INVISÍVEL

Não se trata de uma invisibilidade de histórias em quadrinhos, não tem o erotismo imaginado pelo Milo Manara em “Le Parfum de l’invisible”; ou o drama mostrado naquele filme preto e branco inspirado em H. G. Wells, em que a frustração por não conseguir voltar a ser visível acaba enlouquecendo o personagem. Não desapareço dos espelhos porque sou, em termos físicos e químicos, tão visível quanto qualquer coisa… visível.

Se alguém levantar o lençol da cama onde durmo, verá meu corpo. Mas por que alguém se daria ao trabalho de, em primeiro lugar, entrar no meu quarto, em segundo lugar, levantar o lençol? Para isso seria necessário que eu não fosse, fora dali, e o tempo todo, invisível.

Comecei a notar essa característica (deficiência?) há alguns anos, quando remexia umas caixas de antigas fotografias. Lembro da boa sensação de encontrar uma foto tirada ainda na escola primária, em que aparecem todos os meus amigos, a turminha com quem convivi durante uns bons anos. Eram, sem dúvida, meus coleguinhas.

Mas, depois de olhar por algum tempo a foto, percebi que eu não aparecia. Peguei uma lupa. Vai ver fiquei encoberto, procurei nas sombras uma parte do boné, os braços, as pernas finas de calças curtas. Nem mesmo as orelhas, afastadas o suficiente da cabeça para render muitos piparotes e brincadeiras apareciam. Nada. Eu estava invisível.

Na hora não consegui avaliar a extensão dessa constatação. Achei que se tratava de algum engano, guardaram a foto errada. Certamente haveria outra em que eu apareceria.


Poucos dias depois, numa roda de amigos, na mesa de um bar, um deles comentava sobre a grande manifestação pela volta das eleições diretas, a concentração diante da Catedral, para acompanhar a votação que acontecia no Congresso, em Brasília.

Eu estava lá. Com essa turma. Ajudei a ligar o telefone público no carro de som, para que todos ouvissem a sessão (que não estava sendo transmitida ao vivo por nenhum veículo). E era justamente sobre isso que o amigo, entusiasmado com as lembranças, falava. Enumerou todos os que participaram da “operação”. No embalo, outro e mais outro também citaram os colegas, detalhando o que cada um fez. Nenhum falou em mim. Eu estava lá mas, ao que parece, invisível.

Fiquei chateado com a ingratidão e a falta de consideração, mas ainda não somara um mais um. Até ver, no perfil do facebook de um conhecido, a foto dos formandos do segundo grau, no Colégio Catarinense. Sim, claro, a minha turma. Logo depois de entregar os certificados, todos eram reunidos no auditório, para uma foto junto com o Diretor e alguns professores. A turma inteira. Não lembrava mais, não tenho essa foto.

Como é interessante ver, ainda muito jovens, desajeitados de terno e gravata, guris que hoje estão em tribunais, empresas de engenharia, no serviço público, na cadeia… Olhei um por um. Lembro claramente de todos e vários ainda encontro de vez em quando. Nicolau, Afonso, Sebastião, Juarez… o Zé, ao lado de quem eu sentava.

Levei um susto por não me ver nessa foto. E, pela primeira vez, pensei nisso: sou invisível!

Corri a procurar os guardados e achei o certificado. Definitivamente, eu estava lá! Mas por que não apareço na foto do grupo, tirada logo depois?


Isso me fez pensar. Lupicínio já advertira que “o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar?” Voltei aos tempos de universidade, da luta renhida para tomar o centro acadêmico, da campanha feroz, em tempos de ditadura, quase perdendo o semestre, tamanho o empenho na política estudantil. Vencemos, tomamos o “poder”, e o fato de não ter sido convidado para nenhum cargo na diretoria, nem aqueles que ninguém queria, nunca tinha me despertado a curiosidade.

Fui ao sótão da casa da minha mãe, guardiã zelosa de tudo o que, se dependesse de mim, já teria jogado fora, e encontrei o jornalzinho com que comemoramos a vitória. Reconheci um dos textos, ufanista, gabola, com alguns erros. Meu texto, sem dúvida. Eu estava muito envolvido, não poderia deixar de participar do jornalzinho da vitória.

Li os relatos sobre a apuração. Citam nomes, mas não o meu. Engraçado, discuti com o chefe da comissão de apuração, juntou gente, teve deixa-disso, mas nada apareceu. Havia uma página com o “resgate” da campanha, nomeando todos os envolvidos, contando as principais peripécias. Quando vi que não me citavam larguei o jornal e parei, com o olhar perdido em alguma teia num canto do sótão. Invisível… !

O mais curioso é que eu tinha visto antes, na época, esse material, mas não tinha percebido a ausência. Nunca fui de querer “aparecer”, nunca procurei meu nome nos textos ou meu rosto nas fotos em grupo. Talvez porque nunca tenha lido ou visto. Talvez porque, inconscientemente, sabia que era invisível.


Ontem, essa característica que durante tanto tempo me acompanhou, silenciosa como uma sombra, voltou a me assombrar. Ao entrar na Lindacap vi, numa das mesas, um rosto conhecido. Nunca a esqueci. Quando jovens, vivemos por uns dias uma paixão intensa. Praia de Moçambique, dunas da Lagoa, assentos de fuscas, qualquer lugar era lugar, qualquer hora era hora. Foi como se uma faísca detonasse um barril de pólvora. Depois da explosão, do calor intenso, do brilho e do barulho, tudo se acalmou e voltamos para as nossas vidas.

Ela não deve mais lembrar de mim, provavelmente nem sabe mais quem sou. Está perto dos 60, mas continua linda. Passei direto, invisível, conformado com a não existência.

Mal chego à minha mesa, sinto um toque no ombro. Viro-me. Era ela e seu sorriso de derreter corações.

— Lembras de mim?

Veio para a minha mesa, conversamos por horas. Combinamos continuar a conversa na casa dela. Ela saiu e eu fiquei, para o último licor e a conta. Quis contar vantagem pro garçom, meu amigo.

— Vistes esta loira que almoçou comigo?

— Hoje?

— É, hoje.

— Tás de brincadeira, né? Almoçastes sozinho! Vais querer me engrupir que agora estás de rolo com a mulher invisível?

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Cesar Valente Escrito por:

Jornalista e designer gráfico catarinense, manezinho, sessentão. Ex uma porção de coisas, mas sempre inventando moda.

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