Aquela velha crônica desbotada…

No dia 25 de junho de 1975 o jornal O Estado publicava esta crônica surrealista, que está abaixo. Hoje, passados 44 anos, encontrei o recorte, amarelecido, numa caixa de guardados. E achei que deveria republicar. Claro que, se fosse reescrever, mudaria várias coisas. Mas me contive e aí está o texto original. Com todas as falhas que um cronista jovem (22 anos) e inexperiente pode cometer. Enjoy.

A BUROCRACIA

Cesar Valente, em O Estado, 25 de junho de 1972, página 12.

A burocracia é um inseto venenoso feito as lêndias e brancóptero feito as microcefaléias. Por conceito podemos dizer que a burocracia não cia, nem rocia, mas retém, carimba, espera, gasta, detém, assina, suspira, mofa, enteia-se de aranhas e continua parada. Sempre que vemos uma burocracia devemos frear o carro. Atrás da burocracia vem sempre uma senhora gorda, de óculos bifocal, tricô na mão, olhar por cima do guichê e resmungar: “Já fechou, agora só amanhã”.

A burocracia foi descoberta alguns milênios antes de Cristo. Graças a ela a torre de Babel teve suas obras paralisadas. Foi também por obra da burocracia que no Egito se mumificaram os faraós. É uma história interessante. Como se sabe, os faraós do antigo Egito tinham parentesco com os deuses. Bom, o imposto de renda da época só era cobrado daqueles que não tinham parentesco com deuses, porque afinal era cobrado pelos deuses. Os faraós e faraotisas, assim que nasciam, já pediam atestado. A primeira palavra não era papá ou mamã, mas atetado, ou seja, atestado de que eram parentes dos deuses. E passavam a vida esperando. Então, como estava demorando muito, eles ao morrer eram mumificados: e enterrados com suas riquezas (eles não eram enterrados, eram empiramidados). E quando o atestado ficasse pronto eles não precisariam mais se desfazer das riquezas. No ano passado, em Assuã, ficaram prontas algumas dezenas de atestados que confirmam que algumas dezenas de faraós eram parentes de deuses. Mas estão sem valor. Embora os faraós continuem embalsamados, os deuses já morreram e se decompuseram, porque confiaram na sua imortalidade e não tomaram providências para a mumificação.

Claro que isso jamais aconteceria hoje. Hoje em dia a burocracia já está mais dominada. Existem vacinas muito eficientes, que infelizmente não estão ao alcance de todos. A vacina contra a burocracia mais forte e batatolina (essa expressão é antiga ou não existe e eu estou meio louco?), ou seja, que acaba de uma vez com a burocracia, é o poder.

O poder econômico ou o poder poderoso são duas maneiras de exterminar a burocracia. Um bilhete, um telefonema e está tudo resolvido em 24 horas, instant-service, quase self-service. Se os faraós já tivessem conhecimento de tão prodigioso preventivo, jamais seriam mumificados. Rabiscariam uns hieróglifos em pedra timbrada e assinariam. Todas as portas seriam abertas. Mesmo se algum faraó não fosse parente nem por Adão e Eva dos deuses, ele conseguiria o atestado.

O jeitinho (laboratórios Merque, Blumenau) é outra vacina de amplo espectro contra a burocracia. Pode funcionar acoplada ao poder (laboratórios MarkDavis, Joinville), e dá excelentes resultados sem contra-indicação e sem efeitos colaterais como denúncias, furos, processos penais e outras excrescências sudoríparas. Os dois combatem eficazmente não só a burocracia como também as maledicências, sarna, caspa, coceira e gastroenterite. Há casos comprovados em que as duas vacinas também combateram com eficácia reclamações, gritos de “olha o furo na fila” e expressões como “há algo de podre no reino da Dinamarca”.

Evidente que apenas o jeitinho (em cápsulas de 200mg ou spray aerosol) não vai muito longe, embora abra muitos caminhos antes totalmente bloqueados com enxames de burocracias. Em todo caso, sorria sempre que enfrentar uma burocracia. As portas tendem a fechar-se com mais insistência se você não for simpático, satisfeito, acomodado e bem vestido.

A burocracia vive em ambientes fechados, cheirando a goma-arábica e tinta de carimbo. A proliferação da burocracia pode ser percebida através de uma observação simples das pilhas de papel empoeirado que se acumulam sobre as mesas, no chão, nos cantos e nos armários. Outro sintoma também são os guichês. Quanto mais protegidos, cheios de anteparos e guardas e bancos de espera, maior possibilidade de se encontrar ali a temível burocraciae-gigantescus, comumente chamada de “pára tudo, tá na hora do cafezinho!”

Como efeitos colaterais da burocracia estão as filas, os gastos excessivos de sapato e passagem de ônibus, os gastos em fotografias 3×4 e 2×2, os gastos em formulários, selos, cursos para preenchimento, extinção da paciência, surra nos filhos, tapas na mulher e topadas no meio-fio.

A burocracia precisa ser combatida, entretanto, preventivamente. Em algumas cidades dos Estados Unidos, fizeram testes, durante dez anos, para prevenção da burocracia, adicionando flúor na água potável na proporção de uma parte em um milhão. Quando os testes estavam concluídos descobriram que, por um erro burocrático, em lugar dos testes contra burocracia tinham sido feito testes com flúor para prevenção de cáries.

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Cesar Valente Escrito por:

Jornalista e designer gráfico catarinense, manezinho, sessentão. Ex uma porção de coisas, mas sempre inventando moda.

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