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# Precisa mesmo ter papel? /2
- URL: https://cesarvalente.com/precisa-mesmo-ter-papel-2/
- Published: 2021-05-25T21:07:42.000Z
- Updated: 2026-07-05T08:15:31.000Z
- Author: Cesar Valente
- Tags: Jornalismo, jornais, jornal impresso, O Estado, Rotativas, #Migrated-1783239192523, #wp, #wp-post, #Import 2026-07-05 08:13

Durante séculos a melhor solução para distribuir informações era imprimi-las em papel. Mesmo as notícias sobre os fatos recém acontecidos. O papel é portátil, durável e absorve bem as tintas. Como diz o velho ditado, o papel aceita tudo. Nesta série de três posts, algumas caraminholas sobre o fim dos jornais diários impressos em papel.

Bem antes de serem assombrados pela fuga dos anunciantes, os donos de jornal tinham pesadelos com o problemão que era distribuir aquilo tudo. Porque, não sei se vocês já pararam para pensar nisso, um jornal que não chega até o leitor, não pode ser lido.

![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/screen-shot-2019-10-21-at-11-34-52.png)

Algumas das sucursais de O Estado e seus endereços, no século passado. Esses pequenos anúncios eram "calhaus", inseridos nas páginas quando era preciso preencher algum espaço.

### "TEM QUE FECHAR CEDO!"

"Fechar o jornal", no jargão jornalístico (de antes da crise), era concluir a edição, completar o jornal, para que ele pudesse ser impresso. As impressoras off set médias mais comuns, na década de 80, faziam uns 30 mil jornais por hora. Então, se o caminhão da distribuição precisasse sair às 22h, o jornal tinha que começar a ser impresso antes das 21h. E entre a redação e a rotativa tinha que vencer várias etapas: composição, fotomecânica, paste up (paginação), fotolitagem e gravação da chapa.

Ou seja, dependendo da agilidade do pessoal da área gráfica, a redação talvez nem pudesse assistir ao Jornal Nacional (pra ver se estava publicando as principais notícias do dia) antes de "fechar" a edição. E por que diabos existia essa pressão de horários?

Porque o jornal que era impresso no Saco Grande, na Ilha de Santa Catarina e tinha que chegar, o mais cedo possível, a Chapecó, no oeste do estado, a quase 700 km dali. Ou porque o jornal era impresso em Joinville e tinha que chegar a Chapecó antes do O Estado. E os dois tentavam chegar a Chapecó pelo menos no mesmo horário que o Jornal de Santa Catarina, que levava a vantagem de ser impresso em Blumenau e que, portanto, tinha uns 200 km de vantagem.

E nem era uma viagem direta. No caminho, várias escalas, para abastecer os distribuidores intermediários. Uma rede considerávelmente complexa que fazia com que, até o meio dia, se pudesse ler as "últimas notícias" em qualquer lugar do estado.

Os jornais "nacionais", impressos no Rio e em São Paulo, enfrentavam desafios semelhantes, em escala... nacional. Lembro de ver a camionete da Folha de S. Paulo em Florianópolis, de manhã cedo (saía um caminhão de São Paulo e em Curitiba, acho, a carga era distribuída em veículos menores, para diversos roteiros no Sul).

![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/redacaoe.jpg)

A redação de O Estado, ainda no prédio do Saco Grande. Se não estou enganado, a partir da esquerda está o diagramador Pescoço, o editor Mário Pereira, o saudoso Toninho Kowalski e o diagramador Pecos Bill. No telex, o indômito Celso Vicenzi maneja essa maravilhosa máquina que ligava as sucursais à matriz e trazia as notícias das agências, .

![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/bundle-1853667_1920.jpg)

Quando era permitido embrulhar peixe com jornal, a gente ganhava um dinheirinho guardando os jornais e vendendo, a quilo, no mercado público. Tempo de jornais standard, que cobriam a tainha completamente. Depois, com os tabloides, o peixe ficava com o rabo de fora.

### TONELADAS DE PAPEL

Por mais que uma folha de jornal pareça leve quando a encontramos enrolando um peixe, no fundo da gaiola do curió ou forrando a caminha do totó, no auge dos jornais impressos o volume a ser distribuído sofria o impacto desse fato inegável: papel pesa.

Vamos examinar, rapidamente, o caso do jornal O Estado, que acompanhei mais de perto. Durante mais de uma década, entre os 70 e os 90 do século passado, o jornal tirava, em média 32 mil exemplares diários. Isso dava um volume que pesava aproximadamente duas toneladas e meia. E mais nos finais de semana, quando o jornal crescia bastante.

Toda madrugada os jornais eram carregados em seis camionetes, que cumpriam os principais roteiros de distribuição. Uma ia (pela 470), para o oeste. Primeira parada no Patussi (próximo a Curitibanos), para entregar o reparte que ia para Lages. Outra, para o sul (Tubarão, Criciúma, Araranguá e adjacências). A terceira para o norte (Joinville, principalmente). Mais uma, para o Vale do Itajaí (Itajaí e Blumenau). E duas abasteciam as bancas e vendedores da Grande Florianópolis e os entregadores para os assinantes.

Com o sucesso do jornal, os cadernos de classificados aumentavam, o número de anunciantes crescia e nos fins de semana, com frequencia, o jornal chegava a ter 120 páginas. Mais peso e mais problemas. A rotativa de O Estado imprimia cadernos de 16 páginas. Era preciso imprimir sete ou oito cadernos, para a edição de "domingo", que começava a circular no sábado.

Isso do jornal de domingo circular no sábado era uma maluquice trazida pelo concorrente gaúcho, mas falaremos nisso em outra ocasião. O fato é que, por causa das limitações da rotativa, o volumoso jornal de domingo começava a ser impresso na sexta-feira. No intervalo, se imprimia o jornal de sábado, pobre coitado, de vida ainda mais curta, porque às duas da tarde sábado já era possível comprar o jornal de domingo, na beiramar norte.

E se a logística de distribuir tudo isso no estado todo era complexa, não faltavam complicadores. Para imprimir o jornal em papel, é preciso ter papel, que chega em bobinas enormes. O Osmar Schlindwein, diretor comercial e industrial de O Estado, preocupado com o atraso de um caminhão de papel, com o estoque no fim e a edição de fim de semana esperando, saiu atrás. Não havia celular, mas ele era conhecedor dos hábitos dos caminhoneiros que faziam essa rota. Pegou a estrada e quando passou pela Vila Palmira, zona de prostituição próxima da BR 101, na Grande Florianópolis, encontrou o caminhão, carregado, estacionado. Teve que interromper o lazer do motorista, para que o papel chegasse ao jornal a tempo.

Mais tarde, quando os jornais começaram a ter dificuldades de caixa, o grande problema era pagar o papel, para poder imprimir e aí receber dos anunciantes. O papel, essa maravilhosa invenção que aceita tudo, sempre foi um problema.

![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/gazeta-mercantil-27-de-maio1999.jpg)

No alto da capa desta edição de maio de 1999, a informação das cidades em que o jornal era impresso: São Paulo, Rio, Brasília, Campo Grande, Curitiba, Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Belém e Manaus.

### A SOLUCIONÁTICA DA PROBLEMÁTICA

O **USA Today**, lançado nos Estados Unidos em 1982, encontrou uma saída para a distribuição nacional do jornal de papel: imprimir em várias gráficas. Isso foi possível porque a tecnologia de transmissão de dados via satélite permitia enviar, para diversos locais, simultaneamente, as matrizes das páginas. No Brasil, a Gazeta Mercantil seguiu esse caminho e nos anos 90 era impressa em muitos estados. Pelo menos nas capitais, chegava cedinho.

O desafio principal, nesse caso, superada a dificuldade de mandar os arquivos (a Gazeta foi uma das pioneiras em usar o pdf e a internet para isso), era encontrar gráficas, nos estados, com rotativas que suportassem o tamanho do jornal. Em alguns casos foram feitas adaptações nas máquinas, para que, em todo o Brasil, a Gazeta tivesse o mesmo padrão gráfico e as mesmas medidas.

No Rio Grande do Sul, o jornal Diário do Sul, um filhote do suplemento local da Gazeta Mercantil, iria ser impresso na rotativa da massa falida do Correio do Povo. Às vésperas de começar a operação, um arrozeiro comprou tudo e disse que não iria honrar os contratos de impressão da massa falida, porque queria relançar o Correio do Povo.

Sem rotativas disponíveis na Grande Porto Alegre, a solução foi imprimir o jornal em Santa Maria, a duas horas da capital. As chapas, feitas em Novo Hamburgo, eram transportadas de carro para Santa Maria e os jornais impressos trazidas de camionete para Porto Alegre. Uma insanidade logística, cheia de soluções engenhosas para contornar as dificuldades que, contudo, não foi o principal fator de fechamento (e aí, no sentido usual, de parar de circular mesmo) do jornal, poucos anos depois.

Durante algum tempo, com o surgimento das impressoras a laser, cogitou-se de transmitir os jornais para os assinantes pelo telefone, para impressão em suas impressoras domésticas ou corporativas. Quem sabe pela televisão? Ou ampliar gadgets como o utilizado para transmitir e receber telefotos? E o fax? Não daria para mandar os jornais por fax?

Todas essas gambiarras só ajudavam a perceber como é complicado entregar, fisicamente, um produto perecível. Um produto que era concebido e executado para não sobreviver ao dia seguinte. Um produto noticioso que durante algumas décadas morria de medo da concorrência do rádio, logo a seguir, morreu de medo da concorrência da televisão e finalmente, encontrou na internet seu concorrente mais feroz. A informação chega às telas que cada um de nós tem à disposição, no momento em que é publicada. Sem caminhão, sem camionete, sem horas de viagem. Sem papel.

Pra mim, com os recursos disponíveis hoje, com o acesso que tantos têm a celulares, tablets e computadores, não faz sentido distribuir notícias imprimindo-as em papel. E isso, claro, não tem nada a ver com mais ou menos jornalismo, com melhores ou piores jornalistas, nem deveria influenciar na qualidade da informação. Ao contrário: resolvido esse problemão, esse pesadelo logístico que é distribuir toneladas de papel por uma região extensa, poderíamos nos concentrar no que interessa, que é a informação correta, bem apurada e com credibilidade.

![](https://storage.ghost.io/c/99/bf/99bfcdbd-839f-4c02-90c2-3f4e97225a74/content/images/2026/07/capa-novembrada.jpg)

O "excesso de democracia" foi a causa da novembrada. Tá ali, na capa do jornal, opinião do "Palácio do Planalto". Capa do jornal de 1º de dezembro de 1979.

### COMO É QUE É?

Para quem não sabe como os jornais são impressos este video abaixo, que mostra as oficinas do [**The Globe and Mail**](https://www.theglobeandmail.com/?ref=cesarvalente.com) (Canadá), pode dar uma ideia. Os jornais catarinenses não tinham um equipamento tão grande e moderno, mas o princípio geral era o mesmo: uma matriz, de metal, é gerada pela imagem da página criada em softwares de editoração. A chapa é colocada na impressora, recebe tinta e a tinta é transferida para o papel, por meio de rolos intermediários de borracha. O papel, em bobinas, passa em grande velocidade e é impresso. Depois, é dobrado e cortado e vai para a etapa final, onde recebe encartes e é empacotado para a distribuição.

Quando li, na nota de despedida dos jornais da NSC, que iriam lançar uma revista semanal com o miolo "impresso a quente", fiquei curioso. Não tinha ainda ouvido falar de processos de impressão a quente para jornais. Neste video, quando falam no *heat-set*, lembrei que poderia ser isso a que estavam se referindo. É uma espécie de "forno", aquecido a 125°, por onde passa o papel recém impresso. É uma forma de fazer a tinta aderir melhor ao papel e secar mais rápido, para poder passar pelas várias fases a grande velocidade, sem risco de manchar e reduzindo as imperfeições causadas pela absorção mais lenta da tinta pelas fibras do papel. A rigor, não é impressão a quente, mas...

Amanhã, no capítulo final dessa série "comemorativa", vamos falar um pouco sobre picaretagem.

**pi·ca·re·ta·gem**  
(*picareta + -agem*)  
*substantivo feminino*  
\[Brasil\] Ação ou comportamento ardiloso, típico de pessoa que procura desse modo aproveitar-se dos outros.  
  
**"picaretagem"**, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa \[em linha\], 2008-2013, [https://dicionario.priberam.org/picaretagem](https://dicionario.priberam.org/picaretagem?ref=cesarvalente.com) \[consultado em 21-10-2019\].