão que era distribuir aquilo tudo. Porque, não sei se vocês já pararam para pensar nisso, um jornal que não chega até o leitor, não pode ser lido. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-21-at-11-34-52.png) Algumas das sucursais de O Estado e seus endereços, no século passado. Esses pequenos anúncios eram "calhaus", inseridos nas páginas quando era preciso preencher algum espaço. ### "TEM QUE FECHAR CEDO!" "Fechar o jornal", no jargão jornalístico (de antes da crise), era concluir a edição, completar o jornal, para que ele pudesse ser impresso. As impressoras off set médias mais comuns, na década de 80, faziam uns 30 mil jornais por hora. Então, se o caminhão da distribuição precisasse sair às 22h, o jornal tinha que começar a ser impresso antes das 21h. E entre a redação e a rotativa tinha que vencer várias etapas: composição, fotomecânica, paste up (paginação), fotolitagem e gravação da chapa. Ou seja, dependendo da agilidade do pessoal da área gráfica, a redação talvez nem pudesse assistir ao Jornal Nacional (pra ver se estava publicando as principais notícias do dia) antes de "fechar" a edição. E por que diabos existia essa pressão de horários? Porque o jornal que era impresso no Saco Grande, na Ilha de Santa Catarina e tinha que chegar, o mais cedo possível, a Chapecó, no oeste do estado, a quase 700 km dali. Ou porque o jornal era impresso em Joinville e tinha que chegar a Chapecó antes do O Estado. E os dois tentavam chegar a Chapecó pelo menos no mesmo horário que o Jornal de Santa Catarina, que levava a vantagem de ser impresso em Blumenau e que, portanto, tinha uns 200 km de vantagem. E nem era uma viagem direta. No caminho, várias escalas, para abastecer os distribuidores intermediários. Uma rede considerávelmente complexa que fazia com que, até o meio dia, se pudesse ler as "últimas notícias" em qualquer lugar do estado. Os jornais "nacionais", impressos no Rio e em São Paulo, enfrentavam desafios semelhantes, em escala... nacional. Lembro de ver a camionete da Folha de S. Paulo em Florianópolis, de manhã cedo (saía um caminhão de São Paulo e em Curitiba, acho, a carga era distribuída em veículos menores, para diversos roteiros no Sul). ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/redacaoe.jpg) A redação de O Estado, ainda no prédio do Saco Grande. Se não estou enganado, a partir da esquerda está o diagramador Pescoço, o editor Mário Pereira, o saudoso Toninho Kowalski e o diagramador Pecos Bill. No telex, o indômito Celso Vicenzi maneja essa maravilhosa máquina que ligava as sucursais à matriz e trazia as notícias das agências, . ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/bundle-1853667_1920.jpg) Quando era permitido embrulhar peixe com jornal, a gente ganhava um dinheirinho guardando os jornais e vendendo, a quilo, no mercado público. Tempo de jornais standard, que cobriam a tainha completamente. Depois, com os tabloides, o peixe ficava com o rabo de fora. ### TONELADAS DE PAPEL Por mais que uma folha de jornal pareça leve quando a encontramos enrolando um peixe, no fundo da gaiola do curió ou forrando a caminha do totó, no auge dos jornais impressos o volume a ser distribuído sofria o impacto desse fato inegável: papel pesa. Vamos examinar, rapidamente, o caso do jornal O Estado, que acompanhei mais de perto. Durante mais de uma década, entre os 70 e os 90 do século passado, o jornal tirava, em média 32 mil exemplares diários. Isso dava um volume que pesava aproximadamente duas toneladas e meia. E mais nos finais de semana, quando o jornal crescia bastante. Toda madrugada os jornais eram carregados em seis camionetes, que cumpriam os principais roteiros de distribuição. Uma ia (pela 470), para o oeste. Primeira parada no Patussi (próximo a Curitibanos), para entregar o reparte que ia para Lages. Outra, para o sul (Tubarão, Criciúma, Araranguá e adjacências). A terceira para o norte (Joinville, principalmente). Mais uma, para o Vale do Itajaí (Itajaí e Blumenau). E duas abasteciam as bancas e vendedores da Grande Florianópolis e os entregadores para os assinantes. Com o sucesso do jornal, os cadernos de classificados aumentavam, o número de anunciantes crescia e nos fins de semana, com frequencia, o jornal chegava a ter 120 páginas. Mais peso e mais problemas. A rotativa de O Estado imprimia cadernos de 16 páginas. Era preciso imprimir sete ou oito cadernos, para a edição de "domingo", que começava a circular no sábado. Isso do jornal de domingo circular no sábado era uma maluquice trazida pelo concorrente gaúcho, mas falaremos nisso em outra ocasião. O fato é que, por causa das limitações da rotativa, o volumoso jornal de domingo começava a ser impresso na sexta-feira. No intervalo, se imprimia o jornal de sábado, pobre coitado, de vida ainda mais curta, porque às duas da tarde sábado já era possível comprar o jornal de domingo, na beiramar norte. E se a logística de distribuir tudo isso no estado todo era complexa, não faltavam complicadores. Para imprimir o jornal em papel, é preciso ter papel, que chega em bobinas enormes. O Osmar Schlindwein, diretor comercial e industrial de O Estado, preocupado com o atraso de um caminhão de papel, com o estoque no fim e a edição de fim de semana esperando, saiu atrás. Não havia celular, mas ele era conhecedor dos hábitos dos caminhoneiros que faziam essa rota. Pegou a estrada e quando passou pela Vila Palmira, zona de prostituição próxima da BR 101, na Grande Florianópolis, encontrou o caminhão, carregado, estacionado. Teve que interromper o lazer do motorista, para que o papel chegasse ao jornal a tempo. Mais tarde, quando os jornais começaram a ter dificuldades de caixa, o grande problema era pagar o papel, para poder imprimir e aí receber dos anunciantes. O papel, essa maravilhosa invenção que aceita tudo, sempre foi um problema. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/gazeta-mercantil-27-de-maio1999.jpg) No alto da capa desta edição de maio de 1999, a informação das cidades em que o jornal era impresso: São Paulo, Rio, Brasília, Campo Grande, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Belém e Manaus. ### A SOLUCIONÁTICA DA PROBLEMÁTICA O **USA Today**, lançado nos Estados Unidos em 1982, encontrou uma saída para a distribuição nacional do jornal de papel: imprimir em várias gráficas. Isso foi possível porque a tecnologia de transmissão de dados via satélite permitia enviar, para diversos locais, simultaneamente, as matrizes das páginas. No Brasil, a Gazeta Mercantil seguiu esse caminho e nos anos 90 era impressa em muitos estados. Pelo menos nas capitais, chegava cedinho. O desafio principal, nesse caso, superada a dificuldade de mandar os arquivos (a Gazeta foi uma das pioneiras em usar o pdf e a internet para isso), era encontrar gráficas, nos estados, com rotativas que suportassem o tamanho do jornal. Em alguns casos foram feitas adaptações nas máquinas, para que, em todo o Brasil, a Gazeta tivesse o mesmo padrão gráfico e as mesmas medidas. No Rio Grande do Sul, o jornal Diário do Sul, um filhote do suplemento local da Gazeta Mercantil, iria ser impresso na rotativa da massa falida do Correio do Povo. Às vésperas de começar a operação, um arrozeiro comprou tudo e disse que não iria honrar os contratos de impressão da massa falida, porque queria relançar o Correio do Povo. Sem rotativas disponíveis na Grande Porto Alegre, a solução foi imprimir o jornal em Santa Maria, a duas horas da capital. As chapas, feitas em Novo Hamburgo, eram transportadas de carro para Santa Maria e os jornais impressos trazidas de camionete para Porto Alegre. Uma insanidade logística, cheia de soluções engenhosas para contornar as dificuldades que, contudo, não foi o principal fator de fechamento (e aí, no sentido usual, de parar de circular mesmo) do jornal, poucos anos depois. Durante algum tempo, com o surgimento das impressoras a laser, cogitou-se de transmitir os jornais para os assinantes pelo telefone, para impressão em suas impressoras domésticas ou corporativas. Quem sabe pela televisão? Ou ampliar gadgets como o utilizado para transmitir e receber telefotos? E o fax? Não daria para mandar os jornais por fax? Todas essas gambiarras só ajudavam a perceber como é complicado entregar, fisicamente, um produto perecível. Um produto que era concebido e executado para não sobreviver ao dia seguinte. Um produto noticioso que durante algumas décadas morria de medo da concorrência do rádio, logo a seguir, morreu de medo da concorrência da televisão e finalmente, encontrou na internet seu concorrente mais feroz. A informação chega às telas que cada um de nós tem à disposição, no momento em que é publicada. Sem caminhão, sem camionete, sem horas de viagem. Sem papel. Pra mim, com os recursos disponíveis hoje, com o acesso que tantos têm a celulares, tablets e computadores, não faz sentido distribuir notícias imprimindo-as em papel. E isso, claro, não tem nada a ver com mais ou menos jornalismo, com melhores ou piores jornalistas, nem deveria influenciar na qualidade da informação. Ao contrário: resolvido esse problemão, esse pesadelo logístico que é distribuir toneladas de papel por uma região extensa, poderíamos nos concentrar no que interessa, que é a informação correta, bem apurada e com credibilidade. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/capa-novembrada.jpg) O "excesso de democracia" foi a causa da novembrada. Tá ali, na capa do jornal, opinião do "Palácio do Planalto". Capa do jornal de 1º de dezembro de 1979. ### COMO É QUE É? Para quem não sabe como os jornais são impressos este video abaixo, que mostra as oficinas do [**The Globe and Mail**](https://www.theglobeandmail.com/?ref=cesarvalente.com) (Canadá), pode dar uma ideia. Os jornais catarinenses não tinham um equipamento tão grande e moderno, mas o princípio geral era o mesmo: uma matriz, de metal, é gerada pela imagem da página criada em softwares de editoração. A chapa é colocada na impressora, recebe tinta e a tinta é transferida para o papel, por meio de rolos intermediários de borracha. O papel, em bobinas, passa em grande velocidade e é impresso. Depois, é dobrado e cortado e vai para a etapa final, onde recebe encartes e é empacotado para a distribuição. Quando li, na nota de despedida dos jornais da NSC, que iriam lançar uma revista semanal com o miolo "impresso a quente", fiquei curioso. Não tinha ainda ouvido falar de processos de impressão a quente para jornais. Neste video, quando falam no *heat-set*, lembrei que poderia ser isso a que estavam se referindo. É uma espécie de "forno", aquecido a 125°, por onde passa o papel recém impresso. É uma forma de fazer a tinta aderir melhor ao papel e secar mais rápido, para poder passar pelas várias fases a grande velocidade, sem risco de manchar e reduzindo as imperfeições causadas pela absorção mais lenta da tinta pelas fibras do papel. A rigor, não é impressão a quente, mas... Amanhã, no capítulo final dessa série "comemorativa", vamos falar um pouco sobre picaretagem. **pi·ca·re·ta·gem** (*picareta + -agem*) *substantivo feminino* \[Brasil\] Ação ou comportamento ardiloso, típico de pessoa que procura desse modo aproveitar-se dos outros. **"picaretagem"**, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa \[em linha\], 2008-2013, [https://dicionario.priberam.org/picaretagem](https://dicionario.priberam.org/picaretagem?ref=cesarvalente.com) \[consultado em 21-10-2019\]. ### Precisa mesmo ter papel? /1 URL: https://cesarvalente.com/precisa-mesmo-ter-papel-1/ Last updated: 2026-07-05T08:15:36.000Z Sim e não. O papel é útil para muitas coisas mas, nos jornais, faz sentido imprimir as notícias em papel? Nesta série de três posts, algumas caraminholas sobre o fim dos jornais diários impressos em papel. Sinceramente? Acho que não faz sentido imprimir notícias factuais em papel. Mas também acho que a maioria dos jornais (e dos "empresários da comunicação") não sabe o que está fazendo com seus patrimônios. Nem sabe como enfrentar essa situação que, de resto, sempre foi inevitável. Essa é uma discussão antiga, que tive o privilégio de acompanhar quase desde o começo (por causa da idade e porque só trabalhei nessa área, a vida toda), E entendo perfeitamente os colegas sessentões (ou sententões) que, também tendo assistido essa novela há décadas, têm dificuldade para aceitar o fim do jornal de papel, tal como o conhecíamos. ### OS PRIMEIROS EQUÍVOCOS Vamos voltar um pouco no tempo, a 1982\. Nesse ano a rede Gannet de jornais, dirigida por [**Allen Neuhart**](https://www.usatoday.com/story/news/nation/2013/04/19/al-neuharth-newspaper-founder-dies-at-89/2097995/?ref=cesarvalente.com), lançou o [**USA Today**](https://www.usatoday.com/?ref=cesarvalente.com), um jornal que, sob todos os aspectos, era revolucionário. Colorido, numa época em que o jornal de maior prestígio era conhecido como "a dama cinza" ("the gray lady"). Nacional, numa época em que todos os grandes jornais dos Estados Unidos eram operações basicamente regionais (Los Angeles Times, The New York Times, Washington Post, Miami Herald, Chicago Tribune, etc). Com textos curtos, numa época em que quanto maior o "tijolão", mais "importante" era a notíca. Impresso em múltiplas gráficas, ao redor do país, enquanto os demais tinham gráficas próprias ou próximo da sua sede. E com foco em esportes e celebridades, numa época em que isso era coisa de revistas de fofocas e jornalecos. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/capa-1995.jpg) Capa do USA Today de 14 de agosto de 1995, quando era o "nº 1" Pois bem, no primeiro ano alcançou a tiragem de um milhão de exemplares e passou de dois milhões nos anos 1990\. Amargou prejuízos nos cinco primeiros anos, mas depois se tornou lucrativo. No começo, foi criticado por ser cheio de bobagens e superficial. Chegou a ser chamado de "MacPaper". Mas à medida em que crescia (enquanto a maioria dos jornais tinha estacionado) e seu conteúdo comprovava ter substância, mesmo ocupando menos espaço, começou a ser copiado, nos Estados Unidos e mundo afora. E foi aí que a coisa desandou. Quando empresários brasileiros começaram a querer imitar o USA Today em seus jornais, fizeram uma conta torta: "se a notícia, no jornal, terá 20 linhas, naturalmente o repórter não precisa ficar uma tarde inteira fazendo uma matéria. Poderá produzir, numa tarde, umas cinco ou seis matérias". Não é? Como que uma ideia brilhante dessas poderia dar errado? Em 1992 fui aos Estados Unidos, a convite do departamento de Estado. O governo dos Estados Unidos, cumprindo sua tradicional função de propaganda, levou um grupo de coordenadores de cursos de Jornalismo brasileiros para visitar várias escolas de jornalismo e jornais, em diversos estados. Na época eu era coordenador do curso de Jornalismo da UFSC. Uma das visitas foi à sede do USA Today. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/cesar-usa-1.jpg) Em 1992 o USA Today ainda usava o paste up (colar as tiras de composição no diagrama), da mesma forma que O Estado e demais jornais catarinenses. A informatização lá (como aqui, no DC), ficava mesmo só no processamento de textos da redação. Além de conhecer a redação e parte da área de produção gráfica, pude perguntar, aos editores que nos receberam, sobre o processo de elaboração das matérias. E, como suspeitava, só pode escrever boas 15 linhas sobre um assunto quem o conhece integralmente. A apuração de uma informação precisa ser completa, minuciosa. Só assim se pode sintetizar o relato. Então, para produzir 15 linhas que digam alguma coisa, que tenham informação relevante, o repórter precisa realmente ir a fundo. Não dá pra fazer boas matérias sobrecarregando o repórter de pautas. Nem se o espaço for elástico, como na internet, ou limitado, como nos jornais de papel. Lá, naquela época, a síntese não significava enxugamento da redação nem aceleramento no tempo ou volume de trabalho. Significou "apenas" uma modificação na forma de contar a história. Da pauta até o momento de escrever, os repórteres e editores do USA Today usavam os métodos tradicionais das boas técnicas de reportagem. Quando tinham todos os dados da informação contavam, num texto compacto, o que sabiam. E, como sabiam muito, o pequeno texto tinha conteúdo. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/logos-usa.jpg) O logotipo das primeiras décadas (e) e o logotipo atual, criado em 2012. Esse é o nó da questão, que foi mal compreendido desde o começo. A tal da "produção de conteúdo". Exatamente como ocorre nas escolas que remuneram apelas pela "hora-aula". O texto, ou a aula, é resultado de um processo longo, desgastante, que deveria ser estimulado. Porque, teoricamente, quanto maior o tempo que usamos para apurar uma reportagem, ou preparar uma aula, mais chances há de que o resultado seja melhor. As consequências dessa má tradução, dessa importação capenga, foram desastrosas. Passamos a ler textos curtos que eram curtos em todos os sentidos. Zero de informação, péssima redação (a síntese não é para amadores) e desgaste e desalento no exercício profissional, com a sobrecarga irracional de trabalho. Os "administrativos" míopes dos jornais vibravam com a novidade: produzir mais "conteúdo" com "menas" gente. O resultado é o que temos visto: é difícil encontrar o que ler e o que é publicado, se não tem erros ou deslizes, também tem pouca ou nenhuma informação exclusiva. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/usa_today_05_logobehaviors.jpg) O USA Today foi o pioneiro no uso das cores para identificar as seções. Depois da última reforma gráfica cada seção ganhou, além das cores, ícones que podem mudar conforme o assunto das matérias, ### O FIM DO PAPEL, TAMBÉM PRA ELE O USA Today era visto, na época, como uma resposta dos impressos à linguagem da televisão. Como se houvesse uma concorrência. E a popularização da internet adicionou gasolina a essa fogueira. Poucos entendem que o jornalismo é a produção de informação nova, relevante, que pode ser distribuída por qualquer plataforma. O que importa é a informação, não o suporte. Mas não se enganem: não faz mais sentido publicar notícias factuais em papel e distribuir fisicamente. Segundo o Instituto Poynter, [em matéria publicada no último dia 16](https://www.poynter.org/business-work/2019/is-usa-todays-print-edition-headed-for-the-sunset-as-gatehouse-and-gannett-merge-signs-point-to-yes/?ref=cesarvalente.com), tudo indica que o momento de parar as máquinas (de impressão) se aproxima. Depois de 40 anos, crescem as dúvidas sobre a edição impressa do USA Today. A compra do grupo Gannet (que publica o jornal) pela GateHouse (do New Media Investment Group), por US$ 1,4 bilhão, parece sinalizar para isso. Dentro de um mês, quando o negócio estiver legalmente finalizado (ainda depende de aprovação de acionistas, que se reunirão dia 14 de novembro), os planos dos novos donos ficarão mais claros. O fato é que em 2007 o jornal tinha uma tiragem de mais de 2,3 milhões e o Poynter estima que hoje o jornal tenha uma circulação paga de 178 mil exemplares, mais os 342 mil distribuídos nos hotéis (que são vendidos às cadeias de hotéis com grande desconto). Sem falar na constatação, também feita pelo Poynter (no artigo assinado por Rick Edmonds), de edições "incrivelmente finas" que na maioria dos dias têm pouco ou nenhum anúncio pago. O USA Today tem uma equipe de 289 pessoas, a maioria das quais na sede de McLean, Virgínia (próximo a Washington, DC). O tamanho dessa redação, inimaginável para os padrões atuais da imprensa brasileira, levanta suspeita de que talvez ocorram algumas demissões. Ainda que, além do portal de internet, o USA Today também produza reportagens para jornais regionais. Uma colaboração dessa equipe investigativa do USA Today com o The Arizona Republic, ganhou o Pulitzer de 2018 com [uma série de matérias sobre a fronteira, chamada The Wall](https://www.poynter.org/reporting-editing/2018/usa-today-network-is-taking-%C2%91the-wall%C2%92-on-the-road/?ref=cesarvalente.com). Às dúvidas levantadas pelo Poynter, a publisher do USA Today, Maribel Perez Wadsworth, respondeu dizendo que "não existem planos para descontinuar a edição impressa, que continua uma parte importante do nosso negócio". E ressalta o fato de que continuam comprometidos com o jornalismo de alta qualidade enquanto avança a transformação digital. Os novos parceiros da New Media, segundo ela, também pensam da mesma forma e a combinação das duas empresas "vai transformar a paisagem, tanto nos negócios de notícias digitais quanto impressas". ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/cesar-usa.jpg) No saguão da sede do jornal, em 1992, faço pose ao lado do busto do Al Neuhart. Ele e o USA Today são como relíquias dos bons momentos que os jornais viveram nos 80 e 90 do século passado. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/bttf_usa_today_actual_prop.jpg) No filme "De Volta para o Futuro, Parte 2", aparece uma "edição" do USA Today do futuro (no distante 22 de outubro de 2015). Como tantas "previsões", não acertaram no logotipo, no número de leitores (3 bilhões), no preço (ali está 6 dólares e em 2015 o jornal custava dois), nem na Rainha Diana. No dia 22 de outubro de 2015 o verdadeiro USA Today circulou com uma "reimpressão" dessa edição cinematográfica como sobrecapa. Amanhã, no segundo capítulo da série, vamos discutir um pouco sobre o pesadelo logístico que é distribuir toneladas de papel por áreas extensas de território. ### A imprensa na Grande Florianópolis URL: https://cesarvalente.com/a-imprensa-na-grande-florianopolis/ Last updated: 2026-07-05T08:15:38.000Z ![Primeira página do jornal O Estado de 13 de março de 1962](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/oestado-1962-3-13-1.jpg) Primeira página do jornal O Estado de 13 de março de 1962 > *Este artigo foi publicado originalmente no livro “Jornalismo em Perspectiva”, organizado pela Maria José Baldessar e Rogério Christofoletti, em comemoração ao cinquentenário do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (2005), editado pelo Sindicato e pela Editora da UFSC. Republico aqui a propósito dos 40 anos que o Curso de Jornalismo da UFSC completa em 2019\. Afinal, o curso faz parte da história do jornalismo na Grande Florianópolis.* No princípio, eram os partidos políticos. Mais especificamente, na Santa Catarina da época da criação do Sindicato, o PSD (Partido Social Democrático) e a UDN (União Democrática Nacional). Os jornais e as emissoras de rádio em Florianópolis eram conhecidos por serem “de propriedade” de uma ou de outra corrente política. A rádio Guarujá e o jornal “O Estado” elogiavam quem era simpático ao PSD e expunham as mazelas dos adversários. A mesma coisa, só que com o sinal inverso, faziam a rádio Diário da Manhã e o jornal “A Gazeta”, da UDN. E era um jogo, de certa forma, às claras: todos sabiam que se quisessem encontrar críticas aos Ramos teriam que ler o jornal da UDN. E para saber o que estavam dizendo dos Bornhausen era só ler o jornal do PSD. Simples assim. Os jornalistas, redatores daqueles textos rebuscados que invariavelmente iniciavam com um longo “nariz de cera”, eram tamb ém partidários. Amigos e apadrinhados das principais personalidades políticas de cada clã. Por décadas a imprensa da capital de Santa Catarina viveu essa rotina provinciana. Uma espécie de serviço de alto-falantes dos principais partidos ou coligações. ![Primeira página do jornal A Gazeta, de 26 de abril de 1964](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/agazeta-1964.jpg) Primeira página do jornal A Gazeta, de 26 de abril de 1964 Os jornais eram mantidos em estado de indigência tecnológica pela falta de ambição comercial. Ninguém parecia interessado em ganhar dinheiro com jornais ou em buscar mais leitores com algumas inovações já disponíveis em outras capitais brasileiras: bastava que cumprissem seu papel de arautos dos partidos. As notícias, ora, as notícias eram copiadas do repórter Esso, da Rádio Nacional do Rio, ditadas pela fonte ou ainda recortadas de jornais de fora e publicadas no dia seguinte. A pequena cidade, ainda que capital de estado, não tinha a pressa de hoje. Em 1956, o jornal “O Estado” iniciou um lento e longo processo de modernização, ao comprar uma segunda linotipo. Em 1957, instalou uma rotoplana, impressora mais moderna e rápida que a prensa tipográfica anterior e instalou uma clicheria. Já podia produzir suas próprias fotos e ilustrações. Paschoal Pitsica contou, numa entrevista a Apolinário Ternes (“A Notícia”, 1996), que o diretor Rubens de Arruda Ramos e o gerente Domingos de Aquino, animados com os novos equipamentos, resolveram criar, em 1958, um Suplemento Dominical “cultural e social” em “O Estado ”. Paschoal e seu irmão Nicolau foram encarregados da parte cultural e Zury Machado fazia a coluna social. Foi uma espécie de “primavera de Praga” que durou um ano, fez grande sucesso e reuniu colaborações dos principais nomes da época. A justificativa para o fechamento do suplemento foi a necessidade de economizar. A crise financeira, que a essa altura é um personagem novo, depois irá se instalar confortavelmente e tomar parte em todos os movimentos da imprensa florianopolitana. Enquanto “O Estado”, de tempos em tempos comprava uma ou outra máquina nova, os demais jornais permaneciam onde sempre estiveram ou regrediam. O “Diário da Tarde” fechou e “A Gazeta ” continuava, mas sem novidades. Essa polarização PSD/UDN durou mais ou menos até a década de 70\. A extinção dos partidos pelo Ato Institucional nº 2, em 1965, certamente contribuiu para que as coisas mudassem ou pelo menos se tornassem menos evidentes e preponderantes. Em 1964, o jornal “O Estado” já era de propriedade do ex-governador Aderbal Ramos da Silva. Quando Rubens de Arruda Ramos deixa a direção, o jornal fica sob a responsabilidade de José Matusalém Comelli, jovem genro do “Doutor Aderbal”. Além dos filhos de Rubens (Sérgio da Costa Ramos que desde os 14 anos de idade convivia com o jornal e Paulo da Costa Ramos), Comelli cercou-se de outros jovens, como Marcílio Medeiros Filho, Raul Caldas Filho, Mauro Júlio Amorim e Luiz Henrique Tancredo. E o jornal “O Estado” continuava sua lenta e segura trajetória de mudanças. O lançamento do “Jornal de Santa Catarina”, em Blumenau, em 1971, foi um terremoto jornalístico cuja onda de choque chegou a Florianópolis com toda a força. Não só porque Nestor Fedrizzi (jornalista gaúcho responsável, com João Aveline, pelo sucesso da “Última Hora” em Porto Alegre) levou para Blumenau jornalistas da melhor qualidade, uma rotina jornalística profissional e nova tecnologia de impressão, mas também porque, antes mesmo do lançamento, começou a montar uma grande sucursal na capital. Ayrton Kanitz lembra que, ao chegar a Florianópolis em 1970, trazido de São Paulo por Nestor Fedrizzi, com a tarefa de montar a sucursal do Santa (como é chamado o jornal de Blumenau) foi muito bem recebido por Adolfo Zigelli, um radialista de prestígio que embora apaixonado por Florianópolis e defensor das tradições locais, não hostilizou os recém-chegados e os ajudou de inúmeras formas, mesmo antes de tornar-se colunista do jornal. O Santa foi lançado em 22 de setembro de 1971, composto a frio e impresso em rotativa off-set. Com um projeto editorial moderno e competitivo. Todos os demais jornais tinham composição a quente (com linotipos) ou manual (com tipos móveis) e impressão direta plana ou no máximo rotoplana (matriz plana e entintador rotativo). O jornal “O Estado” foi, de certa forma, surpreendido pela iniciativa do Santa. José Matusalém Comelli conta que a moderniza ção de “O Estado” estava sendo pensada e planejada, mas ainda não tinha sido feito qualquer processo de compra ou importação de equipamentos, procedimentos excessivamente burocratizados e que, em geral, demoravam mais de um ano. Mesmo assim, oito meses depois, em maio de 1972, o jornal “O Estado” estreava sua nova sede, na rua Felipe Schmidt, com equipamentos semelhantes aos do concorrente de Blumenau. Um jornal totalmente renovado, gráfica e editorialmente. Para fazê-lo, trouxe parte da equipe que lançara o Santa, acrescentando alguns jornalistas gaúchos recém-chegados e poucos locais. “O Estado”, na verdade, foi beneficiado pelo acaso. Em meados de 1971, Jorge Daux (então proprietário da rede de cinemas da capital) procurou Comelli para apresentá-lo a um deputado paranaense que estava vendendo o equipamento que “O Estado” precisava. O amigo de Daux, do grupo de apoio do então governador paranaense Haroldo Leon Peres, importara todo o maquinário para instalar um jornal em Maringá. As máquinas tinham acabado de chegar e, enquanto ainda estavam nos portos de Santos e Paranaguá, o governador deixou o cargo (Peres renunciou em setembro de 1971, após sete meses de mandato, num episódio até hoje obscuro). Diante disso, o dono do jornal achou melhor não lançá-lo e saiu em busca de compradores para as máquinas. Portanto, havia todo um sistema de composição a frio IBM e uma rotativa off-set Goss, com todos os demais equipamentos complementares à venda, em portos brasileiros. Praticamente pronta entrega. Foi por isso que, em tempo recorde, “O Estado” conseguiu renovar-se, surpreendendo a todos. Não eram só os jornais que mudavam. O jornalista florianopolitano também nunca mais foi o mesmo. A imprensa, como um todo, estava em processo de mudança. ![Redação de O Estado em 1976](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/red-estado76-1.jpg) Redação de O Estado, em 1976, na sede da Felipe Schmidt. No rádio, Adolfo Zigelli conseguia, com o Vanguarda, completar uma das histórias profissionais mais interessantes: o garoto engajado nas lides da UDN em Joaçaba, locutor de rádio do partido, trazido para Florianópolis para continuar a atuar politicamente, tanto no serviço de imprensa do Palácio quanto na rádio da UDN, percebe o momento histórico e acaba ganhando credibilidade com uma atuação focada na defesa da cidade e de seus valores que come çavam a desaparecer (como a até hoje injustificada demolição do Miramar). O Vanguarda não era um programa da UDN e não tinha o ranço político-partidário que caracterizou o passado do mesmo Zigelli, mas não deixava também de ter a visão política básica dos dessa corrente, só que numa linguagem moderna. Vale lembrar que, nessa época, a UDN estava unida ao PSD na Aliança Renovadora Nacional — Arena –, o partido-frente que se opunha ao MDB, o outro partido-frente do sistema bipartidário, mais à esquerda. Em 1972, Florianópolis estava “cheia” de jornalistas gaúchos, na sucursal do Santa e no jornal “O Estado”. E não eram quaisquer jornalistas: Ayrton Kanitz. JB Scalco, Elaine Borges, Mário Medaglia, Jorge Escosteguy, Nei Duclós, Virson Olderbaun, por exemplo, poderiam, como de fato alguns fizeram, trabalhar em qualquer lugar do mundo. Não era um fato isolado, porque as redações dos principais veículos, no Rio e em São Paulo também estavam “cheias” de gaúchos talentosos. Em março de 1972, com 19 anos, eu estava entre os jornalistas catarinenses que compunham a redação, na nova etapa de “O Estado”. Naturalmente, os postos principais nas principais editorias eram ocupados pelos “gaúchos”. Eles eram os jornalistas experientes. Nós éramos os iniciantes. Ocupava uma vaga de redator no Caderno 2, editado pelo Paulo da Costa Ramos. O choque cultural e profissional era ao mesmo tempo assustador e estimulante. O Jorge Escosteguy (falecido em 1996), grande jornalista que depois tornou-se nacionalmente conhecido e respeitado, era uma esfinge arrogante aos olhos curiosos dos locais. Ele desenhava e diagramava as páginas que editava, traduzia os telegramas das agências internacionais, trabalhava sem descanso e sem levar a sério aquele bando de provincianos que circundava o grande centro do saber. Tinha vindo diretamente de Porto Alegre, sem ter passado pelo Santa. E eu, sem maiores responsabilidades do que dar texto final a matérias culturais, muitas delas traduzidas de revistas estrangeiras, achava tudo muito divertido. E ainda me pagavam para participar daquela festa. Mas o melhor estava por vir. Em outubro de 1972, de repente, literalmente de uma hora para a outra, os “gaúchos” foram embora. No meio da tarde, nós, os remanescentes e inexperientes catarinas, fomos chamados a assumir todas as funções do jornal que tinham ficado desguarnecidas. Tivemos que arrebentar a caixa preta a marretadas. Aprender a fazer tudo o que ainda não tínhamos aprendido, para poder manter o jornal circulando. Tomamo-nos de brios e ninguém mais falou em ir pra casa, jantar, descansar. Eu, pelo menos, fiquei dois dias inteiros no jornal. A primeira edição que fizemos chegou às bancas perto do meio-dia (não lembro se antes ou depois), mas chegou. A segunda, um pouco mais cedo. Provamos, para nós mesmos e para o mundo, que éramos capazes de baixar um jornal, mesmo sem os “gaúchos”. A gota d’água que provocou a saída daquela turma, vista a esta distância, parece mesmo apenas uma gota (uma discussão menor sobre funções e atribuições). Mas a conjuntura na qual o incidente ocorreu era mais ampla. Havia um conflito latente sobre como conduzir o jornal “O Estado”: de um lado, os jornalistas que tinham sido criados num ambiente empresarial mais profissional (Porto Alegre, àquela altura, tinha cinco ou seis jornais, alguns de grande qualidade jornalística) e do outro os dirigentes do jornal, responsáveis pela implantação de uma mudança que, embora radical, tinha menos de um ano de vida. Parecia que o ritmo dos locais que estavam se esforçando para modernizar a imprensa provinciana e o de quem tinha vindo de fora com o mesmo objetivo não estava sintonizado, favorecendo os atritos. Muitos dos jornalistas que vieram de outros estados naquela época, acabaram ficando na cidade até hoje. E os principais jornalistas locais, também naquela época, foram, por maior ou menor tempo, correspondentes de publicações de outros estados: Sérgio da Costa Ramos (“Veja”), Marcílio Medeiros Filho (“Jornal do Brasil”), Antônio Kowalsky (“O Globo”), Raul Caldas Filho (“Manchete ”), Vânio Bossle (“Folha de S. Paulo”), José Carlos Soares, o Zico (“O Estado de S. Paulo”) e Silva Jr. (“Correio do Povo”). A década de 70 é um marco importante na imprensa florianopolitana. E um marco fundamental para o jornalismo catarinense. Essa injeção de profissionalismo nas práticas semi-amadoras do jornalismo ilhéu foi, a meu ver, o principal fato jornalístico destes 50 anos. Agitou o ambiente, provocou discussões, estimulou o aperfeiçoamento. A cidade não foi mais a mesma, todos fomos, de uma ou outra forma, influenciados. Depois da “debandada” dos “gaúchos”, o jornal “O Estado” começou a recompor sua equipe tomando mais cuidado para não ficar tão dependente de grupos de profissionais. Trouxeram uns de São Paulo, outros do Paraná e mais alguns foram recrutados em Florianópolis mesmo. Com uma sucursal grande e ativa na capital, o “Jornal de Santa Catarina” continuava, ao longo da década de 70, como o concorrente mais importante de “O Estado”. O surgimento dos jornais do grupo Diários Associados, movimentou o mercado, mas não chegou a ameaçar de fato os líderes. Em 1977, com redação em Florianópolis, foram lançados três jornais: o “Diário de Notícias”, que circulava na Grande Florianópolis, “A Nação”, em Blumenau e o “Jornal de Joinville”. Nos três, o miolo era igual, mudando apenas a capa, para inserção das matérias dos correspondentes de cada um dos locais. Também nesse ano, houve uma tentativa de reativação do jornal “A Gazeta”. Reforçou a redação, melhorou a cobertura, mas continuava a ser impresso tipograficamente. Sem dispor da qualidade do off-set, as fotos e ilustrações perdiam em qualidade. A experiência durou pouco tempo. A partir desse impulso inicial e talvez estimulados pelo ambiente de renovação, Florianópolis viu surgir muitos veículos, com maior ou menor sucesso e variado tempo de vida. Entre eles, por exemplo, o “Jornal da Semana”, “Afinal”, “A Ponte” e o “Vento Sul”. Outro jornal que teve uma trajetória importante na cidade foi o “Bom Dia, Domingo”. Tratava-se de um “Shopping News”, semanário de distribuição gratuita, com grande espaço para anúncios. Lançado em fevereiro de 1975, foi uma idéia de Luiz Daux, empresário da construção civil, que teve a participação do irmão, George Daux, de Nestor Fedrizzi (o mesmo que criou o Santa) e de José Joaquim de Souza. Teve, entre seus editores, além do próprio Fedrizzi, Valdir Zwetsch, Luiz Lanzetta e Flávio de Sturdze. Durante boa parte da sua vida, teve uma circulação de cerca de 20 mil exemplares. Não sobreviveu ao início da década de 80. Passado o furacão (tsunami, tornado, ciclone… por favor, escolham o chavão preferido para nomear as mudanças na primeira metade da década de 70), a cidade estava posta em sossego, deliciando-se com as novidades. Beto Stodieck dava às colunas sociais uma nova roupagem, na trilha aberta por Zózimo Barroso do Amaral, no JB, tratando sem frescuras tanto de amenidades quanto de fatos políticos, dando opinião e lançando sobre a província e seus hábitos um olhar crítico, maroto e bem humorado. Durante os primeiros anos da década, Zigelli, assim como Ayrton Kanitz, eram contrários à criação de um curso de Jornalismo em Florianópolis. Acreditavam que ainda não havia, na cidade, empresas jornalísticas em número e qualidade suficientes. Seria mais útil cursar Jornalismo em cidades como Porto Alegre ou São Paulo e depois voltar para exercer a profissão com uma visão mais aberta e atualizada. Em 1978, o grupo de trabalho liderado pelo jornalista Moacir Pereira chegou à conclusão contrária, elaborou o projeto do curso em poucos meses, o MEC autorizou e no vestibular de 1979 foram colocadas à disposição as primeiras 40 vagas. O curso de Jornalismo da UFSC acabaria se destacando entre os demais cursos brasileiros. Suas inovações e contribuições ajudaram a colocar Florianópolis no mapa do ensino do jornalismo no País. A abertura da concorrência para o segundo canal de televisão em VHF de Florianópolis agitou o empresariado local e das cidades e estados vizinhos, numa movimentação que provavelmente a maioria da população e mesmo dos jornalistas nem tenha percebido. Mas seu desenrolar definiu o perfil e o futuro da imprensa nesta pequena ilha do sul do Brasil. Estamos em plena ditadura (ainda que num processo “lento e seguro” de distenção), o presidente é o general Ernesto Geisel e os governadores, indicados sem voto popular, têm grande participa ção no processo, sempre político, de concessão de canais de TV. José Matusalém Comelli foi, portanto, ao governador Antônio Carlos Konder Reis informar que liderava um grupo que pretendia disputar o canal. O governador, conta Comelli, disse que achava “muito justo que o jornal “O Estado” tenha um canal de TV, da mesma forma que o “Jornal de Santa Catarina” tem a TV Coligadas”. Maurício Sirotsky, dono da TV Gaúcha e do jornal “Zero Hora”, em Porto Alegre, também está interessado. Propõe sociedade a Comelli e ao ex-governador Aderbal Ramos da Silva. A minuta do contrato chega a ser redigida. Mas a pressão contra essa aliança com os “estrangeiros” cresce. Imaginavam os opositores da sociedade, que numa disputa com um pretendente de outro estado, o governador tomaria partido dos locais. Comelli e Aderbal recuam e Sirotsky decide entrar na disputa sem sócios. Em 1977, a TV Catarinense é outorgada à RBS (Rede Brasil Sul), de Sirotsky, com as bênçãos de Antônio Carlos Konder Reis. A televisão entra no ar em 1979, retransmitindo a programação da Globo, que anteriormente era exclusividade da TV Coligadas. O jornal “O Estado” continua sem um canal de TV, mas o principal concorrente, o “Jornal de Santa Catarina”, também estava sem a sua TV, que fora vendida em 1975 para o grupo paranaense de Mário Petrelli. Essa disputa mexe profundamente com as empresas de comunicação de Florianópolis. As que perderam saíram desgastadas e a ganhadora chega ao estado com o poderosíssimo trunfo que é a Rede Globo e seu quase monopólio de faturamento comercial. Assim como a chegada do off-set e das novas práticas profissionais foi importante para os jornalistas e para o jornalismo, a disputa pelo segundo canal de TV em Florianópolis foi decisiva para as empresas. Na noite de 12 de abril de 1980, um sábado, caiu um avião da Transbrasil no morro dos Ratones, próximo à sede do jornal “O Estado” e já era madrugada quando o local foi alcançado pela polícia e pela Aeronáutica. Às 8 horas da manhã de domingo, todos os jornalistas e funcionários de O Estado tinham voluntariamente chegado à redação para trabalhar. Muitos chegaram ainda no sábado à noite e vários, como os fotógrafos, passaram a madrugada no local do acidente. O jornal fez três edições extras. Como reconhecimento ao fato de todos terem aparecido, foi publicado, em cada uma das edições, um expediente especial com a nominata completa. “Tinha até o nome do vigia, que escalou o morro para buscar os filmes e trazer para revelar”, conta, emocionado, Osmar Schlindwein. Muitos jornalistas, entre os quais me incluía, tinham o sentimento que a profissionalização e a paixão pela profissão precisavam ser acompanhadas pelo Sindicato. Começou, então, uma longa luta para colocar no Sindicato dos Jornalistas uma diretoria mais sintonizada com os novos tempos. Para estimular a sindicalização (sem a qual não haveria votos), e fazer campanha, foi criado o Movimento de Oposição Sindical, que teve ampla adesão em todo o estado. O MOS atingiu seu objetivo com a posse, em 1987, da diretoria presidida por Celso Vicenzi. A RBS iniciou a década de 80 retomando as conversas com José Matusalém Comelli, desta vez para comprar ou associar-se ao jornal “O Estado”. Novamente, a decisão acabou sofrendo a influência de muitos grupos de pressão. Em geral amigos, empresários, pol íticos, que viam na venda de “O Estado” uma espécie de rendição ao “inimigo”. Comelli conta isso com uma certa mágoa, talvez porque depois não tenha visto, naqueles que pressionaram para que o negócio não fosse feito, grande empenho para ajudar o jornal a sobreviver. Sem negócio com “O Estado”, a RBS decide lançar seu próprio jornal. Armando Burd, o jornalista escalado para fazer as primeiras sondagens e ajudar na formatação do projeto, chega à cidade em 1984 e começa as conversas com jornalistas. Após dois anos de estudos, o “Diário Catarinense” é lançado em 1986\. A RBS-TV, a cavaleiro da programação da Globo, lidera a audiência e garante o suporte financeiro para a empreitada. O “Jornal de Santa Catarina”, em 1985, foi vendido para o empresário Nilton Reis, que resolveu reforçar sua circulação em Florianópolis, ampliando a sucursal. Tirou, de “O Estado”, colunistas e jornalistas e levou, também, uma das personalidades mais versáteis do jornalismo da capital: Osmar Schlindwein. Osmar começou cedo, naquele “O Estado” da rua Conselheiro Mafra, cujo gerente era Domingos de Aquino, não por acaso seu tio. Envolveu-se de tal maneira com a manufatura dos jornais, que não se pode delimitar exatamente o que o Osmar faz, fez ou fazia. Lembro-me dele sujo de tinta, nas oficinas tipográficas de “O Estado”, em 1970\. Mas também lembro dele colocando ordem na composição eletrônica do jornal, anos mais tarde. Já o vi dirigindo o comercial. Mas também fazia as vezes de gerente de recursos humanos, apaziguando ânimos. E certamente muitos o viram prestando consultoria a seus próprios chefes. Não é repórter, mas sabe quando uma matéria está bem escrita e quando o repórter é apenas um enrolão. Osmar lembra que estava no Santa quando o jornal bateu o recorde catarinense de tiragem, até hoje não superado: 102 mil exemplares da edição extra com a tabela da Sunab do plano Cruzado, em 1986\. A tabela não era exclusiva, a estatal EBN (Empresa Brasileira de Notícias) distribuiu para todos os seus escritórios, em todos os estados. Bastava ir lá buscar e publicar. Só que nenhum outro jornal, em Santa Catarina, deu-se conta da importância e do apelo popular desse material. Uma vez publicada a edição extra, a população literalmente foi às ruas para comprar a lista. Fui editor-chefe de “O Estado” de 1988 a 1989\. Com a ajuda do Flávio de Sturdze, trouxe para o “mais antigo” vários jornalistas que estavam se destacando no nascente “Diário Catarinense ”, para reforçar a equipe. E, naturalmente, fiz questão que o jornal recontratasse o Osmar Schlindwein. Achei que poderíamos fazer uma boa dupla, para dar um susto na concorrência. Nessa época “O Estado” ainda circulava na maioria dos municípios e sua venda, tanto em bancas quanto de assinaturas (chegava, aos domingos, a cerca de 30 mil exemplares), o colocava como principal concorrente do DC, que ainda não podia ser considerado “líder”. A equipe viveu, em “O Estado”, grande emoções: tanto lá quanto cá havia gente capaz de produzir um bom jornal. E sempre que fazíamos alguma cobertura melhor que o concorrente, enchíamo-nos de justificado orgulho. Emocionados com o elementar e saud ável efeito da disputa pelo leitor. Ao completar 80 anos, em 1995, O Estado publicou um caderno comemorativo com 76 páginas bem recheadas de anúncios, ainda em formato standard. Uma demonstração de vitalidade que parece difícil de se repetir. Acuado pela crise, o jornal hoje só circula na Grande Florianópolis, mudou para o formato tablóide e raramente tem edições com mais de 16 páginas. O interesse por economia e negócios cresce no país todo e em Florianópolis surgem duas revistas especializadas, a “Express ão” (1990) e a “Empreendedor” (1993), que existem até hoje e circulam também em outros estados. Em 1995, o grupo que publica o “Indústria & Comércio” em Curitiba, lançou aqui um jornal com o mesmo nome. Montou uma redação local para editar algumas páginas e utilizava material do jornal paranaense para fechar as demais páginas. A impressão era em Curitiba. Inicialmente parecia promissor, porque montou uma equipe de grande qualidade (com jornalistas como Flávio de Sturdze e Belmiro Southier, por exemplo). Mas não chegou a completar quatro anos. Assim como a sucursal do “Jornal de Santa Catarina” teve papel importante no jornalismo da capital, o crescimento do jornal “A Notícia”, de Joinville, impresso em off-set a partir de 1980, levou-o a instalar-se em Florianópolis, com uma sucursal que tamb ém passou a fazer parte do mercado profissional, como um dos projetos mais estáveis e bem sucedidos. Além de fornecer material para o jornal principal, editado em Joinville, a sucursal edita um caderno, o “ANCapital”, que circula com o reparte da Grande Florianópolis. Toda essa movimentação profissional e empresarial, que trouxe tantas mudanças e afetou de tantas maneiras o jornalismo da capital, não se refletiu na melhoria do padrão salarial. As empresas justificam os baixos salários com a crise, ora local, ora estadual, ora nacional, ora mundial. Na verdade, não houve crescimento do número de leitores e a verba publicitária gerada pela economia da Capital não parece suficiente para manter os veículos. E os salários, como conseqüência, não são suficientes nem para remunerar um trabalho com tal responsabilidade e nem para dar aos jornalistas uma vida digna. Para agravar a situação, nos últimos anos surgiram, em muitos bairros, semanários que institucionalizam a picaretagem: as “reportagens ” só são publicadas se os interessados pagarem. Isso leva o leitor a desacreditar dos jornais e a desconfiar que seja assim em todo lugar. E, o que é pior, a achar que isso é jornalismo. # Agradecimentos *Em dezembro de 2004 e janeiro de 2005 conversei com alguns dos participantes dessa história, que me ajudaram a confirmar muitos detalhes e informações. A eles o meu agradecimento (e desculpas, por condensar num capítulo tantos casos e lembranças, que valeriam um livro inteiro): Ayrton Kanitz, Elaine Borges, Flávio de Sturdze, José Matusalém Comelli, Marcílio Medeiros Filho, Mário Medaglia e Osmar Schlindwein.* ### Os jornais e o jornalismo URL: https://cesarvalente.com/os-jornais-e-o-jornalismo/ Last updated: 2026-07-05T08:15:40.000Z O anúncio, em 2019, do final das edições impressas dos quatro jornais da NSC (Diário Catarinense, A Notícia, Jornal de Santa Catarina e Hora de Santa Catarina), não surpreendeu. Imagino que todos os que acompanham essa indústria sabiam que isso aconteceria, só não sabiam exatamente a data. Na [nota divulgada](https://www.nsccomunicacao.com.br/imprensa/nsc-amplia-forca-no-digital-e%E2%80%AFreformula%E2%80%AFedicao-impressa/?ref=cesarvalente.com) se informa que, no lugar dos jornais impressos, circulará uma revista semanal. E que o conteúdo jornalístico factual será produzido para as plataformas online. Para os assinantes, foi enviada [uma carta com conteúdo semelhante.](https://www.nsccomunicacao.com.br/imprensa/assinante-este-recado-e-pra-voce/?ref=cesarvalente.com) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/40anos_nsc.jpg) Logo da NSC Comunicação, com o selo de 40 anos. Para tristeza dos otimistas, não há nada, na nota, que signifique novidade ou demonstre algum esforço para romper a tendência de desvalorização do jornalismo. A crise dos impressos é coisa do passado, para os veículos que a entenderam e que perceberam que, ao mesmo tempo em que as formas de financiamento dos jornais estavam em crise, o jornalismo estava em ebulição. Nunca houve tanta demanda por informação e nunca as informações bem apuradas, exclusivas, produzidas com correção, foram tão necessárias. A informação é um bem de primeira necessidade em qualquer lugar e em qualquer época. Mas a crise é permanente para os veículos que acham que há também uma crise do jornalismo e tentam encontrar saídas reduzindo pessoal e banalizando o conteúdo. ### CAÇA-NÍQUEIS & CAÇA-CLIQUES Portanto, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa: ok, imprimir em papel e distribuir diariamente um jornal perdeu sentido, mas é preciso lidar com essa mudança de plataforma procurando não prejudicar o essencial, que é a produção de conteúdo jornalístico. Porque o que tem valor, não se enganem, é a informação. Bom, mas os jornais (ou pelo menos a maioria deles), viu a crise como um tropeço econômico e tenta, sem criatividade, manter apenas um espaço nominalmente informativo, onde procuram faturar de qualquer maneira. E reduzem custos eliminando jornalistas e principalmente renunciando, abdicando, da tarefa de informar. Esqueceram que um dia foram empresas jornalísticas. Assim como acreditam que conseguirão sobreviver com redações minúsculas, acreditam que, se desistirem de qualquer viés crítico, se se distanciarem da tarefa implícita ao jornalismo, que é fiscalizar o poder público, cairão nas boas graças dos poderosos e receberão algumas verbinhas, como agradecimento pela sabujice. Não é bem assim que funciona. E os exemplos têm sido numerosos. Muitos veículos que ocupam a internet com o rótulo de "jornais" ou "revistas", são picaretagens que por um lado se submetem ao asqueroso esquema caça-cliques, que pretende atrair cliques com jogos de palavras e "hashtags" de duvidosa "precisão científica" e por outro vendem a alma a quem quiser comprar. E deixaram de ser jornalísticos. Perderam a credibilidade. Jogaram no lixo seu principal diferencial: o jornalismo. Os limites saudáveis entre o comercial e o editorial foram abolidos há muito tempo. E o que se lê e vê, Brasil afora, é uma maçaroca composta, prioritariamente, por materiais produzidos pelas assessorias de imprensa e divulgados acriticamente. Porque, para muitos "veículos" não existe mais compromisso com a informação própria, independente, jornalística. Ao contrário. ### “MUITA OPINIÃO” Ao ler a nota da NSC algumas coisas me chamaram a atenção. Ali se diz que as revistas (que, até onde entendi, será apenas uma, com pouca coisa diferente em cada uma das três marcas principais) terão "conteúdo aprofundado". E como exemplo desse "aprofundamento", citam a parceria com o New York Times "e muita opinião". ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/nota-nsc.jpg) Trecho na nota da NSC, com destaques feitos por mim. Sim, tudo o que precisamos, hoje, no Brasil, é "muita opinião". E o que não faltam são colaboradores dispostos a dar sua opinião de graça. Ou até pagando para distribuir sua sabedoria. E defender seus pontos de vista a partir das últimas que leram no whatsapp. É bom ter material do The New York Times. Mas por que não trazer também, do NYT, o exemplo de como fazer a transição do impresso pro digital, valorizando o conteúdo jornalístico? Com jornalistas, mais jornalistas, melhores jornalistas? E, aí sim, entregar conteúdo mais aprofundado, no sentido jornalístico: com mais informação, melhor apuração e pautas mais relevantes para as comunidades onde a revista circula. > **IMPRESSSÃO A QUENTE?** Sim, fiquei curioso: o que seria isso de *"páginas internas com impressão a quente"*? Estudo a história da indústria gráfica e os processos de impressão há bastante tempo e não consigo imaginar o que seja. Quando se fala em "impressão a quente" logo vem à mente o "hotstamp", que é o processo de imprimir uma tinta metalizada, uma espécie de carimbo a quente. Mas não serve para imprimir o miolo de revistas. Outra forma de imprimir em que o calor entra, é a impressão a laser. Um rolo aquecido funde o pó (toner) sobre o papel. É possível fazer revistas com impressão a laser, mas só é viável economicamente para tiragens pequenas. Ou para impressão sob demanda, de conteúdos customizados. A impressão de revistas, até onde sei, é feita a frio, em off-set ou rotogravura. Vou aguardar as explicações. Vai que encontraram um sistema que ainda não conheço. Para atrair o leitor, claro, tem sorteio de prêmios. Se por acaso ficar insatisfeito com o volume e a qualidade da informação que recebe, sempre terá, como consolo, a possibilidade de ser sorteado e ganhar, talvez, um ingresso para um show. Ou uma viagem. Vejam bem: é importante atrair leitores, é importante ter assinantes, até para financiar o jornalismo. Não acho que oferecer prêmios ou ter um programa de "milhas" seja ruim. É um complemento que pode ser útil para tentar quebrar a inércia dos leitores, que se recusam a pagar pela informação online (compravam o jornal de papel na banca sem problema, mas quando se trata de pagar pelo jornal na tela, resistem). Mas não acredito que o leitor que realmente interessa, o formador de opinião, vá recomendar ou falar bem do jornal só porque tem um "número da sorte". Então é isso. Boa sorte para os que sobreviveram ao passaralho e tomara que em algum momento a NSC resolva voltar a investir no jornalismo. Desculpem o textão escrito meio às pressas, mas achei importante compartilhar essas caraminholas. ### O jornalista e o mercado de trabalho URL: https://cesarvalente.com/jornalista-mercado-de-trabalho/ Last updated: 2026-07-05T08:15:45.000Z *Texto lido (em parte) na* [aula inaugural do Curso de Jornalismo da UFSC](https://noticias.ufsc.br/2009/04/curso-de-jornalismo-da-ufsc-completa-30-anos/?ref=cesarvalente.com)*, em 30 de março de 2009, como parte da comemoração dos 30 anos de criação do Curso. Em 2021 o Curso completou 42 anos de fundação.* ![Mesa com convidados, na solenidade dos 30 anos.](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/mesa-2009.jpg) A mesa com os convidados especiais para a aula inaugural. Da esquerda: Paulo Brito, Cesar Valente, Orlando Tambosi, Moacir Pereira e Maria Elena Hermosilla. Foto Paulo Noronha/Acervo Agecom/UFSC. Uma das manias mais chatas que os velhos jornalistas têm, é a de achar que os novos jornalistas querem ouvi-los ou pelo menos conhecer suas experiências. Isso tem levado vários de nós, anciãos, às universidades e faculdades, para fazer de conta que somos professores, na ilusão de ter algo a ensinar ou de encontrar quem queira “aprender”. Outros, quando ainda nas redações, dão discursos ao redor da mesa do cafezinho, com maior ou menor sucesso. Às vezes, a rodinha se desfaz rapidamente, às vezes a turma fica por ali, como se realmente estivesse interessada no que o velho jornalista fala. O fato é que aquela lenda urbana, segundo a qual jornalismo se aprende fazendo, não se sustenta. Primeiro, porque as redações estão tão “enxutas” que ninguém tem tempo de conversar trivialidades, quanto mais de fazer transmissão de tecnologia e vivências. Depois, porque há cada vez menos jornalistas experientes (ou velhos, como queiram), nas redações. Boa parte da minha formação jornalística deu-se, ou se consolidou, em mesas de bar. Não que o álcool ou as frituras tenham algo a ver com isso, mas pelo simples fato que, depois do expediente, os velhos e os moços iam para o mesmo lugar: o botequim mais próximo da redação. E a conversa invariavelmente passava pelos bastidores e meandros do exercício profissional. Só depois, bem mais tarde, é que se jogava conversa fora. Hoje, na irreal suposição que ainda houvesse gente de cabelos brancos nas redações, à noite há uma divisão clara de destinos: a moçadinha não freqüenta mais botequins. Vai pra balada, pra “night”. Mesmo porque os bares clássicos, na esteira dos velhos jornalistas, estão desaparecendo rapidamente. Os poucos jovens remanescentes que ainda teriam prazer em compartilhar uma didática e proveitosa noitada em torno de algumas cervejas ou chopes, ganham tão mal que não podem se dar a esse “luxo”. Só se for uma vez por mês, no dia em que sai o pagamento. E olhe lá. Mas, como vocês já perceberam que eu sou um velho jornalista, permitam-me que aproveite o fato de ter uma platéia e continue fazendo o que geralmente os velhos jornalistas fazem: falar sobre a nossa profissão. --- Não sei se ando mal informado, mas acho que muito pouco se tem escrito para os coitados dos estudantes de Jornalismo, depois da decisão da juíza que odeia jornalistas, acabando com a regulamentação profissional. E depois das outras idas e vindas legais, que vão culminar com a decisão do Supremo Tribunal Federal, depois de amanhã ou qualquer outro dia, sobre a questão. O fato é que hoje ninguém pode afirmar com certeza se o jornalismo é uma profissão regulamentada ou não. Neste minuto é, mas daqui a pouco poderá não ser mais. > *Atualização: em junho de 2009 o STF “desregulamentou” completamente a profissão de jornalista, ao entender que “é inconstitucional a exigência do diploma de jornalismo e registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício da profissão de jornalista”. Não é preciso nem registro nem qualquer nível de escolaridade para exercer as funções outrora reservadas a jornalistas profissionais.* Imagina só: montoeiras de jovens estão, neste momento, no meio de um curso que prepara (ou deveria preparar) para exercer uma profissão que virou pó e que o vento sul está levando para o alto mar tal e qual aquele padre pendurado nos balões. Podemos também imaginar, só para ilustrar e dar maior dramaticidade, que eu tivesse sido convidado para paraninfar alguma das milhares de turmas de formandos de Jornalismo em algum dos inúmeros cursos, de todos os tipos, qualidades e tamanhos que abundam no País. O que diria? O que poderia dizer? Acho que começaria pedindo desculpas, em meu nome e de tantos companheiros, por sempre ter dado a impressão que esta era uma profissão divertida, fascinante e apaixonante. Se nós todos, que habitamos as redações durante tantos anos, tivéssemos tido um comportamento mais contido, talvez os jovens não tivessem sido atraídos para essa arapuca. ![Cesar Valente, em 2009](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/cv-2009.jpg) Eu, na solenidade de 2009\. Foto Paulo Noronha/Acervo Agecom/UFSC Continuaria a fase de penitência comentando como nos arrependemos de ter desafiado alguns poderosos, revelado alguns segredos e com isso feito crescer a lenda de que nesta profissão a gente faz isso todos os dias. E ajudado a construir mentiras que têm sido repetidas à exaustão: que somos paladinos da justiça, cavaleiros do bem e da verdade, defensores dos pobres e oprimidos. Talvez o erro mais grave tenha sido mesmo silenciar sempre que, em público, alguém fazia a clássica confusão entre jornalistas e empresas jornalísticas, falando num ente chamado “imprensa” como se estivesse sendo claro e preciso. Um exemplo: há coisa mais ambígua e cheia de subtextos que expressões como “liberdade de imprensa”? É preciso dizer que, se os corretores de imóveis sentem necessidade de preparar-se melhor, se já estão falando até em exigir curso superior para permitir que alguém tenha sua autorização do Creci para servir de intermediário em negócios imobiliários, é porque nem tudo está perdido. Pode ser que, depois de compreendida a necessidade do estudo e do treinamento para mais umas dez ou vinte profissões, finalmente alguém volte a entender que o jornalista também deveria saber, pelo menos, escrever dois parágrafos sem cometer vinte ou trinta erros. E que o jornalista deveria saber captar as informações e relatá-las sem aumentar um ponto, sem distorcer o sentido, sem transformar tudo numa confusa maçaroca de gerúndios, super gerúndios, adjetivos bajulatórios e informações incompletas. --- A discussão sobre a regulamentação da profissão de jornalista é antiga e constante. Parece que nunca houve consenso sobre isso. Lembro que em 1979, quando participava do grupo que montava o projeto do Curso de Jornalismo da UFSC (liderado pelo Moacir Pereira e na companhia do Paulo Brito e dos professores Celestino Sachet e Aurora Goulart), pensava e dizia que a gente tinha que fazer um curso que fosse útil e necessário mesmo depois da abolição da exigência do diploma. Portanto, há 30 anos já se falava, como se fala agora, que o diploma, para os jornalistas é exigência descabida, que estabelecer algum tipo de regulamento para que se exerça a profissão é bobagem. Ouço a frase “não é o diploma que faz o jornalista” desde que comecei a dizer, na redação de O Estado, em 1972, que pretendia fazer o curso de Jornalismo. Lembro de uma conversa que tive com o editor, Sérgio da Costa Ramos, sobre isso. Tinha contado que ia fazer vestibular de jornalismo na PUC, em Porto Alegre. E ele comentou que era tempo perdido. Se eu continuasse a trabalhar no jornal, dali a quatro anos estaria melhor do que estaria ao voltar com o diploma. Na época os jornalistas, em boa parte, tinham cursado Direito. Anos mais tarde, já na década de 90, era o editor encarregado dos suplementos especiais (chamados lá de Relatórios) da Gazeta Mercantil e fui chamado pelo Diretor de Redação, Mário Almeida, para levar à prática um programa de trainees para o jornal. A partir da idéia dele, instalei o programa e o coordenei por três anos. Era basicamente um processo de seleção que oferecia, para os 30 melhor colocados, a oportunidade de freqüentar um curso de um mês, na sede da Gazeta, em São Paulo. Ao final do curso, devidamente avaliados e classificados, recebiam um certificado e eram chamados à medida em que se abriam vagas no jornal. O Diretor, assim como toda a cúpula editorial do jornal, tinham enormes restrições aos jornalistas formados. O próprio Mário era um engenheiro químico, formado pela Politécnica. E dizia que eu não deveria privilegiar, na seleção, os alunos de jornalismo. Dizia isso às vezes brincando, às vezes a sério, porque sabia que eu tinha sido professor de Jornalismo (aliás, um dos motivos pelos quais fui escolhido para tocar o projeto). As inscrições eram feitas no segundo semestre, em agosto ou setembro, e o curso era em janeiro. Tivemos de mil a quase três mil inscritos por ano. Em sua maioria, naturalmente, recém-formados de cursos de Jornalismo. E ao me envolver nas várias etapas da seleção (cujo passo inicial era um texto de 15 linhas que, surpreendentemente, eliminava centenas, por não conseguirem se expressar sem erros mesmo em tão poucas frases), comecei a perceber como é deficiente a formação que os jornalistas recebem na maioria das escolas. Acabei, se não concordando, pelo menos entendendo melhor aquelas restrições que os colegas faziam aos jornalistas formados. Tem gente muito, muito, muito ruim com diploma de jornalista. A reserva de mercado cria uma excrescência: o sujeito acha que lhe basta o diploma para exercer a profissão. E as escolas acham que não importa muito o nível do ensino, desde que ao final forneçam um diploma. E não é bem assim. Mas no jornalismo brasileiro não existe um órgão que se preocupe com o exercício profissional. Uma OAB, um Crea, um CRM. Nem as más escolas nem os maus profissionais correm qualquer risco. E o jornalismo, como tantas outras profissões, exige, além da formação acadêmica, boa cultura geral e aquilo que própria ou impropriamente se chama de “vocação”. Tive, entre os trainees da Gazeta, gente formada em Engenharia, em Economia, em Letras e mesmo em Jornalismo, que se destacou. No momento em que não se leva em conta o diploma, mas apenas se avalia o que a pessoa sabe fazer, pode fazer e seu potencial para determinada atividade, vê-se que nem todos os formados em jornalismo estão bem preparados. Havia, nos formados de outros cursos que se destacaram, um componente fundamental: a vontade de ser jornalista. Isso fez com que eles, além do que aprenderam na escola, aprimorassem a escrita, lessem muito e se interessassem sobre as técnicas do jornalismo. Como queriam entrar numa área que não lhes era “reservada”, se esforçaram bastante. Esse esforço e a centelha que leva a isso faziam falta naqueles que tinham o diploma que lhes “garantia o mercado”. A maioria parecia acomodada, conformada ou apenas confiante que não precisava nada mais do que a escola (mal e mal) lhes deu. Por outro lado, no dia-a-dia de uma redação se a gente, como editor, recebe na equipe um colega que não passou por uma escola, ou que teve uma formação deficiente, sofre bastante. Como disse no começo, as redações não são mais como aquelas confrarias de antigamente, onde havia tempo até para orientar, ensinar e aconselhar os mais jovens. As equipes hoje são enxutas, o trabalho é muito e o normal é que o profissional permaneça muito tempo sabendo apenas aquilo que já sabia quando chegou. No máximo adquire alguns cacoetes novos, automatiza seus procedimentos e, se era medíocre, mantém-se medíocre. Não é à toa que em países onde o diploma específico não é obrigatório para o exercício profissional, existam excelentes escolas de jornalismo e os bons alunos sempre encontram boas colocações. As melhores empresas, que valorizam a qualidade, sempre vão preferir alguém que saiba o bê-á-bá. Custa muito caro, em tempo e dinheiro, formar internamente um profissional. Nos programas de trainee, como esse da Gazeta que eu coordenei, ainda que o diploma de jornalista não seja decisivo, a formação superior e o conhecimento das ferramentas básicas são fundamentais. E quando falo em ferramenta básica é claro que não estou me referindo ao uso do computador, ao conhecimento de softwares ou de normas de redação. Falo de entender a conjuntura, de saber contar uma história, de reconhecer uma notícia, de estar antenado, de cultura geral (política, história, literatura, economia, geografia, matemática, química, física, etc.). E o mais importante: a desregulamentação pura e simples da profissão de jornalista não beneficia o leitor, o espectador, o consumidor de informação jornalística. Não há, na proposta, qualquer preocupação com a qualidade da profissão ou do profissional. Claro que a má qualidade das escolas é usada como argumento, mas no Direito e na Medicina também há um número absurdamente grande de escolas abaixo da média. A qualidade do ensino profissional é outra questão. O que se pretende é liberar os empregadores das amarras e desorganizar uma corporação profissional que nem é assim tão unida e aguerrida. Claro que algumas conquistas dos jornalistas incomodam profundamente as empresas: o limite de cinco horas diárias, por exemplo. A insistência em que as empresas de rádio e TV tenham jornalistas (não sei por que, eles preferem ter apenas funcionários ligados ao sindicato dos radialistas). E uma independência, às vezes incômoda, que um profissional de nível superior e cioso do seu ofício tem. Como numa fábrica de tamancos do século retrasado, o mau patrão gosta de ter, sobre todos os seus funcionários, controle integral. Isso de que não se briga com o fato, que se é notícia deve ser publicada, não cola. O sonho desses mercenários que mantém veículos de comunicação (com todas as honrosas exceções de praxe) é chegar ao nível de descomplicação da extinta revista Metrópole e outras tantas, ainda em circulação. Pagou, entrou. E só se publica o que a pessoa quer que publique, pagando ou não. Não tem rolo, não tem discussão. E o faturamento tá garantido. E o que pode significar o final da regulamentação profissional dos jornalistas para o leitor, o telespectador? É provável que ninguém note a diferença. Há muito tempo as emissoras de rádio e de TV vêem driblando a exigência de curso de jornalismo para exercer funções reservadas a jornalistas: criaram outros nomes para as funções e colocam nelas radialistas ou outro tipo de não jornalistas. Nos grandes jornais, a exigência do diploma é vista como uma interferência indevida no direito que as empresas têm, de empregar quem eles bem entenderem. Na verdade, ninguém está preocupado com o cerceamento da liberdade de expressão. Esta é uma bobagem que é dita aqui e ali, para sensibilizar os idiotas. Mesmo com a legislação atual, qualquer pessoa pode escrever, remuneradamente ou não, nos jornais. Extinguir a regulamentação profissional não abrirá mercado de trabalho, não abrirá novos canais de expressão, não aliviará em nada a vida daqueles que acham que não têm voz. Mas, é claro, dará um refresco para as empresas, que não precisarão mais pagar piso salarial, não terão obrigação de respeitar limite de horas trabalhadas (hoje são cinco horas, com acréscimo de no máximo duas horas). E deixarão de ter, pegando nos seus pés, alguns sindicatos pentelhos que ficam cobrando direitos trabalhistas que constam da regulamentação profissional. --- ![O auditório do CCE.](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/img_3536-1.jpg) O auditório do CCE estava bem cheio. Foto do Paulo Noronha/Acervo Agecom/UFSC. Bom, mas vamos deixar de lado essa questão do diploma. O mercado de trabalho não se organiza a partir de reservas de mercado. Ele se organiza a partir de necessidades concretas das empresas e dos indivíduos. E os profissionais não devem construir suas carreiras dormindo o sono dos justos sob ou sobre seus diplomas. Precisam desenvolver suas melhores habilidades e ir à luta, oferecendo soluções para problemas. No nosso caso, para problemas de comunicação. A Lauren Drablier comentou há alguns meses, no The Editors Weblog, blogue do Forum Mundial de Editores, artigo publicado na Examiner, sobre o futuro do emprego (ou do trabalho) em jornalismo. > “A grande questão é como o jornalista vai se virar, num ambiente em que o jornalismo está em ebulição e crescimento e os jornais não.” Segundo o artigo (de John Kirch), os jornalistas precisam aprender não só a ouvir as fontes, mas também a escrever as notícias para diferentes plataformas de mídia e, além disso, entender os princípios básicos da economia e dos negócios, para poderem colocar-se no mercado. “Vender” sua força de trabalho. Os jornalistas vão precisar “vender-se” continuamente (*continuously market themselves*) para múltiplas organizações noticiosas, em vez de ficar trabalhando o tempo todo para uma única empresa. Amar Bakshi, um repórter e cinegrafista do Washingtonpost.com, diz que “o que é legal na web… é que você pode desenvolver uma marca própria, para que as pessoas o acompanhem”. Kevin Blaickistone, um redator de esportes e professor na faculdade de jornalismo de Maryland acredita que “o jornalismo não está morto. O jornalismo está vivo e passa muito bem. Eu diria mesmo que o jornalismo está florescendo”. E eu, cá do meu canto nesta bela ilha no Sul do mundo, acrescentaria que o jornalista de países cuja língua não é o inglês, além de ter que aprender a lidar com uma vida profissional cada vez mais “free” e saber contar suas histórias por diversos canais, terá que — obrigatoriamente — saber, no mínimo, ler inglês. A internet, que nos permite acesso instantâneo a tudo o que esteja sendo publicado de importante no mundo, perde muito da sua amplitude se a gente não consegue saber do que estão falando. E, se for esperar por alguma tradução, perdeu o bonde da história. Outra coisa: aquela história de economia globalizada não é um troço abstrato e distante. A economia globalizou-se mesmo. Inclusive no jornalismo. Não é raro aparecerem clientes estrangeiros pedindo matérias sobre o Brasil, ou sobre Florianópolis. Isso é uma oportunidade de trabalho para jornalistas que morem por aqui e que consigam expressar-se em inglês. No mínimo para trocar e-mails, conversar no skype, negociar preços e pautas. O texto final até pode ser entregue a um tradutor profissional para ficar bonitinho. Mas o dia-a-dia exige um traquejo que vai muito além da antiga habilidade de chegar numa empresa e perguntar: “tem vaga pra jornalista?” Para vocês terem uma idéia de como o mercado perdeu essa face organizada, de trabalho regular com carteira assinada, até 2001, “viver de frila” não era uma opção profissional para os jornalistas, em São Paulo. Fazer “frila” (trabalho sem vínculo empregatício) era uma coisa esporádica, para reforçar o orçamento ou nas poucas semanas vagas entre um emprego e outro. Depois da implosão da Gazeta Mercantil e da reformulação da política de pessoal dos demais jornais, com enxugamento das redações e redução salarial, é mais fácil encontrar colegas “vivendo de frila” do que empregados. O mais interessante é que, em muitos casos, o “frila” é para as mesmas empresas jornalísticas que antes contratavam esses profissionais. Elas têm, agora, no seu quadro de colaboradores, além dos empregados regulares (cada vez menos), alguns prestadores de serviços (jornalistas contratados como pessoas jurídicas) e vários “frilas” (cada vez mais). --- E neste novo mundo, onde estão as oportunidades? O que é preciso conhecer e saber para não ficar pra trás? Ora, a primeira coisa é perceber que não existe mais o jornalista que só transmite suas informações por um canal ou um veículo. Deixou de ser relevante se a matéria será para revista, jornal, rádio, internet, TV ou podcast. Mas é cada vez mais importante que a informação seja bem apurada, correta, realmente original e completa. A única coisa que tem valor, em qualquer veículo de comunicação, é a informação. A notícia. E será mais valiosa quanto melhor apurada. A gente pode saber se a reportagem será boa ou ruim mesmo antes dela ser escrita. Basta conversar com o repórter. Se ele souber tudo a respeito do assunto que foi investigar, inclusive detalhes importantes que amadores distraídos ou jornalistas incompetentes geralmente “esquecem” e souber contar a história em poucas palavras, sabendo do que está falando, então teremos uma boa matéria. Mesmo que ele, ou ela, acabe não fazendo um texto brilhante, se tem as informações essenciais, um editor habilidoso consegue consertar o texto. Mas, se faltam informações, não tem quem salve a matéria. Fica uma coisa capenga, daquelas que afugentam o leitor ali pela altura da terceira linha. Quando vocês forem a um prédio, de onde caiu um operário, tentem ver o local onde ele estava, por onde andou, procurem entender o que aconteceu, conversem com todo mundo, informem-se de tudo. Detalhes da roupa, do que estava fazendo, o martelo que ficou no chão, o prego pela metade, a marca da botina na poeira, a marmita num canto, a idade, a família, a trajetória de vida. Tudo. Os mais pragmáticos dirão: “vai ser uma nota curta, não cabe tudo isso!” E os mais experientes dirão: mesmo pra gente escrever uma frase sobre alguém, é preciso saber tudo a respeito. E quanto mais se sabe, mais fácil fica para sintetizar, resumir. Jornalismo é, em essência, um trabalho de tradução. A gente vai à esquina onde o caminhão tombou em nome dos 40 mil leitores do jornal, que não podem ir até ali ver o que aconteceu. E depois temos de contar tudo o que conseguimos saber. De tal forma e com tal competência, que o leitor sinta-se transportado até o local e experimente as mesmas sensações que sentiria se tivesse ido até lá. É uma enorme responsabilidade. Uma nobre e dificílima tarefa que não pode ser tratada com leviandade. Quando estiverem colhendo informações para uma reportagem, imaginem que logo mais vocês terão que ir para o centro de um estádio, pegar um microfone e explicar, bem direitinho e sem enrolar, para 40 mil pessoas, o que aconteceu. Imagina esquecer um nome, uma circunstância, a hora, a data, o local? É vaia na certa. A vaia, no caso do jornal, é silenciosa, mas fatal: o leitor deixa de comprar o seu exemplar diário. Ou, o que é pior, acaba achando que jornalista é tudo a mesma bosta. --- Há quem defenda que o jornalista deveria ter formação específica em direito ou em economia, ou mesmo em história, para poder “cobrir” adequadamente as diversas áreas. Eu discordo. O jornalista precisa ser um tradutor experimentado. Precisa desenvolver o talento de entender a situação, compreender o que lhe explicam, perguntar o que não entendeu. E, a seguir, contar o caso em linguagem acessível, que seja entendida por uma ampla camada da população, mantendo o rigor e a precisão, para que a informação não se deteriore. Essa dupla habilidade (entender e contar) é uma técnica que pode ser estudada e aperfeiçoada e se corretamente aprendida, permitirá que o jornalista não tenha dificuldade para relatar, com apuro, o que viu numa guerra, ou num tribunal, num laboratório ou numa delegacia. E seja um profissional requisitado, qualquer que seja a tecnologia que usará para contar sua história. Bom, já sentiram que, se ninguém me fizer parar, ficarei aqui a tarde toda, falando sobre tudo e quase nada. Vocês já devem saber que tudo é uma questão de tempo. E no caso da regulamentação profissional dos jornalistas, o tempo está nublado, sujeito a chuvas e trovoadas. Mas, como aprenderam os catarinenses de várias regiões, em várias épocas, por pior que seja a enchente e o desastre, é preciso limpar rapidamente o lodo e a lama porque daqui a pouco o sol volta e a gente não quer que os vizinhos pensem que a gente é relaxado. Não vai ser só porque caiu o céu e o rio subiu 20 metros matando gente e animais, que vamos deixar de ter uma roseira no jardim, uma grama aparadinha e o chão enceradinho e brilhante. Nada como um dia depois do outro. Boa sorte a todos e muito obrigado. ![Maria Elena Hermosilla](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/img_3582.jpg) A grande Maria Elena Hermosilla, durante a sua palestra, na mesma solenidade. Foto Paulo Noronha/Acervo Agecom/UFSC. ### Amizades e política, uma questão de caráter URL: https://cesarvalente.com/amizades-e-politica-uma-questao-de-carater/ Last updated: 2026-07-05T08:15:47.000Z Resolvi enfrentar essa questão “você termina amizades por causa da política”? Essa pergunta tem sido feita frequentemente no Brasil. Isso, ao que parece, surge depois que as redes sociais se popularizaram e a gente passou a poder, com alguns cliques, deixar de seguir, bloquear, eliminar, manter distância, de “amigos” (e, principalmente, parentes), cujos posts, compartilhamentos e posições sejam contrários ao que a gente pensa, acredita e quer ler, ver ou ouvir. E gente que foi bloqueada, xingada ou preterida, acaba perguntando se é justo que tal coisa ocorra “apenas” por causa de opiniões políticas divergentes. De fato, é preciso respeitar as diversas crenças, opiniões, modos de encarar a vida, mesmo os muito variados estilos de vida, preferências e fetiches. Mas, cá entre nós, tem uma coisa que eu não consigo relevar, perdoar, assimilar ou aceitar como passível de uma convivência plural e tolerante: a falta de caráter. Caráter no sentido de índole, gênio, dignidade. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/hand-784077_1920.jpg) #### “AIN, MAS ELE FAZ ALGUMA COISAS BOAS” Tentarei deixar muito claro o que penso. Digamos que o tosco® que vocês elegeram para a presidência, conseguisse fazer algumas coisas boas. Que alguma das propostas dele não fosse apenas de desmanche, destruição e aniquilação, mas tivesse um conteúdo aceitável por quem espera que a humanidade evolua e pare de regredir. Pois bem, mesmo assim, eu seria “do contra”, um adversário, um crítico, um murrinha. O problema do tosco®, para mim, não é só a falta de programa, de projetos, de ações efetivas. É o caráter. Desse tipo de criatura não quero nada, exceto distância. Não reclamo dele porque ele só diz bobagem e faz besteira. Reclamo dele por ele ser quem é. Um ser desprezível, sem empatia, sem caráter, cujo maior interesse é o ódio e a morte. Não existe nada, nada, nada nesse mundo que uma criatura como essa faça, que possa me fazer ter, por ele e por sua laia, alguma simpatia. Não se trata de política, de preferência partidária, de simpatia ou antipatia: o sujeito não se enquadra naquilo que aprendi ser civilizado. É uma pústula que tenta se disfarçar de político, mas de político não tem nada. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/puppets-113056_1920.jpg) #### “AIN, MAS TERMINAS AMIZADES POR CAUSA DE POLÍTICA?” Claro que não. Tenho amigos comunistas, tenho amigos do PT, tenho amigos católicos, tenho amigos evangélicos, tenho até amigos a quem critico publicamente por terem opiniões políticas das quais divirjo. A política é a arte da conversa, da discussão, do debate, do bate-boca (que é muito saudável, apesar de certa imprensa ter meio que demonizado essa troca de ideias acalorada). Converso com meu amigo Aloízio Amorim, que é conservador e direitista até a medula, que defende tudo o que eu abomino. Mas é coerente. Foi um dos primeiros a expor, nas redes sociais, sua posição, isso quando ainda era moda puxar o saco do PT e incensar os lulistas. Bato boca com ele no seu QG (o shopping Beiramar), mas não sou seu inimigo. Agora, tem uma turma que nunca se preocupou com política, não tem a menor ideia da história política do país, mas se abraçou ao tosco® e sua família e, da campanha pra cá, resolveu que eles são o que há. E defendem a falta de caráter, a desonestidade, a corrupção (mesmo dizendo combater a corrupção dos governos anteriores), como se a famiglia fosse imaculada e enviada pelos deuses para salvar a pátria amada. Do quê? Ah, do comunismo, que eles não têm ideia do que seja, nem do que representa, papagaios que repetem o que lhes mandam. Essa gente não merece atenção. São capachos cegos e surdos de um esquema que não entendem e para cuja gravidade não atentam. A quadrilha que se apossou do poder, no Brasil, não tem caráter, nem projeto para o país. Fazer parte do esquema é ruim, mas apoiá-lo e seguí-lo acriticamente é ainda pior. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/anti-fascism-156037.png) #### “MAS ERA PRECISO FAZER ALGUMA COISA!” “Ain, mas eles querem melhorar a educação, acabar com a pouca vergonha que são nossas universidades”. Que coisa mais canalha! Primeiro, não querem melhorar nada. Querem cancelar, deletar, acabar, fechar, reduzir, extinguir, sem o compromisso básico de colocar alguma outra coisa no lugar. Diga aí, qual é a proposta desse “governo” para substituir as universidades como auxiliares importantes na pesquisa e desenvolvimento da indústria nacional? Claro, isso de “indústria nacional” não está nos planos da corja “nacionalista” que assumiu o poder. Criar patentes, desenvolver inovações, aperfeiçoar soluções não pode ser coisa que a colônia faça. Eles assumiram, entre outras tarefas, para retirar do Brasil essa possibilidade de ser uma nação independente em termos de pesquisa e desenvolvimento. E se dizem “nacionalistas” e enchem a boca para falar em “soberania”. Caralho! (perdão pelo calão). Um Estado soberano não entrega suas riquezas a potências estrangeiras. Um Estado soberano tenta colocar-se, diante do mundo, como uma entidade que deve ser respeitada e que não pode ser invadida por quem lhe dê contas coloridas de vidro e alguns espelhinhos. O petróleo já foi, os minérios da Amazônia estão em vias de serem leiloados, o sinistro do “Meio Ambiente” reune-se, em segredo, com os maiores predadores internacionais, imagino, para garantir que aqui não terão obstáculos. Prostitutas baratas, trocam por centavos o que os compradores tratarão de revender por milhões. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/achieve-1822503_1920.jpg) #### NÃO QUERO “AMIZADE” COM ESSA GENTE Então, espero ter deixado claro o que penso: não quero amizade com essa gente. Não se trata de romper amizades por política. A política não tem nada a ver com isso. Eles, e quem os defende, não são políticos, são gente sem caráter, canalhas, imbecis. A política é outra coisa. Tenho enormes divergências e críticas a quem é de direita. Mas é um direito que todos temos, de abraçar visões diferentes do mundo e da organização social humana. O que não temos direito, é de ser contra a civilização, a humanidade, defender o ódio, a tortura, a morte e a escravidão (física ou moral). Esses não fazem isso porque tenham alguma posição “política”, fazem porque não são gente, não merecem atenção e devem ser retirados do convívio social. Dar-lhes a oportunidade de se manifestar ou, pior, a oportunidade de concorrer a cargos públicos, como ocorreu no Brasil, é sintoma de instituições adoecidas, enfraquecidas e dominadas por gente doente e fraca. Pra terminar: sempre que algum imbecil vier com a história de “ain, mas educação é uma palavra ideologizada”, podem ter certeza: ele/ela quer impor sua ideologia, eliminando o pensamento e as ideias que teme, porque sabe que não pode contestar racionalmente. Resta-lhes o garrote vil, a câmara de gás e o paredão. Fora a força bruta, a tortura, a censura e as prisões, não conseguirão se impor, porque ninguém, em sã consciência, quer ser aliar a vermes sem caráter. --- Imagens colhidas no [pixabay.com](https://pixabay.com/?ref=cesarvalente.com) ### Precisamos falar sobre o Moacir URL: https://cesarvalente.com/precisamos-falar-sobre-o-moacir/ Last updated: 2026-07-05T08:15:53.000Z ***Não concordo com o Moacir Pereira, mas ainda acho que merece respeito.*** > Sou amigo do Moacir Pereira desde a década de 1970\. Acompanhei, às vezes mais à distância, às vezes mais de perto, sua carreira. Ajudei em atividades do sindicato que ele presidia. Fiz a capa e o prefácio do seu primeiro livro. Participei com ele, há 40 anos, da fundação do Curso de Jornalismo da UFSC. Sucedi-o como coordenador do curso. Fomos colegas no jornal O Estado. Embora não tenhamos convivido muito tenho, com ele, uma relação de lealdade profissional. Por isso, e a partir disso, é que decidi escrever este texto. Desde 2016 tenho notado que o jornalista Moacir Pereira mudou. Ao que tudo indica, deliberadamente. A mudança, para quem o conhecia antes, tem ficado clara na forma como aborda temas da política nas suas colunas e comentários. Não se trata de uma mudança de posição ou algum movimento inesperado no espectro político. É mais, a meu ver, uma mudança no tom. Ao radicalizar ideologicamente o discurso surpreende quem, como eu, o acompanha desde o século passado. Em setembro de 2016 enviei um email para o meu amigo Moacir Pereira, dizendo o que pensava sobre essa nova faceta “militante radical” que ele começava a mostrar em notas e compartilhamentos. Ele respondeu agradecendo os comentários, justificando sua posição e, a certa altura, escreveu: “Assumi riscos conscientemente, porque não é hora de omissão. Muito ao contrário”. Em dezembro de 2016 voltei a escrever para ele, em privado, sobre os problemas que via nessa “nova fase”. E desde então não voltei ao assunto. Fizemos algumas tentativas de um almoço ou café, para trocar ideias, mas ficou por isso mesmo. Até ontem (17/9/19), quando arranjamos tempo para conversar um pouco. E pude, mais uma vez, dar a minha opinião sobre como ele vem conduzindo a carreira e, principalmente, ouvir suas justificativas e explicações. E contei a ele que iria escrever uma coisa do tipo “Precisamos falar sobre o Moacir Pereira”. ![Cesar, Paulo Brito e Moacir Pereira](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/almoco-moacir-18-4-09-080.jpg) Moacir (à direita), com Paulo Brito ao centro e este que vos fala. Em abril de 2009, numa reunião de colegas e alunos do curso de jornalismo da UFSC, na casa do Moacir, na Lagoa da Conceição. Pessoalmente, não vejo grandes diferenças entre o jovem Moacir, que presidiu o Sindicato dos Jornalistas e depois fundou o Curso de Jornalismo da UFSC e o Moacir de cabelos brancos com quem conversei ontem. Mas, no que ele tem publicado, é evidente que está levando ao pé da letra aquela opção de “não se omitir”, de certa forma reagindo, indignado, ao que ele chama da “radicalização do discurso da esquerda”. O fato é que, mesmo discordando do rumo que ele deu a essa “nova fase” e tendo uma visão diferente sobre a política nacional, não posso reduzir, ou relativizar, a importância que o Moacir Pereira tem para o jornalismo catarinense. E, por paradoxal que possa parecer, **não estou tão preocupado com o que o Moacir pensa hoje, quanto com o que pensam, hoje, do papel histórico do Moacir, os nossos colegas.** ![Moacir no Mercado, em Fpolis.](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/dsc01567.jpg) Moacir com seu inseparável bloquinho de notas Por isso fico apreensivo quando vejo que muitos, irritados ou inconformados com o que o Moacir vem publicando, já não escondem o que pensam dele. Esse tipo de reação pode levar muitos, que o conhecem pouco ou só o conheceram na “nova fase”, a achar que ele é apenas isso. Alguns o classificam, publicamente, como porta-voz de uma corrente, de um grupo, de uma facção, sem distanciamento para fazer qualquer análise mais abrangente, com textos escritos com o desejo de aniquilar o “inimigo”, compartilhando notas do whatsapp sem qualquer preocupação jornalística sobre a veracidade ou correção do que é dito, como se fosse algum militante. A meu ver não é bem assim, mas também não me parece uma avaliação totalmente incorreta. Embora esse confronto esteja adequado ao climão que se instalou no País, não ajuda em nada a entender melhor o que está acontecendo ao nosso redor. A avaliação que o Moacir faz das ações radicais, da presença numerosa e da influência hegemônica do que ele chama de “esquerda” em tantos espaços (em especial na área de humanidades das universidades) está na gênese do tom que ele tem dado a várias de suas notas. Eu acho que é uma visão exagerada e, em muitos aspectos, equivocada, mas não se pode negar a ele o direito de expressar sua opinião. Não acho justo rotular o Moacir Pereira disto ou daquilo, usando como medida apenas as publicações recentes. Por isso, sinto-me no dever de recuperar um pouco da memória do jornalismo, e do ensino do jornalismo, para mostrar por que continuo respeitando o Moacir Pereira. Respeito-o por sua história, mesmo que discorde da forma e do tom com que ele resolveu conduzir sua carreira de uns tempos para cá. ### “A trajetória marcada pela ditadura militar” ***Liberdade e direito à informação, os temas iniciais*** ![Capa do livro Teoria da Comunicação](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/capa-822225.jpg) Capa do livro que publicou textos dos pesquisadores premiados Em 2004 o Antônio Hohlfeldt e a Maria Cristina Gobbi reuniram num livro, sob o título **“Teoria da Comunicação: Antologia de Pesquisadores Brasileiros”**, textos e resumos biográficos dos pesquisadores que tinham, até ali, sido destacados com o [Prêmio Luiz Beltrão](http://www.portalintercom.org.br/premios%5Fnew/luiz-beltrao/luiz-beltrao-apresentacao?ref=cesarvalente.com), iniciativa anual da [Intercom](http://www.portalintercom.org.br/?ref=cesarvalente.com) (Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação). Moacir Pereira era um desses premiados. O livro foi publicado pela editora [Sulina](https://www.editorasulina.com.br/detalhes.php?id=407&ref=cesarvalente.com). Maria Isabel Amphilo, doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, fez a resenha do livro organizado por Hohlfeldt e Gobbi e nela aparece aquele Moacir Pereira que tinha sido presidente do Sindicato dos Jornalistas e criador do Curso de Jornalismo da UFSC: > *“A trajetória desses pesquisadores brasileiros é *marcada pela ditadura militar* e a instalação do AI-5\. Os três primeiros livros de Moacir Pereira abordam a temática da “liberdade” e o “direito e a informação”. Sua formação possibilitou bases sólidas para a elaboração do “direito à informação”. Para Marques de Melo, dois de seus livros merecem destaque especial: “*O golpe do silêncio*” (1984) e “*O direito à informação na nova lei de imprensa*”(1993), no primeiro Moacir Pereira trata da censura imposta e no segundo, da democratização da comunicação. Temas de suma importância numa realidade de repressão e, além disso, de um país que sofre de um analfabetismo grave, onde o rádio e a televisão tornam-se os meios de maior alcance à grande massa da população.”* Tanto Marques de Melo, amigo, conselheiro e uma espécie de tutor do Moacir no período de criação do curso de Jornalismo da UFSC, quanto Luiz Beltrão, que deu nome ao prêmio, não eram figuras benquistas pela ditadura militar. E isso não parecia, na época, incomodar Moacir Pereira. Beltrão sofreu uma “cassação branca”. Sua tese de doutorado, defendida em 1967, não pode ser publicada na íntegra naquela época. “Nem mesmo o título de doutor foi imediatamente concedido ao pesquisador. Só em 1971, o livro intitulado ‘Comunicação e Folclore’ foi publicado sem a parte teórica, uma vez que foi considerada subversiva”, informa-nos o artigo “A primeira Teoria da Comunicação genuinamente brasileira: o legado de Luiz Beltrão” (de Carmen Amorin e Ferraz Lima, Janine Marques Passini Lucht e Maria Isabel Amphilo R. Souza). Marques de Melo, falecido em junho de 2018, iniciou sua carreira acadêmica como assistente de Luiz Beltrão e em 1973 tornou-se o primeiro doutor em Jornalismo do Brasil. De 1974 a 1979, durante o regime militar, esteve impedido de exercer a docência em universidades públicas brasileiras. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/7021384535_0ea6c78e09_o.jpg) Da esquerda: Ricardo Rosado de Holanda, José Marques de Melo, Jerusa Pires Ferreira e Carlos Eduardo Lins da Silva, no V Ciclo de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), em 1982\. Acervo Intercom. E Marques de Melo não foi o único intelectual “de esquerda” com quem Moacir conviveu ou conversou, nessa época. Aquele Moacir era, sem dúvida, um colega aberto ao diálogo, que respeitava e era respeitado. No texto que apresenta o livro sobre os pesquisadores premiados, no site da editora Sulina, está a descrição da estrutura da obra: > *“Pela primeira vez, em um só volume, tem-se um conjunto de ensaios, ou excertos de ensaios, que abarcam quatro diferentes gerações de pesquisadores brasileiros, boa parte dos quais já com repercussão em toda América Latina. Mais que isso, cada texto vem seguido de um pequeno ensaio bio-bibliográfico, o que, igualmente, se concretiza pela primeira vez entre nós. Para cada autor, um discípulo seu foi escolhido: a este coube o ensaio a respeito da obra e a seleção do texto ou fragmento apresentado.”* Para minha surpresa, e honra, Moacir me convidou para fazer o ensaio “bio-bibliográfico” sobre ele, que acabou mais biográfico que bibliográfico. E o republico a seguir, sempre lembrando que foi escrito em 2004\. Até cheguei a pensar em atualizá-lo, mas fiz apenas pequenos ajustes. Prefiro manter, no essencial, a lembrança daquele Moacir que sabia conversar com quem tinha ideias opostas às suas, que procurava checar as informações que divulgava e que convivia com marxistas, petistas, comunistas, militares, maçons e agnósticos, sem estresse. O texto abaixo expressa, com sinceridade e sem elogios gratuitos, como eu via aquele Moacir de 2004 e tenta mostrar o papel relevante que ele teve no jornalismo catarinense. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/img_2367.jpg) Da esquerda: Paulo da Costa Ramos, Nelson Wedekin, Moacir Pereira e Remi Fontana, por ocasião de um almoço, em setembro de 2014, na casa do Wedekin. ### As múltiplas trajetórias de Moacir Pereira ***O resumo biográfico publicado no livro de Hohlfeldt e Gobbi*** A primeira pergunta que deve ser feita, para começar qualquer conversa sobre o Moacir Pereira é: de qual deles estamos tratando? Sim, porque esse irrequieto colega aventurou-se por muitas trajetórias, simultaneamente. Construiu várias carreiras ao mesmo tempo. Não é próprio do Moacir Pereira aquele hábito pacato, que tantos temos, de fazer uma coisa de cada vez e cada coisa a seu tempo, com calma e vagar. Portanto, para entender Moacir Pereira é preciso, antes de qualquer coisa, saber que, na verdade, ele não é um só. São muitos, todos ao mesmo tempo. Senão vejamos: – Existe o **professor Moacir Pereira**, a quem devemos a criação e a instalação do curso de Jornalismo da UFSC. De auxiliar de ensino, em 1970, a professor adjunto, cumpriu todas as etapas de uma vida dedicada à Universidade Federal de Santa Catarina, até se aposentar, em 1995\. Lecionou principalmente disciplinas relacionadas à Legislação e à Deontologia do Jornalismo. – Existe o **repórter Moacir Pereira**. Começou no rádio em 1965 e depois fez jornal, TV e revista. Já no início desta carreira, fez parte da equipe do programa Vanguarda, liderada pelo lendário Adolfo Zigelli. O jovem repórter de voz agradável e dicção caprichada começava a ser conhecido profissionalmente junto aos nomes mais respeitados do rádio catarinense. Continua repórter até hoje, embora publicando matérias mais esporadicamente. – Existe o **acadêmico Moacir Pereira**, autor de vários livros, mestre e doutor. Trafega entre o direito e o jornalismo e na maior parte do tempo costura uma adequada junção entre as duas disciplinas. Uma carreira longa que recentemente foi premiada com a imortalidade: valeu-lhe a eleição para a Academia Catarinense de Letras. – Existe o **sindicalista Moacir Pereira**. Que foi presidente do Sindicato dos Jornalistas numa época em que uma das atividades inerentes ao cargo era tentar libertar dos porões da polícia política os colegas que de tempos em tempos eram recolhidos. E que continua em atividade, na diretoria da Associação Catarinense de Imprensa. – Existe o **Moacir Pereira colunista** e comentarista político. A intimidade com o rádio o levou a ser comentarista de televisão, atividade que complementou com uma coluna publicada nos jornais. Sim, no plural. Ele foi o primeiro a ter a coluna publicada em dois jornais estaduais simultaneamente. Hoje (2004) é possível ler Moacir Pereira em dezenas de diários. – Existe o **Moacir Pereira advogado**, formado em 1970, que exerceu algumas funções no serviço público e aposentou-se como Procurador do Estado junto ao Tribunal de Contas. E seria possível enumerar ainda umas outras tantas carreiras, mas acho que estas são suficientes para começar a entender o Moacir e como ele funciona. O primogênito do seu Manoel e da dona Hercília nasceu em Florianópolis a 10 de agosto de 1945\. A capital catarinense, na década de 50, era uma pequena cidade, pacata e muito propícia às infâncias tranqüilas, às brincadeiras alegres e saudáveis. Podemos, portanto, passar rapidamente para o momento em que, em 1965, com 20 anos, o estudante de direito começa a trabalhar como repórter noticiarista na rádio Anita Garibaldi. É um bom ponto de partida. Porque, a partir daí, a comunicação passou a ocupar o lugar de honra. E o direito aparece sempre como coadjuvante importante. #### 1\. Localização Como seria de se esperar, as diversas atividades ou profissões do Moacir Pereira são regidas por uma conduta pessoal única. Coerente e lógico, é possível entender seu trânsito pela história do jornalismo catarinense e a sua própria história, examinando alguns conceitos básicos, que podem localizá-lo no espectro ideológico e na tipificação de sua forma de agir. **A DIREITA E A ESQUERDA** — Quando Moacir Pereira começava a construir sua vida profissional, o Brasil estava embarcando na ditadura. Ou no “movimento” de 64, também chamado de “revolução”. Moacir trabalhou com Adolfo Zigelli, um militante udenista que também era radialista, que em alguns anos evoluiu, transformando-se num jornalista elogiado pela sua independência, respeitado pela equidistância com que tratava os temas políticos e aplaudido pela coragem com que enfrentava os assuntos mais delicados. O curso de Direito da UFSC, naquela época, não era conhecido como reduto do pensamento de esquerda. Ao formar-se, em 1970, Moacir Pereira já era membro da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (Adesg). Ativo, ocupou várias funções na seção catarinense da Adesg e participou como conferencista de ciclos de estudos. Definitivamente, não é o perfil de um jornalista de esquerda. Mas, e aí talvez resida um dos segredos da credibilidade e boa fama que Moacir Pereira manteve por décadas, nunca se isolou no “lado de lá”. Não por acaso, seus três primeiros livros têm **“liberdade”** no título e tratam do direito à informação. Note-se que foram publicados entre 1976 e 1979, quando ainda não era coisa banal falar sobre isso. E, ainda mais, o primeiro deles, **Comunicação e Liberdade**, foi inicialmente um trabalho apresentado justamente num dos Ciclos de Conferências da Adesg-SC. Levou um tema habitualmente tratado em rodas de esquerda ao centro onde era refinada a sustentação teórico-ideológica do sistema vigente. No Sindicato, como um dos diretores, ou a partir de 1975 como presidente, abriu as portas para os jovens colegas sem perguntar-lhes a orientação política e sem preconceitos. Chamou famosos jornalistas de esquerda, do centro do País, para palestras no Sindicato. Escreveu, assinou e entregou pessoalmente, na Assembléia Legislativa, libelos em defesa de direitos que, na época, muita gente teria e teve receio de assinar. Foi assim também quando criou o curso de Jornalismo. Aceitou sem qualquer problema os resultados dos concursos, que trouxeram para Santa Catarina, por exemplo, Daniel Herz e Maria Helena Hermosilla, estudiosos de formação marxista e que foram seguidos, mais tarde, por Adelmo Genro Filho, um importante teórico da esquerda. Respaldou, com seu prestígio institucional, com o respeito que desfrutava na Reitoria, as inovações que foram propostas e que anos depois acabariam colocando o curso entre os mais conhecidos e procurados do País. A classificação (direita, esquerda), que depois do fim da ditadura e da queda do muro de Berlim perdeu força e clareza, já era difícil de ser aplicada ao Moacir ainda na década de 70\. Não fazia segredo de suas posições, mas não era regido por elas no relacionamento com colegas que pensavam de outra maneira, aparentemente seguindo a velha e boa escola de Sobral Pinto, sintetizada na frase atribuída a Voltaire: “Discordo daquilo que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito de o dizeres”. **O FUTURO E O PASSADO** — Assim como Moacir Pereira ignorou o abismo que teoricamente deveria existir entre direita e esquerda, também atravessou, sem grande esforço, o fosso que geralmente se imagina existir entre os que já foram e os que estão chegando. O velho e o novo. Entre os, como eram chamados pelos jovens, “pelegos ultrapassados do sindicalismo de antigamente” e os auto-denominados “dinâmicos e idealistas praticantes do novo sindicalismo, inspirados nas lutas dos metalúrgicos do ABC”. Moacir Pereira fazia parte daquela turma que os jovens queriam derrubar. Era ainda um jovem, mas seu nome estava lá, na diretoria dos velhos jornalistas. Conseguiu, porém, fazer amigos do lado de cá. Não que tenha de alguma forma se bandeado ou virado casaca. Continuou leal aos velhos companheiros. Só que não se isolou nem teve medo do novo. E obteve o respeito de muitos dos jovens companheiros por ser exatamente quem é. Pode ser que a convivência com o Adolfo Zigelli, no dia-a-dia do programa Vanguarda, tenha deixado lições importantes. Como o apreço pela ousadia, pela criatividade e pelo novo. Ao transitar entre a velha ordem e a nova turma, sem receio dos rótulos e sem sentir-lhes o peso, Moacir Pereira foi ousado. Talvez esse movimento não tenha sido premeditado. Mas certamente ajudou a fazer com que seu nome profissional ganhasse novos contornos. **A PRESSA JORNALÍSTICA** — O repórter Moacir Pereira sempre ditou o ritmo dos seus demais personagens. Não há tempo a perder porque a matéria tem que estar na rua cedo e rápido, antes dos concorrentes. Nas redações da década de 70, o ruído das máquinas de escrever tangidas por datilógrafos mambembes, que usavam dois dedos, em média, era sobrepujado pela metralhadora daquele rapaz que datilografava com os dez dedos, em grande velocidade. Eu mesmo parei, uma vez, para admirar o espetáculo: no gravador, um entrevistado ia falando e, à máquina, Moacir transcrevia. Sem parar a fita. Ou pelo menos com pouquíssimas pausas. Quem já tentou alguma vez degravar uma fita sabe como esse exercício pode ser penoso. Não para ele, treinado, certamente, na rádio-escuta com que os noticiários radiofônicos da década de 60 eram feitos. Essa urgência, típica do jornalismo, esse pequeno espaço de tempo entre a apuração da notícia e sua publicação, marcam o tempo todo a produção de Moacir Pereira e suas ações, nas várias atividades. O projeto do Curso de Jornalismo, por exemplo, foi elaborado, aprovado e colocado em execução em poucos meses, bem menos de um ano. Os livros que escreveu foram, em sua maioria, livros de elaboração rápida e publicação em oportunidades precisas. Como uma reportagem, que precisa ser publicada na hora certa. E se tivermos paciência para comparar datas, os livros eram escritos e publicados sem que qualquer das outras atividades fosse interrompida. Uma campanha sindical, a participação diária em noticiários de TV, viagens a trabalho, aulas na Universidade, reuniões em inúmeras associações, colunas ou matérias em jornais faziam parte do dia-a-dia normal. Preparar um livro encaixava-se nessa rotina, como uma atividade a mais. Para completar o contexto, ainda é preciso medir o tempo entre o início de um projeto e sua publicação. Nada de anos e anos de preparação, anos e anos de elaboração, anos e anos de finalização e acabamento. Exatamente o oposto de tantos pesquisadores e intelectuais que gastam suas licenças, esgotam seus períodos de afastamento para, ao final, pedir prazos adicionais e nem sempre apresentar, como resultado, alguma obra concreta. Claro que é possível encontrar, aqui e ali, as marcas que esse ritmo de trabalho sempre deixa. Mas o sistema Moacir Pereira de fazer muita coisa ao mesmo tempo e todas muito rapidamente, tem se mostrado, no geral, eficiente. #### 2\. Resumo biográfico Melhor do que escrever um texto, seria fazer uma tabela, com várias colunas, para alinhar a série de coisas que estavam sendo feitas a cada data. Mas isso tornaria enfadonha uma vida que, até onde é possível perceber, não tem tempo para isso. Enumerar ano a ano dezenas de atividades relevantes a cada etapa, também pode resultar injustamente monótono, um castigo que nem leitores nem biografado merecem. Vamos fugir desse detalhamento, tentando encontrar apenas os pontos-chave das principais trajetórias, que possam ajudar, de alguma forma, na construção deste perfil. A meu ver esses pontos são quatro: **1.** **A formação em direito** (graduação e mestrado) ofereceu o alicerce teórico. A argumentação sobre a legalidade e legitimidade do direito à informação, construída a partir de uma linguagem técnica não marxista, foi a principal ferramenta com a qual Moacir Pereira navegou por temas delicados para a época. **2\. O envolvimento com a prática jornalística** desde os tempos de estudante foi o motor, a motivação adicional. O cotidiano do professor e do pesquisador era agitado pelo noticiário do dia, pela pressão da matéria que precisava ser fechada, pelo tom do comentário na TV, pela edição das notas que deveriam compor a coluna de jornal. E fornece o conteúdo que passa a ser examinado pelo prisma do direito. **3\. A participação sistemática e ativa nos sindicatos** e federações dos jornalistas e dos radialistas, e em tantas outras entidades associativas, tanto de comunicação (UCBC, Intercom, etc.) quanto religioso-filantrópicas (Irmandade do Senhor Jesus dos Passos, entre outras) ou leigas, demonstram um comprometimento pessoal efetivo com ações coletivas e comunitárias. **4\. O círculo virtuoso da informação**. Por participar de muitas associações, conversa e encontra muita gente, por ser colunista e comentarista de TV e jornal, precisa conversar e encontrar com muita gente para se abastecer, e ao publicar o que ouviu e observou, torna-se também alvo de quem tem interesse em dizer ou não dizer alguma coisa. E esse círculo, que se movimenta em velocidade crescente, permite que ele capte e perceba que tipo de assunto ou tópico pode ter maior repercussão e que problema aflige a maioria. Na origem de cada um de seus 18 livros, publicados num período de 27 anos (contabilizados aqui até 2004), esses quatro elementos estão presentes, com predomínio de um ou outro, dependendo do tema ou da época. Mas todos se beneficiam desse conjunto de propriedades. E são sempre livros de um jornalista. Alguns claramente livros-reportagens. Mas mesmo os de conteúdo fundamentalmente teórico, foram concebidos e surgem embalados pela oportunidade jornalística. Ao longo desses anos, como seria de se esperar numa pequena capital com menos de 400 mil habitantes, que ainda guarda e cultiva algum ranço provinciano, Moacir Pereira não fez apenas amigos e nem colhe apenas elogios. Ser bem sucedido, num ambiente como este, tem seu preço. Moacir sempre investiu todo seu tempo e esforço para ser visível e respeitado em suas múltiplas atividades e para adquirir, para si e sua família, um padrão de vida decente. Essa visibilidade, ao mesmo tempo em que coloca o homem de comunicação em sua justa dimensão, atrai a atenção e incomoda uns tantos. Esses afirmam ter encontrado, nas atividades e ações do Moacir, provas de comprometimento (com governantes, com poderosos de plantão). Mas, a pressa em acusar produz argumentos pífios. A exemplo daqueles que, na época da ditadura, brandiam as ligações de Moacir com a Adesg-SC e as boas relações com as autoridades militares, para rotulá-lo. Ora, na mesma época em que faziam isso, ele publicava, quase que ano após ano, livros que contrariavam, na essência, o *status-quo*. E discutia, diante de oficiais militares, leais ao regime que mantinha a imprensa sob censura, a necessidade da liberdade de informação. Assim o jovem bacharel e repórter, de direita, fornecia armas teóricas e argumentos políticos que indicavam o mesmo norte para o qual a esquerda também se dirigia. Portanto, não se trata de um profissional de classificação simples. Não é possível imaginar que, apenas por ter participado de tantas missões oficiais, a convite tanto do Poder Legislativo quanto do Executivo, as informações de suas colunas tenham ganho uma cobertura edulcorada, mais conveniente ou mesmo conivente. #### 3\. A voz do mestre Moacir Pereira teve e tem José Marques de Melo como sua principal referência em jornalismo e comunicação. Uma relação de décadas foi construída sobre respeito mútuo. Em setembro de 2003, quando Moacir foi empossado como titular da Cadeira nº 3 da Academia Catarinense de Letras, José Marques de Melo esteve presente e fez o discurso de onde retirei os parágrafos abaixo. Acho que fornecem algumas pistas adicionais para que possamos completar este perfil. > “Circunstâncias fortuitas me converteram em personagem maldito pelo sistema político dominante no país durante o regime militar. Processado como subversivo, acabei sendo expulso da Cátedra de Jornalismo que ocupava na Universidade de São Paulo. Incluído nas listas que os serviços secretos, tanto os oficiais quanto os oficiosos, disseminavam pelo circuito acadêmico, fiquei em quarentena, deixando de ser convidado para dar aulas ou fazer conferências em várias universidades públicas. Somente retornei a Florianópolis em 1979, quando aqui se iniciava o Curso de Jornalismo idealizado pela equipe em cuja liderança esteve Moacir Pereira. A seu convite proferi uma palestra para os alunos do novo curso e gravei uma longa entrevista sobre as relações entre imprensa e ideologia, tendo a chance de expor meus pontos de vista sobre o cenário jornalístico brasileiro, com absoluta liberdade de expressão. Essa entrevista foi publicada pelo **Jornal da Semana** e depois incorporada ao seu livro **A Imprensa em Debate** (Florianópolis, Lunardelli, 1981). > > Tive minha atenção despertada para a circunstância de que, mesmo ainda sendo considerado persona non grata ao sistema de poder nacional, minhas idéias foram consideradas na consolidação do novo curso. Moacir Pereira me pedia conselhos úteis para estruturar um “bom” curso de jornalismo. Limitei-me a transmitir duas lições que havia aprendido com meus mestres pernambucanos, respectivamente, Luiz Beltrão e Paulo Freire: > > 1\. Priorizar a pesquisa no processo pedagógico, de modo a encontrar sintonia entre os conteúdos educativos e as aspirações nacionais. > > 2\. Praticar o diálogo entre alunos e professores, no sentido de construir um ambiente democrático de ensino-aprendizagem. > > Acompanhando posteriormente a fisionomia do curso catarinense, liderado por Moacir Pereira, verifiquei com alegria que minhas recomendações não haviam sido palavras ao vento. Elas foram assimiladas corretamente, ensejando estruturas vanguardistas, tomadas como paradigmáticas por outras universidades brasileiras. > > Depois de beneficiado pela Anistia Política de 1979 e reconduzido à minha cátedra de Jornalismo na Universidade de São Paulo, aqui retornei diversas vezes, surpreendendo-me o caráter permanentemente inovador da formação de jornalistas diplomados pela Universidade Federal de Santa Catarina. > > Em função disso, não poupei esforços no sentido de acolher os jornalistas que Moacir Pereira recrutara para sua equipe docente, engajando-os nos programas de mestrado e doutorado que mantínhamos na USP. Vários componentes da atual geração de professores da UFSC ali conquistaram seus graus acadêmicos, preparando-se para novas ações, sempre vanguardistas. > > Procurando dar o bom exemplo aos seus jovens colegas, Moacir Pereira desenvolvia sua própria trajetória intelectual pesquisando temas emergentes e convertendo suas pesquisas em obras que adquiriam projeção nacional. > > Quero destacar particularmente dois livros publicados em São Paulo que marcaram época: **O golpe do silêncio** (1984), analisando a censura imposta à mídia pelo regime militar no episódio histórico das “Diretas-já”, e **O direito à informação na nova lei de imprensa** (1993), fazendo a exegese das propostas legislativas que pretendem regulamentar de forma democrática o fluxo jornalístico em nosso país. > > Enquanto permaneceu na atividade universitária, Moacir Pereira combinou de forma eficaz o trabalho docente e de pesquisa com o desempenho de funções profissionais na mídia. Desta maneira, retroalimentou sua missão pedagógica com a seiva do dinamismo peculiar ao jornalismo diário, evitando esclerosar-se e burocratizar-se. > > Talvez por isso mesmo é que ele tenha servido como modelo que vem inspirando a atuação jornalística de tantos dos seus antigos alunos, exercendo a profissão em território catarinense ou em outras plagas da geografia nacional. > > Modelar também tem sido o curso por ele liderado na sua gênese, cuja vocação para atualizar-se didaticamente e para ocupar um lugar de destaque como espaço investigativo tem merecido reconhecimento público. > > Não foi outra a intenção do júri que concedeu a Moacir Pereira, em 1998, o Prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação na categoria “Maturidade Científica”. Pesaram nessa decisão os seus méritos intelectuais, evidentes no conjunto da obra que escreveu e publicou, mas influíram também as conquistas institucionais granjeadas por sua obra coletiva, ou seja, o Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. > > Esse ciclo de legitimação do itinerário percorrido por Moacir Pereira no mundo da cultura completa-se agora com sua ascensão à Academia Catarinense de Letras.” #### 4\. Resumo bibliográfico Os 18 livros de Moacir Pereira (em 2004) podem ser reunidos em dois grupos, conforme seu tema. **1\. As grandes reportagens** — livros que traçam biografias ou registram fatos de interesse jornalístico. Entre eles estão o **Profeta da Esperança**, de 1992, que conta a visita do Papa João Paulo II a Florianópolis; **O Golpe das Letras**, de 1997, sobre os eventos que envolveram o governador catarinense Paulo Afonso Vieira e políticos de outros estados; as biografias do jornalista Adolfo Zigelli (2000), do senador e ex-governador Vilson Kleunübing (2001), do ex-governador Ivo Silveira (1998); e o registro de viagem **Santa Catarina, Padroeira: Tesouros no Sinai** (2002). **2\. Jornalismo e comunicação** — nesse grupo estão os demais livros, em sua grande maioria com forte tempero legal e grande identificação com o momento histórico. Os primeiros, reforçando a necessidade de restabelecimento dos direitos fundamentais. A seguir, o acompanhamento dos momentos decisivos do movimento Diretas-Já e a transição política. Depois, a instalação do estado de direito, com a discussão sobre a nova Constituição. No livro publicado em 1992 dedica-se a estudar as complexas relações entre imprensa e poder em Santa Catarina, estado onde praticamente todos principais veículos de comunicação nasceram sob nítida coloração político-partidária. E finalmente, como uma espécie de comprovação da agilidade a que me referi em diversos momentos deste perfil, Moacir lançou, no início de dezembro de 2003, **Jornalismo, Cultura e Cidadania** que reuniu os discursos feitos por ocasião de sua posse na Academia Catarinense de Letras, ocorrida a menos de três meses. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/alexandre_garcia_e_moacir_pereira_-_credito_jose_luiz_somensi.jpg) Dia 13 de agosto de 2018: Alexandre Garcia e Moacir Pereira foram os palestrantes do painel “Perspectivas para o Futuro”, realizado como parte da programação de aniversário do grupo NSC. Foto de José Luiz Somensi. ### Memórias anticomunistas URL: https://cesarvalente.com/memorias-anticomunistas/ Last updated: 2026-07-05T08:15:55.000Z No primeiro contato que tive com o comunismo ainda era um guri de calças curtas, cursando o primário no Colégio São José, em Tubarão, por volta de 1962\. Colégio católico, de freiras da Divina Providência, recebeu com grande alarde um padre que, diziam, tinha conseguido fugir da “Cortina de Ferro”. E, para que a gurizadinha fosse devidamente informada sobre os perigos do comunismo ateu, fomos reunidos no auditório para ouvir a assustadora palestra do padre que sobreviveu em ambiente hostil. Na época lembro que achei parecido com uma peça de teatro mas, agora, acho mais semelhante àquelas palestras do TED: a narrativa bem ensaiada, recursos visuais e um enredo que prende a audiência. Só que o palestrante tinha mais a ver com Indiana Jones (ou seria MacGyver?) do que com um contrito capelão perseguido. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/bandeira.jpg) Reunião nos primórdios do Partido Comunista Chinês. Nunca entendi por que, na China, o cabo da foice virou uma bolinha. Por trás da “Cortina de Ferro” era dureza ser católico. Igrejas fechadas, o jeito era reunir-se em segredo, em quase catacumbas (a referência aos primeiros tempos do catolocismo não era, claro, gratuita). Aí ele mostrava os gadgets que inventara para poder celebrar a missa sem poder ter os cálices, patenas e hóstias adequados. A gente ouvia tudo de boca aberta, sem nem suspeitar que talvez boa parte daquilo que estava sendo dito talvez tivesse sido criado justamente para compor a narrativa. Nenhum de nós tinha informação, ou interesse, de saber o que era e o que não era verdade naquela história cheia de aventuras, perseguições, códigos ocultos, opressão e, ao final, a fuga espetacular. Ficamos, então, sabendo que o comunismo era coisa muito ruim. E olha que ninguém falou naquela história de comer criancinhas. Saímos da palestra animados como saíamos do cinema, depois de um episódio de algum seriado da Republic, ou de algum filme de capa e espada. No meu caso, contudo, acho que essa injeção de anticomunismo no cérebro em formação não teve grande efeito. Nunca desenvolvi muitos anticorpos. Mas o timing da palestra, apresentada em grande circuito de escolas católicas justamente durante o governo João Goulart, foi bem pensado. Em 1964, quando todas as revistas e jornais falavam sobre a “ameaça comunista” até eu, que tinha só 10 anos de idade e estava mais preocupado em terminar logo os deveres pra ir brincar, sabia do que se tratava: gente que perseguia católicos e obrigava padres a viver nos porões, falando baixinho para não serem presos e espancados. Derrotar o comunismo derrubando o presidente que queria transformar o Brasil numa grande Cuba era, portanto, coisa boa. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/mao.jpg) O camarada Mao, em cartaz antigo, celebrando a revolução que colocou o povo no poder. Em 2019 essa revolução comemorou 70 anos. O fantasma do comunismo, utilizado como pretexto para golpes ou como reforço de narrativa política para validar intervenções estrangeiras (abertas ou veladas), sobrevoou todo o período de trevas da “gloriosa”. Mas sobrevivemos a tudo e até tivemos um período, uma espécie de primavera, em que os anticomunistas e seus fantasmas se recolheram aos casulos. Agora que estão acordados, cumprindo novamente seu papel, resolvi lembrar disso, só para mostrar que esse filme não é novo e quem já o assistiu sabe como termina. Não, não tem final feliz. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/charge-fidel.jpg) Charge editorial de Edmund S. Valtman, publicada em agosto de 1961 nos Estados Unidos (no The Hartford Times), que ganhou o prêmio Pulitzer (o maior prêmio do jornalismo norte-americano) em 1962\. O texto mostra Fidel Castro dizendo a um brasileiro: “Homem, o que você precisa é de uma revolução como a minha” Pra encerrar, taí o hino da Internacional Socialista (o hino de todo comunista que se preze), executado no encerramento do 19º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, que governa o país há 70 anos. O que está ao centro é o presidente da China, Xi Jinping. ### PRA QUE SERVEM AS UNIVERSIDADES? /3 URL: https://cesarvalente.com/pra-que-servem-as-universidades-3/ Last updated: 2026-07-05T08:16:13.000Z Último capítulo da série em que mostro os títulos das reportagens publicadas nas três primeiras edições da Revista FAPEU, para informar aqueles que têm pouco contato com a Universidade, que tipo de coisa é feita por lá, além de dar aulas. A Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (FAPEU), dá suporte administrativo a projetos de ensino, pesquisa e extensão, inicialmente apenas na UFSC e agora também em outras universidades. E publica, anualmente, uma revista de divulgação científica, com matérias escritas em linguagem acessível, mostrando alguns dos projetos apoiados. Importante lembrar que existem inúmeros outros projetos relevantes sendo desenvolvidos na UFSC e em outras universidades, que não têm a participação da FAPEU e que, portanto, não aparecem nessa revista. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-26-42.png) Capa da edição número 3 da Revista FAPEU Neste post estão os títulos das reportagens do terceiro número da revista, que foi produzida em 2010, depois de alguns anos sem ter sido publicada (a anterior é de 2005). Mas, após essa edição, a periodicidade anual se manteve. A ideia é mostrar a grande variedade de áreas em que a Universidade atua, produzindo conhecimento. Este número da revista está disponível, em PDF, no site da Fapeu e[ pode ser acessada clicando aqui](http://www.fapeu.com.br/docs/revista%5Ffapeu%5F2010.pdf?ref=cesarvalente.com). A número 3 teve fotos de **Cristiane Fontinha** e **Soninha Vill** e textos dos jornalistas **Antoninha Santiago** e **Flávio Cardozo Jr.**. O projeto gráfico, a edição e a diagramação ficaram sob minha responsabilidade. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-29-27.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-38-53.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-38-41.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-38-30.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-38-18.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-38-06.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-37-56.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-37-47.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-37-37.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-37-26.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-37-15.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-37-06.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-36-56.png) 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amostra do que é feito nas Universidades. Nos 11 números dessa revista foram relatados poucas centenas de projetos, das mais diversas áreas, pequela parcela do que está sendo produzido nos laboratórios universitários. Para contrapor-se a essa campanha que os inimigos da educação de qualidade estão movendo, é importante informar-se. Vocês se surpreenderão positivamente ao descobrir o papel relevante que a Universidade desempenha. E lembre-se, para dar uma espiada em todas as revistas e conhecer melhor os projetos que foram divulgados, [este é o endereço](http://www.fapeu.com.br/index2.php?id%5Fconteudo=19&ref=cesarvalente.com). ### PRA QUE SERVEM AS UNIVERSIDADES? /2 URL: https://cesarvalente.com/pra-que-servem-as-universidades-2/ Last updated: 2026-07-05T08:16:33.000Z Continuação da série em que mostro os títulos das reportagens publicadas na Revista FAPEU, para informar aqueles que têm pouco contato com a Universidade, que tipo de coisa é feita por lá, além de dar aulas. A Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (FAPEU), dá suporte administrativo a projetos de ensino, pesquisa e extensão, inicialmente apenas na UFSC e agora também em outras universidades. E publica, anualmente, uma revista de divulgação científica, com matérias escritas em linguagem acessível, mostrando alguns dos projetos apoiados. Importante lembrar que existem inúmeros outros projetos relevantes sendo desenvolvidos na UFSC e em outras universidades, que não têm a participação da FAPEU e que, portanto, não aparecem nessa revista. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-46-10.png) Capa da edição número 2, da Revista FAPEU Hoje vou mostrar os títulos das reportagens do segundo número da revista, que foi produzida em 2004 e começou a circular no início de 2005\. A ideia é mostrar a grande variedade de áreas em que a Universidade atua, produzindo conhecimento. A revista está disponível, em PDF, no site da Fapeu e[ pode ser acessada clicando aqui](http://www.fapeu.com.br/docs/revistafapeun2.pdf?ref=cesarvalente.com). Este número teve fotos de **Cristiane Fontinha** e textos dos jornalistas **Alexandre Gonçalves** e **Sara Caprario**. O projeto gráfico, a edição e a diagramação ficaram sob minha responsabilidade. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-54-49.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-54-57.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-55-08.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-55-15.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-55-22.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-55-31.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-56-47.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-56-39.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-56-32.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-56-12.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-55-55.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-18-55-39.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-19-02-34.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-19-02-02.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-19-01-37.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-19-01-29.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-19-01-21.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-19-01-13.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-19-01-06.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-19-00-57.png) 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Apenas uma pequena amostra do que é feito nas Universidades. Já foram publicados 11 números dessa revista, todos com igual diversidade de áreas e mesmo assim não foi coberta nem a metade do que está acontecendo nos laboratórios universitários. Pense em conhecer um pouco melhor a Universidade e o que é feito, além das aulas, antes de acreditar em tudo que o movimento anti-educação pública divulga.. E lembre-se, se quiser ler qualquer uma dessas reportagens, ou dar uma espiada em todas as revistas, [este é o endereço](http://www.fapeu.com.br/index2.php?id%5Fconteudo=19&ref=cesarvalente.com). ### Pra que servem as Universidades? /1 URL: https://cesarvalente.com/pra-que-servem-as-universidades-1/ Last updated: 2026-07-05T08:16:53.000Z Nesta série, mostro os títulos das reportagens publicadas na Revista FAPEU, para informar aqueles que têm pouco contato com a Universidade, que tipo de coisa é feita por lá, além de dar aulas. A Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária (FAPEU), dá suporte administrativo a projetos de ensino, pesquisa e extensão, inicialmente apenas na UFSC e agora também em outras universidades. E publica, anualmente, uma revista de divulgação científica, com matérias escritas em linguagem acessível, mostrando alguns dos projetos apoiados. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-45-25.png) A capa do primeiro número da Revista FAPEU Hoje recortei e colei, a seguir, os títulos das reportagens do primeiro número da revista, que foi produzida em 2003 e começou a circular no início de 2004\. Dá pra ter uma ideia da diversidade de temas e áreas e também da relevância que esses estudos e projetos têm. A revista está disponível, em PDF, no site da Fapeu e[ pode ser acessada clicando aqui](http://www.fapeu.com.br/docs/revistafapeun1.pdf?ref=cesarvalente.com). Este número teve fotos de **Felipe Christ/Fotonoticias** e textos das jornalistas **Antoninha Santiago** e **Paula Arendt Laier**. O projeto gráfico, a edição e a diagramação ficaram sob minha responsabilidade. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-34-35.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-34-59.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-35-13.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-35-24.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-36-31.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-36-11.png) 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![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-43-06.png) ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-03-at-17-43-33.png) Este material foi publicado em apenas uma das edições. Farei a mesma coisa com outras edições, para deixar boquiabertos aqueles que, das Universidades, só sabem o que lhes dizem nos grupos do whatsapp que são contra o ensino público gratuito e de qualidade. E lembre-se, se quiser ler qualquer uma dessas reportagens, ou todas, [é só clicar aqui que se abre um arquivo pdf](http://www.fapeu.com.br/docs/revistafapeun1.pdf?ref=cesarvalente.com). E se tiver vontade de dar uma espiada nas onze revistas que já foram publicadas, [este é o endereço](http://www.fapeu.com.br/index2.php?id%5Fconteudo=19&ref=cesarvalente.com). ### "Queres ver as fotos que eu tirei?" URL: https://cesarvalente.com/queres-ver-as-fotos-que-eu-tirei/ Last updated: 2026-07-05T08:17:00.000Z O que fazer com as fotos e videos de viagem é um grande problema tanto para quem está voltando de viagem quanto para os amigos e parentes que ficaram. Antigamente, com 36 "poses" em cada rolo de filme fotográfico, a gente se continha um pouco mais. Não saía fotografando tudo, a toda hora. Mas depois que colocaram as câmeras nos celulares e a turma descobriu que cabem milhares de fotos na memória, ninguém mais tira o dedo do disparador. Como resultado, a pessoa chega de viagem com trocentos milhões de fotos e um caquilhão de videos. E aí começa o problema, sobre o qual falaremos um pouco aqui hoje: como fazer para mostrar esses registros de viagem, sem chatear os amigos e incomodar os parentes? ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/lucia-toronto-072.jpg) Saguão do The Fairmont Royal York, Toronto, CA. ### PRA QUE TANTA FOTO? É muito natural esse impulso de querer registrar os lugares novos por onde andamos. E é meio inevitável exagerar, ainda mais agora, que não existem despesas automaticamente ligadas ao ato de fotografar: não precisa comprar rolos de filme, não precisa pagar pela revelação. Uma vez adquirida a câmera, a foto acaba saindo "de graça". E tanto faz dez ou duzentas. O resultado, na maioria das vezes, é que as fotos ficam esquecidas, jogadas num cartão qualquer de memória, no fundo de uma gaveta. E que ninguém as vê. Ou, pior, acabam sendo apagadas quando é preciso liberar espaço na memória do celular ou do pen drive, ou do disco. O contrário também acontece, ainda que mais raramente: a pessoa fica tão cuidadosa que deixa de fotografar alguns lugares, monumentos e passeios. E aí, quando volta e quer mostrar, tem que recorrer ao google pra ver se acha memórias alheias. As fotos (e videos) são muito importantes. Não para se exibir, mas para lembrar. Passados alguns anos, quando a gente volta a olhar aqueles álbuns, viaja de novo. É uma boa sensação, rever nas fotos os lugares que visitamos. Mesmo que não se pretenda, ou não se possa, voltar. E, se estiverem organizados, ajudam a contar histórias. E a preparar as viagens de outras pessoas. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/pompeia-dscn4421.jpg) Eu, apoiado numas pedras bem antigas, diante de um arco de tijolos. ### "Ó EU NA FOTO" Muitos viajantes acham que devem aparecer em todas as fotos. Que não adianta fotografar o Coliseu se ele, ou ela, ou eles, não estiverem enquadrados. Parece que ficam com medo de que os amigos não acreditem, se virem apenas a bela foto que tiraram das ruínas. Donde o exagero de selfies. Uma vez, em Amsterdam, vi uma moça, oriental, sozinha, cumprindo um ritual solitário: com a câmera num tripé, ela ia se fotografando em poses, caras e bocas, nos vários cenários da cidade. Mais tarde, com a invenção do "pau de selfie", o tripé ficou obsoleto: é possível se fotografar sem ajuda. Claro que é bom ter uma ou outra foto nos lugares visitados, mas se a gente for pensar que um dia talvez vá mostrar as fotos para outras pessoas e contar uma história sobre a viagem, pode ficar meio esquisito: "aqui sou eu diante da torre Eiffel, aqui eu diante da Notre Dame, aqui eu na porta do restaurante, aqui eu segurando o garfo, aqui eu na fila do Louvre". Os amigos e parentes nos conhecem, nos vêem sempre, não precisam ver nossa foto atrapalhando cada uma das paisagens. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/vesuvio-dscn4459.jpg) O Vesúvio, visto das ruínas de Pompeia, no sul da Itália. ### A NARRATIVA, A HISTÓRIA, A AVENTURA... Desde os tempos imemoriais o ser humano, quando se aventura em terras estranhas, vai até lugares que habitualmente não frequenta, volta cheio de histórias. E as viagens são, mais que nada, uma forma de abastecer-nos de histórias, de vivências, de emoções. Por isso, acho importante considerar as fotos e os videos feitos durante o passeio, como complementos visuais úteis para que eu possa contar, ao voltar, o que vivi e aprendi. Ilustrações que compõem uma narrativa, que ajudam e nos ajudam, a entender melhor o que representou aquela "aventura". O viajante que pensa em mostrar as fotos para se exibir, é um pobre de espírito. Pra mim, se assemelha aquele que só pensa em viajar para comprar. E que, indo a Nova Iorque, se mete dentro de outlets impessoais e volta com malas recheadas e a alma vazia. Não viu nada, aproveitou coisa alguma e, do pouco que viu, ficou sem entender a maior parte. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/alberobelo-dscn4666.jpg) As casinhas com telhado de pedra de Alberobelo, Itália. Já ouvistes falar? ### PREPARAR-SE PARA O DESCOBRIMENTO Hoje, mais do que nunca, é fácil aproveitar ao máximo qualquer passeio, qualquer viagem, qualquer escapada, mesmo que seja para municípios próximos. É fácil pesquisar na internet o que tem de interessante em cada lugar. E o que significa cada coisa. Estudar um pouco, antes de viajar, não tira pedaço, não é difícil e pode transformar uma viagem chata, numa série de descobertas fascinantes. O pessoal que diz "não vou pra Europa porque lá só tem pedra velha e imigrante" certamente vai preferir Las Vegas, o paraíso fake, cheio de imitações, em fibra de vidro, das atrações originais. Cientificamente criada para exercer atração irresistível sobre ~~otários~~ endinheirados de cultura escassa. Que até pode ser divertida (como são divertidos os parques temáticos), mas não pode ser levada a sério. O grande problema das viagens é o que elas têm em comum com as bibliotecas e com a internet: é preciso um mínimo de cultura e informação para poder tirar bom proveito. Quem nunca leu, nunca estudou e não tem curiosidade literária ou histórica, poderá ser colocado dentro da maior e mais importante biblioteca do mundo, que não saberá nem por onde começar. E acabará se perguntando "o que que eu tou fazendo aqui?" Ocorre o mesmo com a internet, rede onde é possível acessar boa parte do monstruoso acervo cultural da humanidade. Mas, dependendo das limitações de cada um e da sua falta de curiosidade, no máximo conseguirá encontrar cantores populares no youtube e sites de pornografia. E ao viajar, se não temos interesse prévio em conhecer um pouco da história, da geografia, do mundo que iremos visitar, ao chegar lá acabamos não vendo graça, nem importância, em nada. E até pode ser que acabemos fazendo aquela pergunta cheia de frustração: "o que que eu estou fazendo aqui?" ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/bigben-dsc02518.jpg) O parlamento britânico (com o Big Ben), visto da roda gigante (que agora é The Coca-Cola Eye), em Londres, UK. ### SENTA, É RAPIDINHO! Quando a gente mandava revelar as fotos e colocava as cópias, em papel, num álbum, parecia mais fácil apontar o álbum para as visitas e dizer "ó, são as fotos da viagem, se quiseres dar uma olhada". Com algum interesse, ou por educação, a pessoa pegava o álbum dava uma folheada, comentava uma ou duas coisinhas e pronto. Tinha cumprido sua obrigação social. Depois, com a chegada das câmeras de video, alguns mais ousados levavam os amigos para diante da TV e começavam a projetar horas e horas de video, a viagem quase em tempo real. Ao procurar solução para isso, cheguei a algumas conclusões que considero importantes: - Mostrar as fotos numa tela ajuda a valorizá-las; - Mostrar muitas fotos, durante muito tempo, as desvaloriza; - Juntar fotos e videos, organizados em alguma narrativa, ajuda; - Estender essa narrativa por muitos minutos, atrapalha; - Usar algum fundo musical facilita a deglutição. Em resumo: fica melhor mostrar o que vimos na viagem numa historinha curta, de poucos minutos, montada sobre algum fundo musical. "Ah, mas assim não dá pra mostrar tudo...", exatamente, só quem viajou tem saco para ver todos os detalhes da viagem. Quem não viajou quer só dar uma espiada, pra ver se tem alguma coisa interesssante. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/placa-chile-191.jpg) Neve na beira da estrada que leva ao Valle Nevado, nos Andes chilenos (perto de Santiago). ### QUERES UM EXEMPLO? Eu gosto de brincar com programas de edição de video. E depois de cada viagem reúno algumas fotos e videos e conto uma historinha curta. Naturalmente, os videos dos netos, que visito ao viajar, ocupam várias prateleiras. Mas esses são para consumo de um círculo familiar muito restrito. Outro dia, pra descansar de um dia de trabalho, comecei a reunir os meios de transporte que encontrei em algumas das minhas viagens. Nada muito elaborado. Reuni alguns videos com movimento, poucas fotos, escolhi uma música (royalty free, pra não ter problema de direitos autorais) e juntei tudo numa espécie de mosaico de "transportation". Olhaí como ficou. https://vimeo.com/365827793 Numa das visitas à cidade de San Francisco, na California, acabei enchendo alguns cartões de memória com fotos de suas casas de madeira com "bay windows". Selecionei algumas e montei uma espécie de "slide show", com uma musiquinha de fundo. Uma forma de mostrar fotos e chamar a atenção para alguns detalhes, sem (espero) cansar o espectador. https://vimeo.com/123099566 Há ~~alguns~~ muitos anos (em 2006!) fomos, Lúcia e eu, de Montevideo a Buenos Aires de aliscafo, o catamarã rápido de passageiros. Como pouca gente, dos nossos amigos e parentes, conhecia esse trajeto, resolvi fazer um pequeno video mostrando como era, pra facilitar na hora de contar. Espia: https://vimeo.com/365833764 ### QUANDO O PROGRAMA AJUDA... Há muitos anos mudei do PC para o Mac. Trabalhando com editoração, projetos gráficos e coisas parecidas, tinha mais facilidade de uso, programas mais versáteis e um sistema operacional e uma máquina mais estáveis. Um dos programas que faz parte do "pacote" básico dos computadores Apple é o iMovie. Um programa para editar videos bem fácil, intuitivo e que, mesmo com algumas limitações naturais num programa para amadores, permite resultados de qualidade profissional. E, dentre as opções do iMovie, está a edição do que eles chamam de "trailers". É uma brincadeira divertida: toda a estrutura, letreiros, música, está tudo pronto, a gente só precisa inserir os clipes dos nossos vídeos, para montar um "trailer". É uma ótima forma de mostrar aspectos de uma viagem, sem cansar o espectador e até despertando alguma curiosidade. É muito divertido fazer. Espero que vocês também se divirtam ao assistir. https://vimeo.com/365831067https://vimeo.com/365830660 ### CANSAÇO... URL: https://cesarvalente.com/cansaco/ Last updated: 2026-07-05T08:17:01.000Z > *Lamento informar que esse texto, publicado pela primeira vez em 6 de janeiro de 2009, continua atual. Nada mudou para melhor.* Tá difícil engatar a segunda e ganhar alguma velocidade nesta volta ao trabalho. Pra todo lado que a gente olhe é tanta mesmice, tanta mediocridade, tanta falta de respeito pelas coisas mais simples, que o desânimo sobe em ondas, como uma enchente de água suja, irrefreável, inescapável, engolindo a mobília que durante tantos anos fomos acumulando na alma, encharcando de lodo fétido toda aquela roupinha cuidadosamente dobrada que estava nas gavetas do camiseiro sentimental, que é o coração. Olho para minhas mãos e vejo ali, como numa miragem de filme B, as cicatrizes dos tantos murros em ponta de faca. Do que adianta tanto desgaste? A que leva tanto berro ecoando no vazio? Pra que tentar falar com surdos que não entendem nossos gestos e viram a cara, cegos diante das letrinhas que insistimos todos os dias em colocar diante de suas bocas mudas? Pra que desperdiçar as últimas reservas de fosfato com ironias, sátiras, tiradas de humor (do bom, do mau e do horrível), se cada vez menos há cultura e ilustração nas cabeças coroadas? Eles simplesmente não entendem a língua que falamos. Não alcançam a mordacidade da crítica, não compreendem o que queremos dizer. E não fazem questão de saber, porque lhes falta, como à cucaracha da música folclórica, las dos patitas de atrás. Ou marijuana a que fumar. Vocês escolhem. Hoje mesmo estive aqui, sentado à frente deste teclado, com a luminosidade da tela gritando na minha retina, várias vezes. Começava a falar nisso, ia um pouco adiante, desistia. Pérolas aos porcos. Depois tentava comentar aquilo, escrevia um parágrafo, deixava as mãos caírem como folhas mortas e parava. Não adianta, os que entendem não precisam que lhes diga, os que precisam, não entendem. E, finalmente, preocupado porque lá adiante, em alguma ponta desta sinistra rede abstrata e real poderia ter alguma leitora, algum leitor, esperando coisas novas, recomeçava. Mas não tem jeito. O céu azul esplendoroso, o sol brilhante e o vento gentil, que deveriam encher-me de ânimo, alegria e força, têm efeito contrário. E desisto. Desligo a máquina sem conseguir escrever nada do que gostaria. Talvez amanhã. --- Foto de [Constance Kowalik](https://pixabay.com/users/Sonnenstrahl-438721/?utm%5Fsource=link-attribution&utm%5Fmedium=referral&utm%5Fcampaign=image&utm%5Fcontent=451917) no [Pixabay](https://pixabay.com/?utm%5Fsource=link-attribution&utm%5Fmedium=referral&utm%5Fcampaign=image&utm%5Fcontent=451917) ### INVISÍVEL URL: https://cesarvalente.com/invisivel/ Last updated: 2026-07-05T08:17:01.000Z Não se trata de uma invisibilidade de histórias em quadrinhos, não tem o erotismo imaginado pelo Milo Manara em “Le Parfum de l’invisible”; ou o drama mostrado naquele filme preto e branco inspirado em H. G. Wells, em que a frustração por não conseguir voltar a ser visível acaba enlouquecendo o personagem. Não desapareço dos espelhos porque sou, em termos físicos e químicos, tão visível quanto qualquer coisa… visível. Se alguém levantar o lençol da cama onde durmo, verá meu corpo. Mas por que alguém se daria ao trabalho de, em primeiro lugar, entrar no meu quarto, em segundo lugar, levantar o lençol? Para isso seria necessário que eu não fosse, fora dali, e o tempo todo, invisível. Comecei a notar essa característica (deficiência?) há alguns anos, quando remexia umas caixas de antigas fotografias. Lembro da boa sensação de encontrar uma foto tirada ainda na escola primária, em que aparecem todos os meus amigos, a turminha com quem convivi durante uns bons anos. Eram, sem dúvida, meus coleguinhas. Mas, depois de olhar por algum tempo a foto, percebi que eu não aparecia. Peguei uma lupa. Vai ver fiquei encoberto, procurei nas sombras uma parte do boné, os braços, as pernas finas de calças curtas. Nem mesmo as orelhas, afastadas o suficiente da cabeça para render muitos piparotes e brincadeiras apareciam. Nada. Eu estava invisível. Na hora não consegui avaliar a extensão dessa constatação. Achei que se tratava de algum engano, guardaram a foto errada. Certamente haveria outra em que eu apareceria. --- Poucos dias depois, numa roda de amigos, na mesa de um bar, um deles comentava sobre a grande manifestação pela volta das eleições diretas, a concentração diante da Catedral, para acompanhar a votação que acontecia no Congresso, em Brasília. Eu estava lá. Com essa turma. Ajudei a ligar o telefone público no carro de som, para que todos ouvissem a sessão (que não estava sendo transmitida ao vivo por nenhum veículo). E era justamente sobre isso que o amigo, entusiasmado com as lembranças, falava. Enumerou todos os que participaram da “operação”. No embalo, outro e mais outro também citaram os colegas, detalhando o que cada um fez. Nenhum falou em mim. Eu estava lá mas, ao que parece, invisível. Fiquei chateado com a ingratidão e a falta de consideração, mas ainda não somara um mais um. Até ver, no perfil do facebook de um conhecido, a foto dos formandos do segundo grau, no Colégio Catarinense. Sim, claro, a minha turma. Logo depois de entregar os certificados, todos eram reunidos no auditório, para uma foto junto com o Diretor e alguns professores. A turma inteira. Não lembrava mais, não tenho essa foto. Como é interessante ver, ainda muito jovens, desajeitados de terno e gravata, guris que hoje estão em tribunais, empresas de engenharia, no serviço público, na cadeia… Olhei um por um. Lembro claramente de todos e vários ainda encontro de vez em quando. Nicolau, Afonso, Sebastião, Juarez… o Zé, ao lado de quem eu sentava. Levei um susto por não me ver nessa foto. E, pela primeira vez, pensei nisso: sou invisível! Corri a procurar os guardados e achei o certificado. Definitivamente, eu estava lá! Mas por que não apareço na foto do grupo, tirada logo depois? --- Isso me fez pensar. Lupicínio já advertira que “o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar?” Voltei aos tempos de universidade, da luta renhida para tomar o centro acadêmico, da campanha feroz, em tempos de ditadura, quase perdendo o semestre, tamanho o empenho na política estudantil. Vencemos, tomamos o “poder”, e o fato de não ter sido convidado para nenhum cargo na diretoria, nem aqueles que ninguém queria, nunca tinha me despertado a curiosidade. Fui ao sótão da casa da minha mãe, guardiã zelosa de tudo o que, se dependesse de mim, já teria jogado fora, e encontrei o jornalzinho com que comemoramos a vitória. Reconheci um dos textos, ufanista, gabola, com alguns erros. Meu texto, sem dúvida. Eu estava muito envolvido, não poderia deixar de participar do jornalzinho da vitória. Li os relatos sobre a apuração. Citam nomes, mas não o meu. Engraçado, discuti com o chefe da comissão de apuração, juntou gente, teve deixa-disso, mas nada apareceu. Havia uma página com o “resgate” da campanha, nomeando todos os envolvidos, contando as principais peripécias. Quando vi que não me citavam larguei o jornal e parei, com o olhar perdido em alguma teia num canto do sótão. Invisível… ! O mais curioso é que eu tinha visto antes, na época, esse material, mas não tinha percebido a ausência. Nunca fui de querer “aparecer”, nunca procurei meu nome nos textos ou meu rosto nas fotos em grupo. Talvez porque nunca tenha lido ou visto. Talvez porque, inconscientemente, sabia que era invisível. --- Ontem, essa característica que durante tanto tempo me acompanhou, silenciosa como uma sombra, voltou a me assombrar. Ao entrar na Lindacap vi, numa das mesas, um rosto conhecido. Nunca a esqueci. Quando jovens, vivemos por uns dias uma paixão intensa. Praia de Moçambique, dunas da Lagoa, assentos de fuscas, qualquer lugar era lugar, qualquer hora era hora. Foi como se uma faísca detonasse um barril de pólvora. Depois da explosão, do calor intenso, do brilho e do barulho, tudo se acalmou e voltamos para as nossas vidas. Ela não deve mais lembrar de mim, provavelmente nem sabe mais quem sou. Está perto dos 60, mas continua linda. Passei direto, invisível, conformado com a não existência. Mal chego à minha mesa, sinto um toque no ombro. Viro-me. Era ela e seu sorriso de derreter corações. — Lembras de mim? Veio para a minha mesa, conversamos por horas. Combinamos continuar a conversa na casa dela. Ela saiu e eu fiquei, para o último licor e a conta. Quis contar vantagem pro garçom, meu amigo. — Vistes esta loira que almoçou comigo? — Hoje? — É, hoje. — Tás de brincadeira, né? Almoçastes sozinho! Vais querer me engrupir que agora estás de rolo com a mulher invisível? ### O candidato "Teflon®" URL: https://cesarvalente.com/candidato-teflon/ Last updated: 2026-07-05T08:17:02.000Z > Exatamente no dia 23 de setembro de 2008 (ano eleitoral, onze anos atrás), publiquei uma crônica, no Diarinho, falando das maravilhas antiaderentes do Teflon® aplicadas à politica. É um revestimento comumente encontrado na cara de pau dos políticos. Lembrei dela em 2018, ao ver que, aos eleitores do coiso®, não adiantava dizer nada. Antes, como agora, nada do que digamos “cola”. Estavam tão fissurados em derrotar Lula e o petê, que nada que o candidato escolhido tivesse feito ou dito, importava. Depois de eleito, continuam numa idolatria cega. O sujeito comete uma atrocidade atrás da outra, mas nada adere à sua imagem revestida e protegida por teflon® miliciano-pentecostal. > > Mas vamos voltar um pouco no tempo, para ler o que saiu no jornal no dia 23 de setembro de 2008, com uma atualização (em tempo) publicada em 25 de outubro do mesmo ano (dia do segundo turno das eleições) no blog ["De Olho na Capital".](https://deolhonacapital.blogspot.com/2008/09/o-candidato-teflon.html?ref=cesarvalente.com) ### MAIS UM ESCORREGADIO CURSINHO DE PSEUDO-CIÊNCIA POLÍTICA DO TIO CESAR A história do Teflon® começa em 6 de abril de 1938, no Laboratório Jackson, da DuPont, em Nova Jersey, EUA. O químico Dr. Roy J. Plunkett, da Du Pont, estava trabalhando com gases relacionados com o resfriador Freon®, que é outro dos produtos da empresa. Ao conferir uma amostra comprimida e congelada de tetrafluoretileno, o Dr. Plunkett e seus companheiros descobriram que a amostra tinha polimerizado espontaneamente, formando um politetrafluoretileno (PTFE). ![](https://scontent.fbfh1-2.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/p720x720/43188744_10217710139931069_2063976238086619136_o.jpg?_nc_cat=100&_nc_oc=AQkwWx6NcmTU3rSQWBrfhD1IQEUZ7dus5Jj6DRtxdVPVXuUJi6nPfG0Dre5zE9qkL6Q&_nc_ht=scontent.fbfh1-2.fna&oh=734d471256d55a1cb679980e38ea3c6d&oe=5E3D132C) Roy J. Plunkett, inventor do Teflon® O PTFE é inerte a virtualmente todos os químicos e considerado o material mais escorregadio existente. Essas propriedades o tornaram uma das tecnologias mais versáteis e valiosas já inventadas, contribuindo para avanços importantes nas áreas aeroespacial, comunicações, eletrônica, processo industrial e arquitetura. A marca Teflon®, registrada pela DuPont em 1945, tornou-se um nome familiar nos lares do mundo todo, pelas suas propriedades anti-aderentes, associadas ao seu uso como revestimento de panelas e frigideiras e como proteção anti-manchas em tecidos e produtos têxteis. O Dr. Roy Plunkett, falecido em 1994, é reconhecido pela comunidade científica internacional como um dos grandes inventores de todos os tempos, equiparado, por exemplo, a Thomas Edison e Louis Pasteur. ### UM NOVO USO No Brasil, a imprensa irreverente e desrespeitosa tem usado a marca Teflon® para identificar aqueles candidatos a cargos eleitorais que parecem ter sido recobertos pela prodigiosa película anti-aderente. Quando um candidato, em plena campanha, recebe uma condenação do Tribunal de Contas da União e é obrigado a devolver R$ 500 mil e sua popularidade não é nem arranhada com o anúncio desse malfeito, podemos suspeitar que estamos diante de um candidato Teflon®. A comprovação, no entanto, só virá se, por acaso, uma instituição como a Associação dos Magistrados Brasileiros informar publicamente que o candidato responde a cinco processos por improbidade administrativa. Se, mesmo com esse anúncio, as pesquisas não detectarem qualquer abalo nas intenções de voto, então, definitivamente, temos aí uma ampla cobertura de Teflon® no candidato. ![](https://scontent.fbfh1-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/43116084_10217710197492508_8344630721754693632_o.jpg?_nc_cat=103&_nc_oc=AQnp8UTCj2P-vwWD4-n200gFj07pjnCsRfFwE5XgeDCYCq_DES-jiW0RDjFYom1zBdM&_nc_ht=scontent.fbfh1-1.fna&oh=3f9c964d04f6fce3f1027ae96fd40a44&oe=5E3A37D4) Frigideira recoberta com Teflon® O produto, como vimos acima, é prodigioso. É imune a praticamente todos os produtos químicos e é mais escorregadio do que limo no costão. Nada gruda, nada cola e quase nada o corrói. O candidato Teflon® pode, sem grandes preocupações, mudar de partido a cada eleição, mesmo que no País tenha ocorrido uma discussão sobre fidelidade partidária e tenham sido estabelecidas punições para os infiéis. E, já que nada acontece com ele e sua popularidade, pode até se candidatar por um partido e ir ao município vizinho fazer campanha contra o candidato de seu próprio partido. O Teflon® o protege inteiramente. Ao contrário do polímero da DuPont, porém, esse Teflon® alegórico que certos jornalistas metidos a engraçadinhos tentam sarcasticamente aplicar sobre alguns políticos, não é completamente eficaz, embora pareça. Funciona maravilhosamente com o eleitor distraído, que gosta de votar “em quem vai ganhar”. Mas há sempre o risco do excesso de confiança provocar um desgaste súbito da película anti-aderente, com resultados imprevisíveis. ### EM TEMPO O fato de ser protegido por uma camada antiaderente é, de certa forma, uma qualidade. E o candidato não tem nada que se envergonhar dessa propriedade, ao contrário. Quando publiquei a crônica acima, uns torcedores mais exaltados do Dário (Berger, ex-prefeito, agora senador por SC) vestiram a carapuça (de Teflon®) e encheram minha caixa postal de comentários. Os mais simpáticos me chamavam de “jornalista Teflon®”. Naturalmente tentando me ofender. Mas, como considero o uso dessa película um avanço tecnológico em prol do bem-estar da humanidade, acabei foi ficando lisonjeado. Outros, depois de xingar minha falecida mãe e dizer várias coisas impublicáveis, terminavam com uma espécie de grito de guerra: “os cães ladram e caravana passa”. Claro, uma caravana coberta de Teflon® desliza com facilidade pelos ambientes mais inóspitos. E tinha aqueles que falavam, falavam, falavam, depois diziam que não deveriam dar atenção a “um jornalistinha que não tem mais que seis leitores”. Novamente, acho que queriam me ofender, mas acabaram me lisonjeando mais uma vez: afinal, se mesmo tendo apenas seis leitores dedicam tanto tempo e esforço pra me desqualificar, então é porque esses seis leitores são muito especiais. Provavelmente formadores de opinião. Ah, isso de seis leitores é mentira: fiz as contas e só de primos tenho nove. Filhos (que eu saiba) três, mulher oficial, pelo menos uma e também devo contabilizar a pobre da revisora do jornal, que lê a coluna por obrigação, já temos aí uns 14 leitores. Se duvidar, é capaz de chegar a 20 (e dependendo de como for feita a pesquisa, poderei ter uns 30% de intenção de leitura)! Em todo caso, espero que ninguém deixe de votar num candidato só porque sua popularidade não se abala com o que os adversários dizem ou anunciam. Cada um sabe de si e acredito que sejamos todos suficientemente espertos para poder avaliar o custo-benefício das nossas decisões eleitorais. ### O MANGUEZAL DO RATONES URL: https://cesarvalente.com/manguezal-ratones/ Last updated: 2026-07-05T08:17:07.000Z > Os rios Ratones e Papaquara desaguam numa área de mangue que tem sido maltratada e ignorada há bastante tempo. Mas quem se importa? Os leigos acham que os jornalistas estão sempre fazendo reportagens ou têm sempre obrigação de dar informações novas e bem apuradas. Mais ou menos como aquele pessoal que, ao encontrar um médico conhecido na rua, já vai mostrando a pereba pra receber um diagnóstico e uma receita ali mesmo e de graça. Ou o sujeito que, ao ver no aeroporto um comediante que ele admira, já se chega pra ver se ele diz alguma coisa engraçada "que bom te encontrar aqui, estava mesmo precisando dar umas risadas". É verdade que o uso do cachimbo pode entortar a boca. Então, depois de passar quase uma vida inteira olhando criticamente para todos os lados, a gente acaba sempre querendo saber mais sobre qualquer coisa que vê ou ouve. Como atualmente sou mais designer gráfico, consultor editorial e avô de seis netos e uma neta do que jornalista propriamente dito, não tenho feito reportagens com a frequencia que fazia há alguns anos. Mas não será por isso que deixarei de meter o bedelho e dar pitaco nessa seara. Os mais antenados devem ter notado que esse trololó está armazenado numa categoria nova: "pautas". É nessa categoria que, de vez em quando, falarei sobre assuntos que, a meu ver, mereceriam uma reportagem, porque acho que têm um bom potencial para interessar leitores, telespectadores, espectadores, ouvintes e curiosos em geral. Basta investigar direito que dá um bom caldo, cativa a audiência e pode render mais que apenas uma matéria. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sc402-mapa-1.jpg) É desta região, cortada pela SC 402 no norte da Ilha de Santa Catarina, que estamos falando. Mapa do Google. ### O RIO SEM CURVAS Já ouviram falar no rio Papaquara? Claro, quem é daqui, ou estava aqui nos verões passados, deve ter ouvido. É aquele rio, que sai lá da região de Canasvieiras (mais propriamente do Morro do Caçador, na Cachoeira do Bom Jesus) e desagua perto da Daniela. E ficou famoso porque a Casan, flagrada jogando esgoto no rio do Brás (que desagua no mar. em Canasvieiras), teria "solucionado" o problema desviando seu despejo para o Papaquara, que desagua lá longe. O que não foi nenhuma novidade, porque tem um vertedouro da estação de tratamento de esgotos de Canasvieiras para o pobre rio, desde a década de 90. O Papaquara, também conhecido como Cachoeira ou Jurerê, um dia já foi um rio "normal", daqueles que vai criando curvas caprichosas no seu caminho para o mar. Mas lá pelos anos 40 do século passado, para atender reclamos dos proprietários de terras, que queriam secar a área úmida de mangue, foi transformado num canal retilíneo, como aparece nos mapas e fotos de satélite recentes. Isso de desviar rios para secar terrenos é mais ou menos da mesma época em que a expressão "limpar o terreno" significava tirar toda a vegetação nativa. Parecia, na época, ser coisa de quem queria o desenvolvimento, o progresso. E terra mais seca permitia criar gado e outros animais. Quando começaram a pensar numa ligação rodoviária mais direta para Jurerê (a estrada antiga obrigava a ir a dar a volta por Canasvieiras), alguém teve uma ideia "genial" complementar: fazer pontes sobre os rios Ratones e Papaquara e instalar, embaixo das pontes, comportas que impedissem as marés altas de entrar no mangue. Uma intervenção humana radical e completa no ecossistema daquela região. Uma rodovia que corta o mangue, como um bisturi corta a carne e secciona veias e artérias e pontes que impedem, em vez de permitir, o fluxo das águas. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sc402-mapa-satelite.jpg) As setas assinalam as pontes da SC 402 que tinham comportas para impedir a entrada da água do mar. Foto do Google Maps. ### O RIO SEM PEIXES O outro rio que desagua naquele mangue é o Ratones. Também foi "canalizado", tem trechos sem curvas. Não é muito extenso, mas é o maior rio da Ilha de Santa Catarina. E antes da construção das comportas, o pessoal conta que pescava não só peixes, como também camarões. Depois, sem a água do mar e recebendo a água poluída do Papaquara (os dois rios tem ligação na foz), a coisa foi deteriorando. Até que, em 2014, saiu uma decisão da Justiça, numa Ação Civil Pública, mandando retirar as comportas que havia sob as pontes, para que a água do mar voltasse a cumprir seu papel e o mangue pudesse respirar e tornar-se o criadouro que se espera que os mangues sejam. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/panfleto.jpg) A carta aberta dos pescadores ### OBRAS PELA METADE, PRA VARIAR No sábado (21/9/2019), ao passar pela SC 402, recebi um folheto de um grupo que estava fazendo uma manifestação na rodovia, sobre a ponte do rio Ratones. Era uma carta aberta da Associação dos Pescadores do Rio Ratones e da Associação dos Moradores de Ratones, reclamando do atraso das obras de retirada das comportas. As obras começaram em 2016 e numa das primeiras placas que estavam no local o prazo de conclusão era de 360 dias. Mas foram sendo solicitados adiamentos e o prazo mais recente para conclusão era o final de maio de 2019\. A construtora já pediu sete prorrogações de prazo e o Deinfra tem atendido, com o habitual zelo maternal com que cuida do bem estar dos empreiteiros. Aí a comunidade subiu nas tamancas, porque tiraram parte das estruturas e deixaram vergalhões e pedaços de pilastras, que são uma ameaça a quem passa por ali, de canoa. Sem as comportas, na subida da maré, a água é canalizada por ali com força (vejam bem, a SC 402 funciona como uma enorme barragem sobre o mangue, com passagem para a água apenas embaixo das duas pontes, o que aumenta a força das correntes nesses locais). ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/sc402-mapa-satelite2.jpg) A ponte sobre o rio Ratones, embaixo da qual estão os entulhos a que os pescadores se referem. Foto Google Earth. ### TEM ASSUNTO DE MONTÃO Quem conseguiu chegar até aqui deve ter percebido que existem nessa região inúmeras histórias que podem ser garimpadas e lapidadas para oferecer ao leitor, ouvinte, espectador, material de primeira. Drama humano, meio ambiente, história, corrupção (opa!), política, tem de um tudo nessa região. Ou vocês não ficaram curiosos para saber quem eram os poderosos donos de terra das décadas de 40 e 50 que conseguiram canalizar os rios para tirá-los dos seus caminhos? E como fazer para viabilizar economicamente Jurerê Internacional e Daniela, só pra falar em dois dos loteamentos mais conhecidos, sem aquela reta sobre o mangue? E a Casan, já conseguiu regular a estação de tratamento para só jogar no Papaquara o esgoto "tratado"? Ou continua merda pura? No meio dessa história toda, em plena Estação Ecológica Carijós, tem uma área aterrada com o tal de "Stage Music Park". Que até é bom que fique ali, longe das residências, porque o barulho é grande. Mas juram que vocês nunca quiseram saber quem autorizou quem a se instalar ali? E quando? E por que? Que ninguém nos ouça, mas aquela função toda de tirar as comportas, usando máquinas pesadas, não afetou nadica de nada a estrutura das pontes? Aquele afundamento que ocorreu, há algum tempo, nas cabeceiras da pontes, não era sintoma de alguma coisa mais séria? Era só um pequeno ajustamento do terreno? Ou seja, quem estuda um pouco sabe o que representa, para a vida marinha, um mangue. O que antigamente pensavam ser só um lamaçal que era preciso secar a qualquer custo, hoje se sabe que tem um valor enorme na preservação das espécies e na melhoria da pesca, entre outros benefícios. E, na Ilha, tem uma área enorme que, desde 1940, desperta interesses e tem sido mexida. Só contar, bem contada, essa história, já seria uma grande reportagem. Divirtam-se e boa semana. ### Aquela velha crônica desbotada... URL: https://cesarvalente.com/aquela-velha-cronica-desbotada/ Last updated: 2026-07-05T08:17:08.000Z > No dia 25 de junho de 1975 o jornal O Estado publicava esta crônica surrealista, que está abaixo. Hoje, passados 44 anos, encontrei o recorte, amarelecido, numa caixa de guardados. E achei que deveria republicar. Claro que, se fosse reescrever, mudaria várias coisas. Mas me contive e aí está o texto original. Com todas as falhas que um cronista jovem (22 anos) e inexperiente pode cometer. Enjoy. ## A BUROCRACIA ***Cesar Valente, em O Estado, 25 de junho de 1972, página 12.*** A burocracia é um inseto venenoso feito as lêndias e brancóptero feito as microcefaléias. Por conceito podemos dizer que a burocracia não cia, nem rocia, mas retém, carimba, espera, gasta, detém, assina, suspira, mofa, enteia-se de aranhas e continua parada. Sempre que vemos uma burocracia devemos frear o carro. Atrás da burocracia vem sempre uma senhora gorda, de óculos bifocal, tricô na mão, olhar por cima do guichê e resmungar: “Já fechou, agora só amanhã”. A burocracia foi descoberta alguns milênios antes de Cristo. Graças a ela a torre de Babel teve suas obras paralisadas. Foi também por obra da burocracia que no Egito se mumificaram os faraós. É uma história interessante. Como se sabe, os faraós do antigo Egito tinham parentesco com os deuses. Bom, o imposto de renda da época só era cobrado daqueles que não tinham parentesco com deuses, porque afinal era cobrado pelos deuses. Os faraós e faraotisas, assim que nasciam, já pediam atestado. A primeira palavra não era papá ou mamã, mas atetado, ou seja, atestado de que eram parentes dos deuses. E passavam a vida esperando. Então, como estava demorando muito, eles ao morrer eram mumificados: e enterrados com suas riquezas (eles não eram enterrados, eram empiramidados). E quando o atestado ficasse pronto eles não precisariam mais se desfazer das riquezas. No ano passado, em Assuã, ficaram prontas algumas dezenas de atestados que confirmam que algumas dezenas de faraós eram parentes de deuses. Mas estão sem valor. Embora os faraós continuem embalsamados, os deuses já morreram e se decompuseram, porque confiaram na sua imortalidade e não tomaram providências para a mumificação. Claro que isso jamais aconteceria hoje. Hoje em dia a burocracia já está mais dominada. Existem vacinas muito eficientes, que infelizmente não estão ao alcance de todos. A vacina contra a burocracia mais forte e batatolina (essa expressão é antiga ou não existe e eu estou meio louco?), ou seja, que acaba de uma vez com a burocracia, é o poder. O poder econômico ou o poder poderoso são duas maneiras de exterminar a burocracia. Um bilhete, um telefonema e está tudo resolvido em 24 horas, instant-service, quase self-service. Se os faraós já tivessem conhecimento de tão prodigioso preventivo, jamais seriam mumificados. Rabiscariam uns hieróglifos em pedra timbrada e assinariam. Todas as portas seriam abertas. Mesmo se algum faraó não fosse parente nem por Adão e Eva dos deuses, ele conseguiria o atestado. O **jeitinho** (laboratórios Merque, Blumenau) é outra vacina de amplo espectro contra a burocracia. Pode funcionar acoplada ao **poder** (laboratórios MarkDavis, Joinville), e dá excelentes resultados sem contra-indicação e sem efeitos colaterais como denúncias, furos, processos penais e outras excrescências sudoríparas. Os dois combatem eficazmente não só a burocracia como também as maledicências, sarna, caspa, coceira e gastroenterite. Há casos comprovados em que as duas vacinas também combateram com eficácia reclamações, gritos de “olha o furo na fila” e expressões como “há algo de podre no reino da Dinamarca”. Evidente que apenas o **jeitinho** (em cápsulas de 200mg ou spray aerosol) não vai muito longe, embora abra muitos caminhos antes totalmente bloqueados com enxames de burocracias. Em todo caso, sorria sempre que enfrentar uma burocracia. As portas tendem a fechar-se com mais insistência se você não for simpático, satisfeito, acomodado e bem vestido. A burocracia vive em ambientes fechados, cheirando a goma-arábica e tinta de carimbo. A proliferação da burocracia pode ser percebida através de uma observação simples das pilhas de papel empoeirado que se acumulam sobre as mesas, no chão, nos cantos e nos armários. Outro sintoma também são os guichês. Quanto mais protegidos, cheios de anteparos e guardas e bancos de espera, maior possibilidade de se encontrar ali a temível *burocraciae-gigantescus*, comumente chamada de “pára tudo, tá na hora do cafezinho!” Como efeitos colaterais da burocracia estão as filas, os gastos excessivos de sapato e passagem de ônibus, os gastos em fotografias 3x4 e 2x2, os gastos em formulários, selos, cursos para preenchimento, extinção da paciência, surra nos filhos, tapas na mulher e topadas no meio-fio. A burocracia precisa ser combatida, entretanto, preventivamente. Em algumas cidades dos Estados Unidos, fizeram testes, durante dez anos, para prevenção da burocracia, adicionando flúor na água potável na proporção de uma parte em um milhão. Quando os testes estavam concluídos descobriram que, por um erro burocrático, em lugar dos testes contra burocracia tinham sido feito testes com flúor para prevenção de cáries. ### Pra que serve a memória? URL: https://cesarvalente.com/pra-que-serve-memoria/ Last updated: 2026-07-05T08:17:11.000Z > *(Texto publicado em 16 de fevereiro de 2017 e republicado para não esquecer)* Quando comecei a trabalhar como jornalista, a ditadura militar brasileira estava a mil. No final da década de 60 e início da de 70 tinha AI-5, jornais, teatro, música e livros censurados. A gente aprendia, muito rápido, a ler nas entrelinhas, a perceber os sinais de fumaça e, principalmente, que era preciso tomar posição. Ou se era a favor, ou contra. A favor das liberdades e contra a ditadura, ou a favor da tortura e da censura e contra "a baderna e o comunismo". Isso era uma coisa muito clara na cabeça de muitos de nós, jovens jornalistas: não dá pra dialogar com quem não quer conversa. Não dá pra ter "jogo de cintura" com quem defende o pensamento único. *Hay gobierno, soy contra*. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/lossy-page1-1431px-artistas_protestam_contra_a_ditadura_militar_-_tonia_carreiro_eva_wilma_odete_lara_norma_bengell_e_cacilda_becker-tif.jpg) Passeata dos cem mil, Rio de Janeiro, 1968\. Da esquerda (claro!): Tônia Carrero, Eva Wilma, Odete Lara, Norma Bengel e Cacilda Becker. Foto do acervo do Arquivo Nacional. Claro, nem todos pensavam assim. A demonstração mais clara e concreta que a gente teve da existência de jornalistas "a favor", foi quando começamos a nos interessar pela luta sindical e resolvemos ver como funcionavam o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina e o seu braço social, a Casa do Jornalista. Naquela época, o governo do estado pagava o aluguel do imóvel ocupado pelo Sindicato e pela Casa. A diretoria era composta por assessores e jornalistas de confiança do governo. Naturalmente, todos anti-comunistas. E desdenhando daquela gurizada cabeluda e barbuda, de sandália com sola de pneu, bolsa a tiracolo, "tudo maconheiro", ou "tudo comunista", alguns dos quais, para delícia dos proto-xenófobos de plantão, nem eram nascidos em Santa Catarina. Vários de nós, eu inclusive, tinham uma boa relação pessoal com diretores do Sindicato. Eram "gente boa", bons contadores de história, conhecedores dos bastidores da política catarinense que, no entanto, cumpriam fielmente a tarefa de manter a Casa e o Sindicato longe das mãos nada confiáveis daqueles barbudinhos. #### O "MOS" A nossa falta de jeito com a política ficou clara já na primeira eleição que nos metemos a disputar. O "Movimento de Oposição Sindical" (MOS) foi criado informalmente, com o objetivo de reunir o pessoal que queria renovar o Sindicato. Uma chapa foi inscrita e começou a campanha. Os titulares da situação, estranhamente, estavam muito tranquilos. Logo descobrimos que a tranquilidade se devia ao fato de que o MOS não tinha votos. Ninguém se lembrara de fazer com que os partidários da mudança se sindicalizassem. A "base de apoio" era barulhenta e numerosa, mas não votava. Para a eleição seguinte esse "detalhe" foi administrado com cuidado e, mesmo com todo o excessivo rigor com que cada ficha era examinada e reexaminada, conseguimos sindicalizar um número suficiente de colegas e o pessoal da situação começou a suar e teve que se mexer. Eles também se atrapalharam em alguns momentos. O MOS foi fazer campanha no Oeste e, poucos dias depois, a situação foi também. Um dos diretores, empolgado e achando que estava ganhando a platéia, começou a "acusar" a chapa de oposição de ser composta por gaúchos. E falou mal dessa "ingerência externa" em Santa Catarina. Ora, na região de Chapecó, quem não é gaúcho, é filho ou neto de gaúchos. O jornal mais lido na região, naquela época, era o Correio do Povo, de Porto Alegre. O auditório ficou estarrecido com a falta de noção do sindicalista da capital. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/receitas.jpg) Receitas de doces e salgados marcavam o local das matérias censuradas Quando o Moacir Pereira era presidente do Sindicato, a turma de "esquerdinhas" conseguiu ter um bom relacionamento com ele. Moacir bancou a vinda a Florianópolis de jornalistas "de oposição" para debates e palestras e ficou amigo do Audálio Dantas (combativo presidente do Sindicato de São Paulo). Tinha, conosco, uma boa convivência. Mais de uma vez usou seus relacionamentos para interferir a favor de colegas perseguidos ou presos. Eu o admirava por ser, dentre os colegas "de direita", o que mais conseguia aceitar e conviver com quem pensava diferente dele. A mesma postura permitiu que ele, como fundador e primeiro coordenador do Curso de Jornalismo da UFSC, se cercasse de colegas "de esquerda" e não tivesse criado obstáculos para a entrada de profissionais cuja orientação marxista era notória. E que, afinal, foram fundamentais para que o Curso chegasse a um bom padrão de qualidade. Ninguém pensava, pelo menos no grupo com que eu mais convivia, em dissimular a posição política ou fazer de conta que não era bem assim. Ao contrário. Apesar da dificuldade que significava conseguir emprego ou alguma promoção nos veículos de então, todos muito alinhados com o governo e mortos de medo da milicada, era importante marcar posição, ter posição e afirmar, sempre que possível, que somos contra a censura, a tortura e os generais no poder. #### DE VOLTA AO PASSADO Com a "redemocratização" (feita *a la mode*, com eleições indiretas e grande acordão), a coisa foi se diluindo. Éramos todos democratas. A "esquerda" foi admitida no Poder. Meio aos solavancos, porque já no primeiro governo tivemos que engolir o Sarney, que nos fez engolir sua turma. O tempo passou, o MDB virou uma grande arena (em tudo e por tudo semelhante à Arena original), o PT conseguiu os votos que faltavam, Lula-lá e coisa e tal. A esta altura até quem, na década de 70, lambia coturnos, se apresentava como "democrata", defensor dos frascos e comprimidos. O mundo, contudo, deu voltas. As águas barrentas e contaminadas passaram sob a ponte. E estamos de volta a um momento da História em que quem está no poder não quer conversa, porque só considera legítimo quem pensa como eles. O "diálogo" possível é aquele que começa com "pois não?" e termina com "sim senhor". Ou "sim senhora". Os "comunistas", os "petistas", os "petralhas", são categorias que englobam os banidos. Não faz a menor diferença não ser petista e ter criticado Lula e o PT durante décadas, se não reza pela cartilha oficial, passa a ser inimigo. E inimigo é tudo igual. Tudo "esquerdista". Exatamente como acontecia na década de 70\. E não tem importância que vários dos que roubaram durante o governo do PT, estejam no "novo" governo: só os petistas continuam sendo chamados de ladrões. "Comunista ladrão", "volta pra Cuba", é o que se lê nas "redes sociais", em perfis de gentis senhoras, em tudo e por tudo semelhantes às que batiam panelas nas marchas da família contra o comunismo, nos anos 60. Foi importante, em certo momento, não ter posição clara, não ser a favor nem contra, mas "aberto a todas as possibilidades, porque o mundo não é mais só preto e branco". Mas a escuridão está aí, de volta. Por isso, tal qual naquela época, é importante marcar posição, descer do muro e assumir os riscos de ser quem somos: a favor ou contra? A favor da liberdade sem adjetivos e contra a censura. Contra as injustiças e a involução das conquistas sociais. Isso nos criará inúmeros problemas e dificuldades. Não seremos mais recebidos em muitos ambientes. Rirão de nós nas rodinhas de engravatados. Seremos tratados com os rigores da lei ("aos amigos, tudo, aos inimigos os rigores da lei" é uma daquelas frases de autoria incerta, às vezes atribuída a Maquiavel, às vezes a Getúlio Vargas). Assumir publicamente posições que desagradam os poderosos da hora não é coisa para fracos, para democratas de facebook, para quem gosta de ser paparicado. Mas, se para alguma coisa a memória serve, e se alguma utilidade tem a experiência acumulada em décadas, parece-me que agora, tal qual no distante 1970, a melhor coisa a fazer é assumir-se. Sair do armário confortável e protegido das "frentes amplas" em que muitos de nós vivemos por tanto tempo e enfrentar a realidade: o País que essa gente está construindo não tem nada a ver com o País em que eu gostaria de viver. E, diante disso, não se deve ficar calado, inerme ou invisível. Tal e qual naqueles anos de chumbo, neste tempo de agora não adianta tentar explicar, aos que se acham donos da cocada preta, que ser contra uma coisa não significa perdão automático para erros e ser a favor disso ou daquilo. Essa confusão simplista proposital faz parte da retórica de intimidação e os ajuda a pensar que entendem situações complexas. Não tenho partido, não faço parte de nenhum grupo, mas tenho posição. Sei onde estou e para onde quero ir. Vejo, cada vez com maior clareza, quem são e como agem os intolerantes e os imbecis. E me esforço, sem ingenuidade, para não ser nem agir como eles. Para isso serve a memória. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/edit-pasquim.jpg) Editorial de O Pasquim, no dia em que a censura prévia foi suspensa ### E AÍ, MALAS PRONTAS? URL: https://cesarvalente.com/malas-prontas/ Last updated: 2026-07-05T08:17:17.000Z > Uma das coisas que eu mais gosto de fazer, é escrever sobre viagens. E uma das coisas que eu menos gosto de fazer é ler sobre as viagens dos outros. Imagino que, nisso, não esteja sozinho. Porque, cá entre nós, se é sempre meio chato a gente ver que os amigos estão se divertindo em lugares que não conhecemos, é pior ainda se estão onde já estivemos. E a coisa fica insuportável se são inimigos, ou desafetos. > > Por isso, e a partir disso, tenho procurado só escrever sobre as minhas viagens em privado. Sem publicar. Sem mostrar nem para os netos (que eles também não merecem ficar lendo sobre o que o vô viu aqui ou ali). Mas a dona Lucinha acha tudo isso uma bobagem. Estranhamente, ela gosta de ler relatos de viagem e coisas relacionadas com viagens. Fazer o quê? Tem gosto pra tudo. > > Bom, esses prolegômenos são só pra dizer que vou trazer pra cá algumas coisas que tenho pensado ou escrito e que, espero, possam interessar a alguém que, como a dona Lucinha, não ache isso chato. Nem insuportável. ### ESTRATÉGIAS Em toda e qualquer viagem, o que acho mais cansativo é fazer e desfazer as malas. Meu sonho de consumo é fazer as malas antes e desfazer ao chegar. Mas isso é impossível. Porque muitas coisas que a gente precisa durante a viagem, como as cuecas, por exemplo, em geral estão dentro da mala. Então a minha experiência comprovou que será sempre necessário abrir as malas em algum lugar e fechar ao retornar. Para minimizar esse aborrecimento, desenvolvi duas estratégias principais. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/navio1.jpg) Porto de cruzeiros de Santa Cruz de Tenerife, nas Ilhas Canárias, Espanha. O "hotel" tá lá, estacionado. #### 1\. O NAVIO Qualquer dia, num desses textões viajantes, vou tratar especificamente dos cruzeiros e contar o que penso deles e o que já passei dentro de navios. Mas, agora, o navio está aqui apenas como exemplo de uma brilhante forma de viajar sem ficar abrindo e fechando malas. É simples, óbvio: a gente faz as malas e vai para o navio. Lá, desfaz as malas na cabine e pronto. O hotel/ restaurante nos leva de cidade em cidade e a gente não precisa fechar as malas. Só quando termina o cruzeiro. Isso de viajar no hotel é uma grande ideia, que nos poupa desses abre/fecha intermediários. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/mapa1.jpg) Cada dia, um trajeto diferente, sempre voltando à noite para a base. #### 2\. A “BASE” Quando se quer conhecer algumas cidades, numa região que não seja servida nem por rios navegáveis nem por oceanos ou lagos, o navio não é uma opção. Mas há alguns anos resolvemos (quando uso o plural não é o tal do plural majestático, mas apenas a indicação que a dona Lucinha deu pitacos no assunto) esse problema adotando o seguinte esquema, fruto de algum planejamento e muita pesquisa no google maps: procuramos um bom lugar pra ficar mais ou menos no centro da região que pretendemos conhecer. Há alguns anos fizemos isso na Provence, sul da França. Encontramos uma pousada simpática ao lado de um castelo, em Cazan, perto de Lambesc ([La Commanderie des Taillades](http://www.lacommanderie.info/infos/?ref=cesarvalente.com), da Evelyne e do Régis). Dali, todos os dias, saíamos em uma direção. Rodávamos uma ou duas horas, até a cidadezinha que queríamos ver, passávamos o dia por ali e voltávamos à noitinha para a pousada. Nada de ficar abrindo e fechando malas. Nas distâncias europeias isso não só é possível, como muito recomendável. De vez em quando a gente repete o esquema, em outras regiões. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/nuvens-chile-261.jpg) Os Andes, entre o Chile e a Argentina. ### PLANEJAMENTO Existem viagens feitas de improviso, sem muito planejamento, que dão muito certo, mas temo que sejam exceções. Os riscos são grandes. Eu prefiro planejar, não só porque a viagem fica mais tranquila, mas principalmente porque os dias em que fico ocupado planejando, me dão quase tanto prazer quanto a viagem propriamente dita. Mas, é claro, dá trabalho e exige, sobretudo, uma certa dose de paciência. Mesmo se a ideia é ficar uns dias sem nada programado previamente, zanzando sem compromisso pra sentir o clima do lugar. A parte mais chata desse processo é a compra das passagens. Primeiro porque na data que a gente resolve comprar sempre os preços estão mais altos, depois porque nunca tem vôo direto ou com pouco tempo de aeroporto. Sem falar na coisa de escolher os assentos. Isso, acho, talvez valha a pena ser examinado num capítulo próprio, qualquer dia desses. Por enquanto só queria dizer que essa é a primeira coisa a fazer, assim que as datas de ida e volta estiverem decididas. E, claro, é bom ter alguma flexibilidade. Não raro a gente escolhe partir no dia 20 e ao abrir o site da empresa aérea descobre que, dois dias depois, ou antes, a passagem está bem mais barata. Uma coisa importante que nem sempre a gente se dá conta: se tiver trecho doméstico, antes de pensar em procurar outra companhia, é sempre preferível ver se não é possível fazer com a mesma companhia do trecho internacional. Por vários motivos: o primeiro deles, o preço. Não me perguntem por que, mas o fato é que, em muitos casos, o vôo doméstico na mesma companhia não aumenta o valor da passagem internacional. Ou aumenta menos que o valor de uma passagem doméstica em outra companhia. Mas tem outro motivo mais importante ainda: quando a gente contrata o transporte da cidade que a gente sai até a cidade em que a gente chega, a empresa transportadora tem responsabilidades sobre todo o trajeto. Se uma perna do vôo atrasa, por exemplo, eles têm que dar um jeito de nos colocar em outro vôo. Se são duas empresas, com passagens compradas separadamente, se um vôo atrasar, azar, perdeu a passagem do vôo seguinte. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/earth1.jpg) Dá pra "viajar" nas fotos e nos mapas, pra ver direitinho onde a gente está se metendo. ### A INTERNET! A INTERNET! Definida a data e horário de chegada e a data e horário de partida, pode-se começar a parte divertida, que é montar o quebra-cabeças. Para onde ir, como, quando, onde ficar, onde não ficar, o que visitar, o que evitar. E, para isso, a internet fornece ferramentas espetaculares. O google maps e o google earth permitem que a gente dê uma estudada na região, veja as distâncias, analise os trajetos e até espie como anda o trânsito na cidade. Dependendo da cidade, da região ou do programa, sempre é interessante sondar o [**AirBnb**](https://www.airbnb.com.br/?ref=cesarvalente.com) ou programas como o [**HomeExchange**](https://www.homeexchange.com/dashboard?ref=cesarvalente.com) (troca de casas, com intercâmbio ou com pontos). Em geral se consegue um bom apartamento ou casa, por um preço inferior ao dos hoteis. E nessa pesquisa o [**google maps**](https://www.google.com/maps?ref=cesarvalente.com) é fundamental: com o [google street view](https://www.google.com/streetview/?ref=cesarvalente.com) (aquele hominho amarelinho que a gente arrasta pra cima da rua) é possível conhecer a região pra ver se é simpática, se parece boca braba, se tem comércios por perto. Bom, se estás indo para a China, a história é outra: o google maps não tem muita serventia, porque não pode mostrar imagens de satélite e não tem street view. Eles têm o próprio google maps deles, mas isso é conversa para outra hora. Existem cidades, ou regiões, em que alugar um carro é viável, necessário e útil. Mas também tem aquelas em que é pura perda de tempo e dinheiro. Várias das cidades mais interessantes do mundo são ótimas para pedestres. Não só porque têm áreas adequadas para se caminhar, como também porque têm bons serviços de transporte público. E, por coincidência, muitas delas são um inferno pra se andar de carro. Paris, Londres e Roma são exemplos dessas cidades. No entanto, na internet a gente consegue descobrir essas coisas com facilidade. O que não falta é gente chata contando suas viagens e dando dicas e conselhos. Ao longo das idas e vindas estabeleci algumas normas pétreas no meu planejamento de viagens: #### 1\. CHEGUE DE DIA! Procure ao máximo, no limite de todas as forças, chegar a uma nova cidade com dia claro. Claro, pode ocorrer algum imprevisto e acabares chegando à noite. Mas nunca, nunca, faça isso de propósito ou de caso pensado. Lugar que a gente não conhece tem que chegar de dia. O ânimo é outro, a gente tem uma ideia melhor de onde está e, vocês sabem, a primeira impressão pesa muito. #### 2\. LOCALIZAÇÃO! A localização onde vais te instalar, mesmo que seja por uma noite, é tudo. Se alugares carro, não precisas ficar no centro nervoso. Mas também não vai pros cafundó, longe de tudo. E se estiveres a pé, dá uma espiada onde ficam as estações de metrô, as linhas de ônibus, como é a redondeza, se tem padaria, supermercado, gente na rua. Porque vai que num dia deu um cansaço e não queres ir passear, tem onde comer e tomar um café por perto? #### 3\. CALMA! Com as passagens caras, é comum a gente pensar que precisa ver trocentas coisas, aproveitar o tempo ao máximo, conhecer dez países em cinco dias. Não vale a pena. Não entrem nessa. É preferível fazer um trajeto menos ambicioso, mas que permita usufruir das duas coisas principais das viagens de turismo: conhecer (e não só passar por) lugares novos e descansar. Parece meio contradição em termos, isso de viajar e descansar, mas é só planejar direito, sem querer, numa viagem de 15 dias, conhecer meio mundo. Não dá e, se dá, não vais aproveitar nada e no fim da viagem estarão todos um caco, cansados, brigados e muito arrependidos de terem entrado nessa fria. Tem cidades, como as já mencionadas Paris, Roma e Londres, em que podemos ficar por uma semana, sem ver tudo e sem se chatear. Mas, mesmo se o objetivo é conhecer regiões do interior, cidadezinhas pequenas, vão com calma. Pra dar tempo de se espreguiçar, tomar café, provar uma torta, olhar a paisagem, tirar fotos que não fiquem tremidas pela pressa e voltar ao hotel ou à casa sem bolhas nos pés. Por isso o planejamento é importante: na internet a gente consegue saber o que tem de interessante em qualquer lugar, em qualquer biboca, em qualquer país. Mesmo na China, ou na Coréia do Norte. Ou no Brasil. E aí é só puxar o freio e ver o que é possível fazer sem ter que correr. E escolher: algumas coisas, lugares, ficam para uma próxima viagem. Para que sobre tempo e disposição para usufruir, bem e com calma, as coisas que foram escolhidas para esta viagem. ![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/tejo1.jpg) Ponte 25 de abril, sobre o rio Tejo, em Lisboa, vista de um "hotel flutuante" ### ENTÃO TÁ Bom, acabei me empolgando e escrevi um montão. Acho que por hoje chega. Como disse, eu gosto muito de escrever sobre isso. Se tiveram paciência de ler, quiserem mais ou mesmo se tiverem alguma dúvida específica, por favor digam nos comentários. Não sei tudo, nem viajei tanto quanto gostaria ter viajado, mas tenho a impressão que, querendo vocês ou não, voltarei a falar neste tema. É ótimo pra esquecer um pouco das tosquices do dia-a-dia. ### COMEÇAR DE NOVO URL: https://cesarvalente.com/comecar-de-novo/ Last updated: 2026-07-05T08:17:19.000Z No dia 23 de maio de 2014, com o pretensioso título de **"O fim de uma era"**, comuniquei aos leitores do blog **"De olho na capital"**, que estava encerrando os trabalhos por ali. Reproduzo, abaixo, trechos daquele post, porque contam um pouco da trajetória online deste que vos fala, e que retorna, agora, para mais uma etapa. Não sei se notaram, mas estão numa página cujo endereço é **cesarvalente.com** e que tem jeito de blog e cara de blog. A vida no facebook, twitter e instagram pode ser divertida e variada, mas quando a gente quer escrever um pouco mais e garantir acesso a quem quiser ver o que estamos publicando, ter um site próprio é importante. Em 2014 achava que não era mais necessário ter endereço próprio. Em 2019 mudei de ideia. Então, se colocares este endereço nos teus favoritos, poderás me visitar sem que algum algoritmo se intrometa e diga que outra coisa é mais relevante. Sejam bem vindos. Esta casa ainda está em construção (com a ajuda do Pedro Valente) e naturalmente aceito palpites, pitacos e até críticas (ao contrário do governo tosco®, que não tolera que lhe apontem os erros). Por enquanto tem pouca coisa, apenas alguns artigos que estavam no Medium.com, mas com o tempo ficará mais ajeitadinha, com móveis e eletrodomésticos que a tornem mais confortável e acolhedora. Ah, a fotona acima, feita pela Lúcia Valente, tem como cenário os pessegueiros em flor, do belo pomar que o Tarcísio Mattos mantém na sua bela [pousada Pedras Rollantes](http://pousadapedrasrollantes.com.br/?ref=cesarvalente.com), em Alfredo Wagner. Abaixo, as reminiscências que trouxe do último post do ["De olho na capital"](http://www.deolhonacapital.com.br/?ref=cesarvalente.com). ### O FIM DE UMA ERA (23/5/2014) O dia do aniversário é ótimo para tomar decisões que estavam pendentes, aguardando uma dose adicional de coragem. Vi hoje que o Alexandre Gonçalves encerrou o [**Coluna Extra**](http://colunaextra.blogspot.com/?ref=cesarvalente.com), blog que ele mantinha desde 23 de maio de 2004\. E aí resolvi seguir a corrente e também fechar este botequim. Por vários motivos, alguns dos quais explicados na crônica da Cora Rónai, que está abaixo. Para ver o post final e saber os motivos do Alexandre é só ([clicar aqui](http://colunaextra.blogspot.com/2014/05/apos-10-anos-o-ultimo-post-do-coluna.html?ref=cesarvalente.com)). Não é uma decisão difícil, nem deve causar surpresa. Esta ferramenta foi muito útil, muito interessante e ajudou bastante na popularização da internet como fonte de informação. Mas, como tantas outras, perdeu seu espaço e sua praticidade. A partir de hoje, portanto, quem passar por aqui não encontrará coisas novas, mas poderá consultar os arquivos, que ficarão abertos (como também estão na versão anterior do DONC, [aqui](http://www.deolhonacapital.blogspot.com.br/?ref=cesarvalente.com)). #### BREVE HISTÓRIA DO BLOG O primeiro blog que fiz, em 2001, era um blog militante. Os jornalistas da Gazeta Mercantil estavam em greve (na época eu trabalhava em São Paulo, na sede do jornal) e era preciso informar a todos do que ocorria, manter a mobilização e difundir rapidamente os comunicados e convites para assembléias. O blog foi um auxiliar importante. Não era, portanto, um blog pessoal, as notas não eram assinadas, mas ali aprendi a manejar e a administrar essa forma de contato com o público. Não consegui mais achar o leiaute da página, mas ainda tenho algumas charges que a gente publicou na época, denunciando as condições de trabalho (com salário atrasado) e algumas decisões esdrúxulas da justiça trabalhista, que parecia às vezes estar de mãos dadas com o (mau) patrão. ![charge 1](http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2014/05/donc23-charge-gm1.jpg) Charge de 2001, publicada no blog da greve. A greve terminou e fomos todos demitidos, por e-mail e telegrama. Com centenas de jornalistas na rua, atrás de frilas em São Paulo, achei melhor voltar para Florianópolis, onde pelo menos tinha casa quitada e não precisaria pagar aluguel. Aqui, para não enferrujar e continuar escrevendo, criei um blog, desta vez pessoal. O Carta Aberta, que tinha, como subtítulo, “uma espécie de livro de crônicas”. Foi a minha janela para mundo de 2002 a 2005\. Não era um blog “jornalístico”, ou de política, era, apenas, uma espécie de livro de crônicas. ![donc23-cartaberta2002](http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2014/05/donc23-cartaberta2002.jpg) A “cara” inicial do Carta Aberta, em 2002. ![donc23-cartaberta2005](http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2014/05/donc23-cartaberta2005.jpg) A partir de 2003 o blog ganhou um leiaute mais caprichado Em 2005, o Diarinho me convidou para fazer uma coluna de política estadual que tivesse o jeitão do… Diarinho. Aí larguei tudo o que estava fazendo, inclusive o Carta Aberta, e iniciei o novo projeto. A coluna no jornal era diária e aí não sobrava tempo para fazer outro blog. Resolvi então abrir um blog com o mesmo nome da coluna (“De Olho na Capital”), onde publicaria o que saiu na versão impressa. E assim tem sido, com algumas modificações e alterações (hoje a coluna do jornal é publicada apenas duas vezes por semana, por exemplo) mas, em geral, o que saiu no jornal está aqui. E tem várias coisas que foram publicadas aqui mas não estão no jornal. ![donc23-donc2005](http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2014/05/donc23-donc2005.jpg) O primeiro leiaute do DONC, que durou vários anos. ![donc23-donc2014](http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2014/05/donc23-donc2014.jpg) A “cara” mais limpa do blog, adotada em 2009. **TÁ COM SAUDADE? JÁ TEM O LIVRO?** Os primeiros dois anos deste blog (agosto de 2005 a agosto de 2007) foram muito divertidos e movimentados. A coluna era diária e acabei produzindo muito material. Tanto que achei que seria legal armazenar os “melhores momentos” em uma outra plataforma: em 2010 publiquei (em parceria com o Diarinho) o livro **“De Olho na Capital: Os dois primeiros anos”**. São 200 páginas de irreverência e bom humor que mostram como era a política estadual (e nacional) naquele período. ![Capa do livro](http://www.deolhonacapital.com.br/wp-content/uploads/2014/05/donc23-capa-livro.jpg) Capa do livro com material do blog e da coluna Obrigado a todos e todas que me honraram com a leitura neste espaço ao longo de tantos anos. Espero que possamos continuar amigos, em outros endereços. --- Trago pra cá, já que estamos falando nessas idas e vindas dos blogs, um texto da Cora Rónai, de abril de 2014, que lido em 2019 levanta ainda mais dúvidas sobre que plataforma usar para informar e informar-se. ### E os blogs pessoais, hein? > *(Publicado em O Globo, Sociedade, 18.4.2014)* **Por Cora Rónai** – Você abandonou o blog! — cobrou um leitor das antigas. – Não é bem isso, — desconversei. — Só mudei de ritmo, deixei de fazer atualizações diárias, ponho menos fotos… – Justamente: você abandonou o blog. Não se pode discutir contra evidências: eu abandonei o blog, embora me custe reconhecê-lo e, ainda mais, confessá-lo. O “internetc.”, que nasceu em 2001, e que eu não conseguia explicar para ninguém naqueles tempos em que as pessoas já sabiam o que era um site, mas ainda não compreendiam o conceito do blog pessoal, é hoje apenas um repositório das colunas que escrevo para o jornal, uma forma simples de manter à mão textos dos quais eventualmente venha a precisar. Os mesmos textos existem no OneDrive e no Dropbox, mas, bem ou mal, ainda há resquícios de caixas de diálogos no blog, onde um que outro leitor deixa o seu recado. o O o Fazer um blog em 2001 exigia certa determinação. Eu escrevia para onze pessoas, em dias de muita repercussão dezenove. Nenhum dos meus amigos entendia o que eu queria com aquilo, já que eu assinava coluna no Globo e editava todo um caderno de tecnologia. Para que é que alguém com tantos leitores se dava ao trabalho de escrever para meia dúzia de gatos pingados? Nem eu sabia muito bem. O que me entusiasmava era a ideia da comunicação instantânea, mas como às vezes ninguém aparecia no blog, ficava no ar uma pergunta bastante pertinente: comunicação com quem, cara pálida? Na melhor das hipóteses, com os outros autores de blogs. A comunidade era pequena, todos nos conhecíamos, e era de bom tom fazermos visitas uns aos outros. Até hoje tenho ótimos amigos desses tempos pioneiros. Depois do fatídico 11 de setembro, que revelou ao mundo a existência dos blogs, veio uma época de ouro, em que muitas pessoas — mesmo algumas que nem tinham blog! — apareciam regularmente, liam, davam palpite, trocavam ideias entre si nas caixas de comentários. Essas caixas eram todo um outro capítulo, porque não faziam parte integrante dos aplicativos. Eram bacalhaus escritos e mantidos por voluntários, que contribuíam para a “causa” pela mesma razão pela qual nós, blogueiros, escrevíamos: o prazer da experiência. Às caíam, às vezes nem entravam no ar, às vezes davam defeitos esquisitíssimos. Ninguém reclamava; fazia parte. Mas era graças a elas que a comunidade vicejava. O “internetc.” tinha leitores tão simpáticos que passou a ser chamado de “blogtequim” nas internas; era um ponto de encontro e de boa conversa, onde valia qualquer coisa, menos gente agressiva e mal educada. Uma das regras básicas da casa, porém, é que as discussões tinham que ser pertinentes ao assunto em pauta, para não virarem uma completa bagunça. A exceção eram as fotos de gato, em cujos comentários o tema era livre. Nessas áreas é que, por vezes, rolavam os melhores papos, que iam de discussões filosóficas a reclamações sobre calçadas esburacadas, passando por indicações de profissionais especializados e receitas de bolo. Nessa época, o cérebro dos blogueiros da ativa funcionava de modo curioso: em primeiro plano, realizava as funções habituais de qualquer ser humano; mas, por trás, só pensava no que daria ou não daria um bom post. Uma flor amarela! Um guarda multando um carro! Um assalto! Uma briga na esquina! Uma viagem! Um livro! Um filme! Uma topada! Um sorvete de caramelo! Tudo era virado, revirado e eventualmente aproveitado. Ou não. o O o Com o tempo, os blogs pessoais migraram, num movimento quase imperceptível, para o Facebook. Um dia um post que normalmente iria para o blog acabava no FB; no outro dia, mais um ou dois. Assim, antes que nos déssemos conta, o que antes chamávamos de blogosfera passou a ser rede social. O Facebook tem a vantagem de reunir, sob o mesmo teto, por assim dizer, todos os blogueiros que, nos velhos tempos, estavam espalhados pelos seus diversos blogs. Ninguém precisa mais sair à cata dos blogs alheios para ler o que andam pensando os amigos; basta ir para a página principal. Valeu a troca? ---